Vila Nova de Milfontes

Nesse paraíso (e não, não é desbaratar a palavra – trata-se mesmo de um paraíso no sentido mais evocativo do termo) balnear que é o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, que inclui toda a costa que vai de São Torpes à Praia de Burgau, esta última já no eixo algarvio virado para sul, dobrado o Cabo de Sagres, mora uma pequena vila com o nome de Vila Nova de Milfontes, sendo esta um dos melhores miradouros que Portugal tem para o seu vizinho mar ocidental. É um dever fazer todo o caminho serpenteante entre a Praia da Ilha do Pessegueiro até lá, em terra batida e a encher o corpo daquele sal marinho que dá um sabor distinto ao ar. Vila Nova de Milfontes aparece repousada naquele outeiro rente às aguas, quando o Mira nos trava o acesso directo para terras mais meridionais.

Feita de poucas casas, caiadas, como é de decreto baixo-alentejano, e da sobra de um castelo da cor da areia, que se levanta na esquina que o rio Mira faz com o oceano Atlântico, é uma terra de e para quem pesca. As mil fontes que se juntaram ao nome evidenciam isso mesmo, uma abundância de água que é estranha à província, conhecida pela secura. Vive disso e do turismo, sendo Vila Nova de Milfontes uma fonte de repouso, funcionando como alternativa pardacenta a algum do caos que é a costa sul do Algarve. Estando na foz de um rio, a diversidade de peixes à mercê da pesca é grande: dos achatados pargos e linguados, às compridas moreias e às esticadas bogas, não esquecendo os moluscos como as ameijoas ou o mexilhão. E mais além, o mar, que tem o tom que deve ter: azul e mais azul até se perder o azul de vista, quase sempre com um sol forte lá espelhado.

A terra, como muitas no Alentejo, surgiu de uma necessidade de povoamento, numa zona quase deserta depois da Reconquista. Povoou-se, com o que deu, e com o empurrão da Ordem de Santiago, uma cavalaria constante do litoral sul português. Transformou-se depois numa presa para a antiga pirataria vinda do norte de África, maioritariamente Argelina, e compreende-se o porquê de ser tão apreciada por esses corsários magrebinos em busca de saques valiosos. Depois ficou dependente dos seus pescadores até se transformar num segredo de guia turístico.

Milfontes serve para não se fazer nada. É para se ver, quieto e com olhos de viajante, porque é a olhar que se viaja. De resto, se a obrigação de se fazer alguma coisa der sinal, pegue-se em cana e linha e siga-se rio acima, ou mar abaixo – peixe não falta.

Coordenadas de GPS: lat=37.72505357379135 ; lon=-8.782496452331543

Comentários

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

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