Urso-Pardo

Ao longo da sua existência, o Portugal Num Mapa deu a conhecer algumas espécies de animais presentes no território nacional, mas cuja presença no Portugal atual sabe-se ser uma certeza absoluta. Porém, este artigo é o primeiro de um conjunto de artigos que planeio escrever sobre espécies animais que se sabe terem existido em estado selvagem no nosso país e que estão agora extintas em Portugal, e animais alegadamente relatados em território nacional, mas cuja espécie ainda não foi identificada.

Para começar a rúbrica, escrevo aqui sobre uma espécie de animal venerada por várias culturas do Hemisfério Norte pelo seu poder e pela sua grandeza aos olhos do homem (Homo sapiens): o urso-pardo (Ursus arctos), que já percorreu os nossos montes, os nossos campos e as nossas florestas.

Introdução ao urso-pardo

O urso-pardo é a 2º maior espécie de carnívoro do mundo, a seguir ao urso-polar (Ursus maritimus): um urso-pardo adulto em média mede 1,4 a 2,8 m de comprimento (inclui-se a cauda) quando está sobre 4 patas e 0,7 a 1,53 m de altura até ao ombro, e pesa mais de 200 kg para os machos e mais de 150 para as fêmeas. A sua pelagem típica é castanha, mas há registo de espécimes brancos e pretos.

Trata-se de um animal solitário, mas que sabe conviver pacificamente quando o alimento abunda. Habita florestas e montanhas, podendo se aproximar de áreas urbanas em certos casos. Ele procura covas e cavernas para passar o Inverno; porém, não se pode dizer que o urso hiberne propriamente, mas sim que entra num estado de letargia, que pode durar até 7 meses: durante esse período, a sua temperatura corporal cai levemente (de 35 a 32 °C), e a sua respiração e os seus batimentos cardíacos diminuem drasticamente de ritmo. Também não come, não urina e não defeca durante esse período, utilizando só a energia da sua gordura acumulada ao longo dos últimos meses antes do Inverno.

É durante o período de hibernação que a ursa dá à luz 1 a 3 crias em média, após um período de acasalamento que vai de meados de Maio a princípios de Julho, que nascem cegas, surdas, sem dentes e com menos de 550 g de massa corporal. As crias ficam com a mãe, que as cria sozinhas, cerca de 2,5 anos na América do Norte e cerca de 2 anos na Eurásia para aprenderem técnicas de sobrevivência, sendo defendidas com unhas e dentes (literalmente!) pela progenitora de qualquer ameaça, que até mesmo arrisca a sua própria vida (deve ser daí que vem a expressão «mamã ursa»!), não antes, se possível, de mandar as crias subirem para cima de árvores.

Trata-se um animal omnívoro. Procura para comer bagas, frutos, insetos (em estado larval ou adultos), mel, moluscos, peixes até ao tamanho de salmões, anfíbios, aves, lagartos, lagartixas, roedores, lagomorfos, ungulados e cadáveres.

Não obstante muitas culturas humanas terem um espaço positivo nelas para ele (inclusive como um deus em algumas), por ser considerado em muitas áreas onde existe ou existiu uma praga agrícola, apícola e pastoril, além de uma espécie de animal perigosa para as pessoas (ataques não são frequentes, mas o urso-pardo pode atacar o homem se sentir-se a ele e/ou às suas crias ameaçados, ou se estiver esfomeado [felizmente em situações bastante raras]; mortes humanas por ataques desta espécie de urso têm sido relatadas, principalmente na América do Norte e na Rússia; porém, convém referir que o urso-pardo é bastante tímido na presença do homem, e foge dele sempre que pode), a relação do homem com o urso-pardo não tem sido das mais pacíficas: foi-lhe movida uma perseguição impiedosa, da qual fez com que se extinguisse de vastas áreas do seu território original antes de ser protegido por lei, e uma dessas áreas é Portugal, infelizmente.

Pode o Urso-Pardo voltar a Portugal?

Presença histórica do urso-pardo em Portugal

Aposto que muita gente que tem lido este artigo até agora ficou surpreendida, ou até mesmo desconfiada, com a alegação de que o urso-pardo já existiu em estado selvagem no nosso país. Porém, há provas históricas e toponímicas da sua presença no passado em território nacional, nomeadamente a subespécie que existe em boa parte da Eurásia, o urso-europeu (Ursus arctos arctos).

Uma das provas é o facto de se encontrarem vestígios de silhas (muros apiários constituídos por muros dobrados com mais de 2 m de altura e cerca de 1 m de espessura, rematados com placas avançadas para o exterior) em 27 concelhos portugueses (provavelmente, com base em testemunhos orais, em mais 11 concelhos de Portugal também se encontram isso), em especial a Norte do Tejo – ora, para animais como os texugos-euroasiáticos (Meles meles) não são precisos muros apiários assim tão grandes!

Um documento histórico afirma que o rei D. Dinis teve de matar para se defender um urso que o atacou em finais de 1294, além de ter na capturado vivo outro urso na mesma altura.

Há referências históricas nacionais de engenhos destinados a caçar ursos, como por exemplo o madeiro, referido nos forais da Beira do séc. XI (segundo a Infopédia, um madeiro é uma trave de madeira, ou uma peça ou tronco grosso de madeira; porém, pergunto se o madeiro em causa é alguma coisa do que a Infopédia explica). São ainda em forais do género, a partir desse século, e em outros documentos históricos (ex.: as inquirições de 1258 para as freguesias do Noroeste em que se determina que as mãos dos ursos caçados devem ficar para o rei, como forma de impostos, e documentos que comprovam que a nobreza gostava de caçar ursos – como se sabe, a caça ao urso era considerada uma caça de prestígio na Europa medieval) que também se sabe da existência de ursos em Portugal.

Além disso, muitas localizações em Portugal têm o nome derivado da palavra «urso», quer na sua grafia atual, que na sua grafia antiga, «osso», das quais são ex. Casal dos Ossos e Vale do Urso, o que também prova a presença de uma espécie animal que atualmente já não percorre o nosso país, infelizmente.

A extinção gradual do urso-pardo em Portugal

Já é mais que certo que a sua regressão neste «Jardim à Beira-Mar Plantado» começou no séc. XV: a caça que excessivamente era movida a eles (principalmente por camponeses, nada contentes com os estragos dos ursos nas colheitas, no mel e no gado) e a destruição do seu habitat por fogos silvestres fez com que só restassem ursos nas regiões fronteiriças do Norte do país; A monarquia bem tentou proteger a espécie, proibindo a caça (pelo menos sem autorização), mas sem êxito. É comum pensar-se que o último urso em estado selvagem no nosso país foi morto na Serra do Gerês em 1650 – afinal, é a documentação à data o afirma. Porém, pesquisas recentes demonstram uma data de extinção nacional do urso-pardo bem mais recente, da qual poderá se afirmar que é indefinida.

Do séc. XVIII temos documentos que comprovam que os ursos ainda andavam pelo Norte de Portugal, junto à fronteira com a Galiza, documentos esses que muitas vezes demonstram que a relação entre ursos e homens, principalmente os camponeses, não era das melhores.

Os relatos continuam durante o séc. XIX. A Choronica de Bragança (um jornal da região de Bragança da altura) do dia 2/3/1835 noticiou uma caçada ao urso na Serra de Montesinho, notícia essa que está na primeira página dessa edição. Corroborando evidências documentais espanholas da existência de ursos nas vertentes espanholas das Serras do Gerês, do Laboreiro e de Montesinho, um tal Gabriel Pereira mencionou em 1893 que em meados do Séc. XIX apareciam ursos nas montanhas minhotas e transmontanas de quando a quando durante o Inverno.

E ainda há relatos provenientes do séc. XX! Como até meados do século passado se reproduziam ursos em Espanha a poucos km de Portugal, há relatos de ursos a vaguearem nas Terras do Barroso (região formada pelos concelhos de Montalegre e de Boticas), incluindo referências à reprodução na Serra do Larouco na década de 20, a 1 avistamento nos anos 40 e até ao abate de 1 macho de cerca de 100 kg em 1957 (ah, a propósito: os ursos-pardos machos, especialmente na época de reprodução, podem percorrer cerca de 40 km por noite!).

Em suma, o urso-pardo só se extinguiu totalmente em Portugal em meados do Séc. XX – não há assim tantas décadas!

O urso-pardo poderá regressar a Portugal?

Embora não regresse às áreas de onde se extinguiu no passado tão facilmente como o lobo-cinzento (Canis lupus), o urso-pardo também pode voltar por si próprio às ditas áreas; pelo que se sabe, a população espanhola do urso-pardo, confinada a Norte do país vizinho, tem se expandido nas últimas décadas após a sua proteção legal, se conservarem/recuperarem os seus habitats, e as mentalidades humanas (principalmente as das gentes locais, mas não só) mudarem.

Em 2005, foram encontradas pegadas de urso em Peña Trevinca, a apenas cerca de 20 km do Parque Natural de Montesinho. Provavelmente, um dia entrarão em Portugal (se é que já não entraram sem ninguém dar conta!); se é para ficar ou não, o futuro o dirá – ou melhor, a proteção legal, os espaços, bem conservados ou não, e a mentalidade que encontrarem em Portugal é que o dirá (já agora, embora possam aparecer no Parque Nacional da Peneda-Gerês, é bem mais provável a sua aparição ser no Parque Natural de Montesinho, dado estar mais perto de onde os ursos se encontram em Espanha, e por ter as atividades humanas mais minimizadas).

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mm

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Licenciado em Engenharia Florestal e dos Recursos Naturais no Instituto Superior de Agronomia, gosta de mistérios, principalmente os da história humana e da zoologia, além, claro, do seu país. Escreve segundo as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1945, excetuando no uso de consoantes mudas.