Viola Campaniça

Agora que o Cante Alentejano teve finalmente a consideração que merecia, cá e lá fora, podemos voltar-nos para um instrumento igualmente amado no Baixo-Alentejo: a viola campaniça, de onde o lado solar desta província se mostra ao país.

Ao contrário de outros cordofones portugueses, tão famosos que emigraram para outras coordenadas, sendo o mais óbvio o cavaquinho, mas nunca esquecendo a guitarra portuguesa  que recentemente ganhou ouvintes além fronteiras com a elevação do Fado a Património Mundial da UNESCO, a viola campaniça assumiu sempre um papel low-profile, nunca passando de um alcance regional, limitado, de forma um pouco grosseira, ao espaço entre as serras que anunciam o Algarve, a sul, e as planuras que continuam para o alentejo menos seco, a norte.

Como a vasta maioria das violas de cariz mais rural, da braguesa à amarantina, da toeira à beiroa, a campaniça tem origem nos maneirismos barrocos, os tais que resultaram mais tarde nas violas hispânicas, num sentido mais genérico. Conta com cinco grupos de cordas duplas e mede cerca de um metro. Poderia, em tempos em que era jovem, contar com uma sexta corda, que entretanto caiu em desuso – mesmo as cordas mais graves, hoje, são por vezes relegadas e nem em forma de acorde chegam a ser tocadas. Dependendo do construtor, pode ou não ser ornamentada na caixa. Tem uma forma que se assemelha à de um oito, com a caixa marcadamente ondulada.

Era frequente tê-la como acompanhante das feiras do povo, nomeadamente nas transversais Festas da Espiga, na primeira metade do século XX. Entrou então em declínio na década de 70, e nos anos 80 do passado século era tida como praticamente extinta – a Aldeia Nova, onde ainda subsistiam alguns tocadores, submergiu nas águas de uma barragem, levando com ela o costume de a tocarem. Salvou-a, pouco tempo depois, o trabalho de recolha junto à zona do Campo Branco, de onde deriva o nome campaniça, onde a sua penetração nas vivências das localidades foi mais forte, feito por Alberto Sardinha, autor do informadíssimo livro “A Origem do Fado” e homem que tanto tem trabalhado pela música em Portugal. É nesse campo branco que ela revive agora os seus melhores dias do passado, nas redondezas de Aljustrel e Castro Verde, e de Almodôvar e Ourique.

Pode ser tocada em rasgado, com acordes, ou como instrumento solista, usando dedilhado com o polegar e o indicador, e serve para acompanhar os passos improvisados de um baile ou os copos mandados abaixo numa taberna, sempre acompanhando uma modinha popular. Existem várias afinações, sendo talvez a mais comum a que conta com a seguinte ordenação de cordas, da mais aguda à mais grave: sol, mi, dó, fá, dó.

A celebrar este novo enlevo que tem andado à volta da canção popular alentejana, Pedro Mestre, um dos grandes impulsionadores do Cante Alentejano e da viola campaniça nos últimos anos, lançou o disco “Campaniça do Despique”, numa recomendada homenagem ao lado mais folião do sul alentejano, o das desgarradas, que também existe. O Festival Sete Sóis Sete Luas funcionou igualmente como catalisador promocional da viola campaniça, que pela primeira vez começa a ser falada fora de portas portuguesas.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.