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Aldeia Galega da Merceana

by | 29 Dez, 2020 | Aldeias, Estremadura, Lugares, Povoações, Províncias

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Mais do que uma típica aldeia do Oeste, é um recanto esquecido, até dos próprios vizinhos. Para lá chegar, há que atravessar os campos bucólicos da zona saloia, um autêntico shire, pontilhado de vinhedos, pomares, capelas, ermidas e povoações dispersas e, muitas vezes, pouco concisas, preferindo espalhar-se pelas várzeas e colinas. Não é o caso da Aldeia Galega da Merceana, que optou por se aprimorar num pequeno outeiro, concentrada em ruas e ruelas com casas e templos, exemplos perfeitos da típica arquitectura estremenha.

Mas e o nome? Que dizer dele?

A sua denominação, tão específica e pormenorizada, resulta da evolução da própria terra ao longo dos séculos, na procura por identidade própria e autodeterminação.

História

Perto de 1930, Hipólito Cabaço, natural da terra, encontrou nas suas imediações uma estação eneolítica, de onde retirou machados polidos.
Hipólito, que emigrara em 1901 para França para se especializar na produção de vinhos (actividade tradicional da aldeia natal), mudou subitamente de paixão, ao desvendar nos museus franceses a arqueologia. Ao regressar, em 1903, iniciou uma próspera exploração da zona Oeste, sedimentando-o como um importantíssimo pioneiro da arqueologia portuguesa, ainda que ingratamente desconhecido de todos (as suas recolhas encontram-se sobretudo no museu, com o seu nome, em Alenquer).

Apesar desta anciã ocupação humana, a aldeia em si surge mencionada pela primeira vez na Reconquista, altura em que a Estremadura estava longe de ser o que é hoje. Espaço de fronteira e de guerras, naturalmente, era pouco povoada e desenvolvida.

Com a sua pacificação, tornou-se finalmente possível, a colonização dos enormes espaços vazios, a aguardar os aventureiros espontâneos e as regalias e incentivos dos monarcas, para a atracção de gente e a fixação definitiva dos novos marcos territoriais, livres da ocupação moura.

Nesta grei colonizadora, as origens eram múltiplas. Naturalmente, muita viria do Norte, onde a povoação galego-portuguesa se livrava de definições políticas e participava conjuntamente nos mesmos fluxos demográficos. Portanto, não é de agora nem recente a proliferação de gene galega em Lisboa e nas suas imediações, o que se comprova pela toponímia local. Assim sendo, o topónimo de Galega da Aldeia virá, mais provavelmente, da origem dos seus colonizadores, da segunda metade do século XII.

Num documento de 1223, na divisão de terras entre Sancho II e as suas tias infantas, surge pela primeira vez mencionada a zona como Montes de Alenquer.

No início do século seguinte, tinha-se já organizado como paróquia. Mais umas décadas e consegue obter de D. Dinis, a categoria de julgado (1282), ganhando um juiz e o seu próprio selo, independentes da vila e termo de Alenquer. Esta grande conquista advém do seu apelo junto do rei e da lealdade demonstrada com o seu tio, o rei D. Sancho, um claro sinal de D. Dinis para a nobreza e clero, demonstrando que não cederia às mesmas pressões e influências que haviam despoletado o afastamento do terceiro monarca de Portugal.

Mas o rei não se ficou por aqui e em 1305 concede-lhe foral, permanecendo ainda assim a ter como donatária a Casa das Rainhas. É nesta altura que começa a confusão da toponímia – um território a ganhar importância e ora referido como Concelho dos Montes de Alenquer, ora como vila e termo de Aldeia Galega ou ainda como Aldeia Galega de a Par da Merceana.

A menção da terra vizinha (no caso, Merceana) virá provavelmente da necessidade de a distinguir de outras tantas aldeias galegas na região, como a Aldeia Galega de São João das Lampas ou a Aldeia Galega do Ribatejo. Com o tempo, o a par da acabada por ser substituído por apenas da.

Já em 1513, é-lhe concedido por D. Manuel I o Foral Novo. Em 1527, contava com um total de “65 vizinhos, entre eles 6 cavaleiros e 8 escudeiros”.
Em 1801, tinha 1897 habitantes e em 1849, 4044 habitantes.

O concelho foi extinto em 1855 e integrado no município de Alenquer. Infelizmente, a sua perda de importância culminou na fusão com a freguesia de Aldeia Gavinha, em 2013, embora permaneça como sede.

Aldeia mas vila

Foi outrora, e talvez ainda seja, o centro de produção vinícola mais rico do concelho.

A proliferação de adegas cooperativas e vendas de verduras à beira da estrada apontam bem a actividade principal da zona, bastante fértil – vejam-se as quintas, ricas nas suas fachadas, denunciando a prosperidade de outros tempos e que agora se complementam com eventos e turismo verdadeiramente rural.

Rodeada por cultivos, a povoação em si retém ainda a torta traça medieval. As casas, anteriormente em adobe e telha de canudo e agora em tijolo e telha lusa, encostam-se umas às outras, exibindo pormenores tradicionais como o beirado à portuguesa ou o friso azul. Dois largos funcionam como os principais núcleos nevrálgicos da povoação. É nestes que se concentram as principais atracções.

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A típica igreja do Oeste

Traços da típica arquitectura do Oeste português

Largo do Pelourinho

No Largo do Pelourinho, o olhar foge naturalmente para… o pelourinho.

Belo e secular, esconde um mistério, não facilmente perceptível. Espiralado, com pinha oitavada e representações de romãs, vides, folhagem e ainda verga entrançada, sugerindo provavelmente as cercas de hortos ou jardins. O anel no topo até mostra o brasão do antigo concelho (cinco quinas rodeando uma árvore).

Mas, no meio de toda esta decoração manuelina, o mais singular é a inscrição na base com o ano de 1414. Como pode anteceder o foral manuelino de 1513? O 1414 pode referir-se à era hispânica e não cristã, ou seja, 1376. Ainda pior. Num inventário de 1537, entre os bens da paróquia é mencionado um terreno junto aos Pelourinhos. Poderá o plural significar que a dado momento, existiram dois pelourinhos? Se calhar um em ruínas e outro novo e manuelino? Se assim fosse, é possível que em determinada altura a base do antigo pelourinho tenha servido para colocar a coluna mais elaborada do novo, fundindo assim a antiga e nova autoridade local.
Para o ano que a inscrição remete, não se tem a certeza explicita sobre que alçada estaria a Aldeia Galega da Merceana. Pode ter sido a infanta Constança, esposa de D. Pedro I, a exercer domínio sobre a vila. De facto, Alenquer era sua pertença e, pela documentação da época, parecia que a Aldeia Galega partilhava o juiz com Alenquer, pois o nome do juiz é o mesmo, e tanto este como o tabelião apresentam-se em nome de Constança. Poderá, na altura, ter sido erguido um pelourinho? Não sabemos.

Aproveitemos então antes para admirar o fontanário e a Casa da Rainha, provável antiga câmara e actual sede da freguesia, também conhecida por Paço de Dona Leonor, pois, segundo a lenda, era aqui que pernoitava a rainha nas suas viagens entre Lisboa e Caldas da Rainha (que por acaso coincide com uma das potenciais vias medievais de contorno da Serra de Montejunto, vindo de Lisboa). Além da escadaria e porta com data de 1738, é de salientar a cabeça quinhentista isolada na parede.

A seu lado, a Igreja da Misericórdia, que remonta ao século XVI, é um bom mote para falar de outro núcleo de actividade importante da vila. O templo foi construído provavelmente no século XVIII por privados. Em 1989 funcionava como arrecadação ou adega, tendo finalmente sido doado em 1995 à Santa Casa da Misericórdia de Aldeia Galega da Merceana. Ora, esta instituição é de salientar, não fosse uma das vinte primeiras instituições criadas pela Rainha D. Leonor em 1499. No século XVII, a Rainha D. Catarina de Bragança cede o Convento de Santo António de Charnais para a construção de um hospital que ainda hoje funciona como um essencial centro de apoio social na zona.

Não deixa de ser curioso que a sede da misericórdia se encontre na vizinha Merceana, pois embora esta tenha inevitavelmente alcunhado a Aldeia Galega com a sua presença, foi dentro da sua freguesia que a misericórdia estendeu a sua área de influência.

Largo Divino Espírito Santo

Mais uma vez, o nome do largo remete-nos para… a Capela do Divino Espírito Santo.

Eventualmente teria pertencido a uma quinta cujo edifício ainda se encontra à sua frente. Já existiria no século XVI e teria hospital anexo, administrado pela família Pereira Rebelo. Encontrava-se em ruínas em 1873.

Pequena, mas bela, e um belo aperitivo que antecede a cereja no topo do bolo, nomeadamente a magnífica Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, templo que concentra em si o que de melhor há na arquitectura tipicamente portuguesa, numa mescla perfeita de estilos exteriores populares, completados com exuberâncias do tempo dos descobrimentos, preâmbulo perfeito do esplendor do interior.

A fachada azul e branca protege as enormes portas de madeira sobre uma galilé mais baixa e destacada. As colunas torsas colocam o portal a par de outros igualmente ilustres, como na capela de S. Miguel de Coimbra ou na Sé da Guarda. Os capitéis vegetalistas enquadram na perfeição as faces dos homens e mulheres quinhentistas, gravadas em pedra, a olhar o povo por séculos vindouros.

No interior, os profusos detalhes barrocos e rococós espantam. No meio de tanto pormenor, há que destacar alguns. A pia baptismal e uma gravação na capela funerária (1556) são os elementos mais antigos. O terramoto de 1755, deverá deixado marcas profundas, que obrigaram a nova remodelação pombalina, sobretudo patente nos azulejos da nave e talhas dos púlpitos e retábulos.

A par das telas setecentistas e talha policromada está o tecto de madeira, pintado com a Assunção da Virgem e medalhões de florões e grinaldas.

Templo tão belo, além de atrair a freguesia e os ocasionais viajantes, é comummente usado para casamentos e baptizados. Nas suas traseiras, é possível suplementar a viagem com um pequeno jardim, cheio de alfazema cheirosa.

Do ponto de vista mais alto e privilegiado, dá para olhar os campos de volta e planear que próximos tesouros procurar na zona.

Mapa

Coordenadas de GPS: lat=39.0819; lon=-9.11249

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