Veado-Vermelho

Torna-se enganador dizer que o Veado-Vermelho é, actualmente, o maior dos mamíferos portugueses. Dependerá se falamos de peso ou de tamanho e se estamos a incluir apenas os animais ditos selvagens – o Touro Bravo, ainda que não sendo de iguais proporções termos de altura, é consideravelmente mais pesado, embora seja hoje (ao contrário de outros tempos) exclusivamente criado por mão humana.

De qualquer forma, é inegável a robustez de um Veado-Vermelho quando nos aparece à frente, acontecimento raro mas não impossível de observar em Portugal.

Um grande do campeonato faunístico português pode voltar a ser observado de norte a sul do país.

O Veado-Vermelho em Portugal

Curiosamente, a única vez que vi um veado em estado puramente selvagem foi quando atravessei, por pouquíssimos quilómetros, a fronteira portuguesa no eixo norte de Trás-os-Montes e já me encontrava em chão leonês. E ainda assim, visto muito ao longe, fiquei na dúvida se se tratava de um veado fêmea ou de um corço.

Hoje, se excluirmos as zonas intramuros onde foram colocados para preservação (a Tapada de Mafra, por exemplo), ou mesmo outros espaços menos humanizados onde foram introduzidos (onde se contam, entre outros, a Serra da Lousã ou o Pinhal de Nossa Senhora da Nazaré, junto à Praia do Norte), podemos vê-los naturalmente no acompanhar da linha fronteiriça entre Portugal e Espanha. Isto porque, regra geral, os exemplares de Veados-Vermelhos que se encontram em território português vieram galgando caminho no sentido Este-Oeste, e a decrescente presença do Homem no interior, aliada ao aumento de número de exemplares em Espanha, só ajudaram ao movimento transfronteiriço ibérico.

Com efeito, é de lá de cima, do distrito de Bragança e do seu encantador Parque Natural do Montesinho que podemos dar com o seu galope, vindo por aí abaixo, pela Beira raiana até ao Parque do Tejo Internacional, e daí ainda mais além, até quase à fronteira do Baixo Alentejo com o Algarve, terrenos por onde já começa a escassear (com excepção das zonas serranas de Monchique e de Espinhaço de Cão).

Passeia-se em paisagens tanto secas como húmidas. De Montados alentejanos a carvalhais nortenhos, passando por bosques transmontanos e matos beirões – solos com flora capaz de lhes dar bolota e folhagem que abasteça e encha o seu faustoso porte.

O magnífico Veado-Vermelho em Portugal

Um gigante da fauna ibérica

Para estes lados a sul dos Pirinéus, o Veado-Vermelho aparece na sub-espécie hispânica, com o nome Cervus Elaphus Hispanicus, que é consideravelmente mais pequeno dos que os seus primos norte-europeus. Este minguar das espécies europeias quando ultrapassam a fronteira pirenaica que separa França de Espanha é relativamente comum, podendo ser observada em vários animais, com o Lobo Ibérico como exemplo mais óbvio. Ainda assim, o seu peso em Portugal pode ir bem acima das duas centenas de quilos.

Comparando a sub espécie ibérica com outras mais setentrionais, podemos dizer que por vezes as segundas conseguem ter um peso de quase cinquenta por cento acima da primeira. O pelo, nos meses de Primavera e Verão, é avermelhado, esbatendo-se no Inverno para tons mais opacos, acompanhando assim as cores naturais das estações.

Fêmeas Veado-Vermelho fogem de um possível predadorOs machos são o paradigma da magnificência: corpulento, forte, e elegante. As hastes que lhes dão um toque de majestade funcionam como as árvores de folha caduca – vão caindo lá para Novembro ou Dezembro, crescendo novamente com o vislumbre primaveril. Têm de estar no seu auge no final do Verão, quando a época de acasalamento começa e os chifres são papel crucial na disputa da fêmea – juntamente com a Brama. Como rugas nos humanos, os caminhos que as hastes tomam vão-se complexificando de ano para ano – quanto mais labiríntico parecer o conjunto, maior a probabilidade de estarmos a olhar para um Veado-Vermelho veterano. A coroa de veludo acaba por ser uma espécie de BI de cada exemplar masculino: aquilo que lhe dá um particular fenótipo e o distingue de outros.

Já as fêmeas são mais facilmente confundíveis – sobretudo com corços -, sendo notoriamente mais pequenas e fazem-se normalmente acompanhar as crias.

A Brama

A Brama (ou Berra) é todo o período de cio dos Veados-Vermelhos que acontece, como já se disse, a partir de Setembro e termina antes do Inverno chegar (o seu início e o seu fim depende de região para região), durando, grosso modo, cerca de um mês.

Esta é o período onde os rituais de corte vêm à superfície. Soltam gritos graves, semelhantes a mugidos, e deixam a sua virilidade subir-lhe à cabeça, aproveitando terrenos menos arborizados para competir entre eles, usando o embate de hastes como braço de ferro. Aquele que obrigar o adversário a recolher-se e virar costas vence, podendo reclamar território e, por consequência, esposa.

Veado como símbolo

Em Portugal, o Veado-Vermelho não conta com o mesmo misticismo que um outro cervídeo tem: a Corça.

Enquanto a Corça era tida como uma deidade na terra – os Lusitanos punham num templo divino qualquer pessoa que soubesse falar com ou escutar uma Corça -, o Veado não gozou, tanto quanto se saiba, da mesma reputação.

Contudo, está associado a algumas lendas, sendo a mais afamada a da Nossa Senhora da Nazaré onde surge como reencarnação do diabo que traiçoeiramente tenta puxar Dom Fuas Roupinho para um abismo sem escape (o actual Sítio da Nazaré, que separa a praia da vila da Praia do Norte). Uma outra lenda, esta da Ilha de São Miguel, segue o mesmo sentido: um veado, encarnação do mafarrico, encaminha o Rei Dom Pedro para um precipício e o Arcanjo São Miguel toma as rédeas do cavalo antes deste cair, salvando Dom Pedro da queda.

Os detalhes da lenda da Nazaré parecem sugerir uma espécie de diabolização do Veado enquanto símbolo de devoção pagã, por oposição à Senhora, que veio acudir Dom Fuas Roupinho numa altura em que a morte era certa. A sugestão é sublinhada pela outra lenda açoreana, que substitui Maria pelo Arcanjo Miguel, tornando a pôr o diabo na pele de um Veado.

É possível que o Veado-Vermelho tenha sido, em tempos, visto como um reflexo de Deuses autóctones, até pela imponência do seu porte, que facilmente impacta a mente do homem, que sempre precisou de símbolos como amavio para a alma.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.