Vila Real de Santo António

Raramente uma cidade é fundada. Vai antes fundando-se. Mas esta não. Vila Real de Santo António é a Brasília portuguesa. Passe a diferença de dimensão e a época entre uma e outra, há uma relevantíssima característica que partilham: foram ambas pensadas e desenhadas por inteiro e levantadas do chão como um package urbanístico.

Um rio, um terreno, e uma praça. Daqui se fez uma cidade aos quadradinhos.

História de Vila Real de Santo António

Vila Real de Santo António nasce de uma ideia, e a ideia nasceu de uma necessidade.

Começando pela última, a verdade é que a cidade de Ayamonte, do outro lado do rio Guadiana – que, como se sabe, nesta zona da península, é fronteira natural -, gozava de grande crescimento, sobretudo nos finais do século XVI e inícios do século XVII. Deste lado do rio, havia um enorme corno de terra sem vivalma: a pequena povoação que ali existia tinha sido engolida pelo Guadiana, Castro Marim estava nas colinas mais a norte, e Cacela Velha demasiado a oeste para fazer frente a uma eventual investida espanhola.

Assim, entre a foz do Guadiana no Atlântico, o castelo de Castor Marim a montante, e a vila de Cacela Velha num planalto na Ria Formosa, formava-se um triângulo que, por falta de ocupação, era quase terra de ninguém. Um alargamento da esfera de influência de Ayamonte até à margem direita do Guadiana daria à Coroa Espanhola total controlo no acesso a tão importante via fluvial.

Da parte de Portugal, havia então a necessidade de montar uma posição de poder nesta zona, e daí surgiu a ideia, vinda da mente de um dos arautos do empreendedorismo público no país, Sebastião José de Carvalho e Melo, entre nós mais conhecido por Marquês de Pombal, já à época responsável pela reconstrução, sob os desígnios Iluministas, da capital portuguesa no pós-terramoto.

Depois de erigida, Vila Real de Santo António viveu do comércio e da privilegiada posição que ocupa na geografia do sul português. Assim foi toda a sua vida, e, de certo modo, ainda assim é mesmo quando o algarve passou de província esquecida a palco balnear de veraneantes norte europeus, fenómeno que começou a meio do século XX e que colocou a cidade na sombra de uma das suas freguesias: a Praia de Monte Gordo.

Vila Real de Santo António, pombalina e algarvia

Uma cidade vinda do nada

Vila Real de Santo António reúne um pouco de quase todo o país: conseguimos reconhecer-lhe os eixos geométricos da Baixa de Lisboa, a pacatez plana do Alentejo (por oposição à de muitos destinos algarvios), os intrometidos esteiros (o da Lezíria e o da Carrasqueira) que serpenteiam perpendiculares ao Guadiana encontram paralelo nas rias de Aveiro, a sua posição fronteiriça guarda dialectos de várias aldeias raianas, e claro, a alvura das casas e a amplitude dos terraços deixam antever que estamos numa terra do Algarve.

Apesar de ser sede de concelho, vive meio ofuscada pela procura por destinos vizinhos – seja o turismo balnear da Praia de Monte Gordo; seja por um outro turismo, este mais ligado à natureza, que é o da Ria Formosa; seja pela beleza histórica de Castro Marim ou Cacela Velha; seja até pela atractividade comercial que impera na desenvolvida Ayamonte.

E é precisamente esse o encanto de Vila Real de Santo António, andar por ali esquecida no Sotavento algarvio, imune ao desprezo a que muita gente a vota, injustamente.

É um Algarve moderno mas sereno, coisa rara nos dias que correm, onde é fácil andar a pé, fácil andar de carro, fácil andar de barco. A restauração não está à pinha, o fluxo não é sempre casa-praia-praia-casa, e há mais para além do banho de sol (aproveitar a pesca na foz do Guadiana é daqueles passatempos a fazer pelo menos uma vez na vida). A travessia fluvial do Porto até Ayamonte vale a pena, com almoçarada do outro lado da fronteira e regresso ao final da tarde. Mariscar na fachada ribeirinha é um pequeno prazer. E alargar a caminhada até à Praia de Santo António pelo Caminho dos Três Pauzinhos revela-se um esforço reconfortante.

Fachada de Vila Real de Santo António

Terra iluminista

Vila Real de Santo António é o paradigma do ideal Iluminista em Portugal.

Fundada tendo a razão como mote, este pedaço do Sotavento algarvio é um tecido urbano que busca a perfeição geométrica das formas: a homogeneidade, até a uniformidade, como via para a criação de um espaço apto à nova sociedade, racional e progressista.

Vila Real de Santo António seria assim uma nova cidade feita à medida do novo homem, despido das superstições medievas e apetrechado de um apurado sentido crítico. Um pedaço de terra pensado, tal e qual como qualquer defensor da causa Iluminista queria. Uma urbe estruturada para cidadãos igualmente estruturados.

E até eu, que se vivesse no século XVIII estaria do outro lado da trincheira, a lutar por um pouco mais de emoção do que aquela que o Iluminismo tem para dar – e que acabou por chegar com o Romantismo -, não deixo de me sentir como parte de uma época quando caminho pelo núcleo Pombalino e sinto toda esta matemática nos quarteirões cortados a regra e esquadro, numa fascinante frieza que acaba por chocar com o calor da província onde estou.

Onde Ficar

Se o que pretende é um sítio de família em apartamento os Marina Apts Vila Real estão muito bem situados, mesmo em frente à Marina e dentro do chamado Núcleo Pombalino. Mais para dentro fica o vasto Hotel Apolo que, dos andares mais altos, dá bela perspectiva de toda a cidade.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=37.19403 ; lon=-7.41662

 

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.