Toque da Cabra

A Cabra, em Coimbra, não é um animal, mas um sino. O mais importante dos que se encolhem junto ao topo da Torre da Universidade de Coimbra. São mais os sinos que dobram no Pátio das Escolas – há o Sino do Cabrão, que toca em ocasiões festivas, e o do Balão, mais antigo -, mas é este a figura de proa, com um som agonizante para os estudantes, que por alguma razão o apelidaram dessa forma.

Os seus batimentos anunciam o começo e o final do dia de aulas – sendo estes conhecidos como os toques matutinos da cabra e toques vespertinos da cabra, respectivamente. O badalo do sino já foi, por mais de uma vez, roubado, gesto quase impossível face ao difícil acesso a que está sujeito, mas que os estudantes levaram em frente para que não tivessem aulas no dia seguinte.

A praxe, uma mobilização controversa mas que reúne uma aceitação mais ou menos consensual na cidade de Coimbra, é também orientada através do seu toque – a mobilização dos caloiros dura todo o tempo entre o toque matutino e o toque vespertino. De resto, os caloiros não podem ser apanhados nas ruas depois da meia-noite e até ao toque matutino, sendo sujeitos a praxes por parte das trupes caso não cumpram esta norma, bem vincada no Código de Praxe. Estes rituais, não alheios a outros que se poderão dizer de iniciação, já foram bem mais pesados e violentos. Noutros tempos, houve até uma espécie de polícia ou autoridade universitária que patrulhava a cidade depois da Cabra balir, em busca de caloiros que infringissem as leis da praxe, isto é, que estivessem fora de portas depois da hora de recolha. Quando esta força de policiamento se extinguiu, foram os próprios alunos a criarem a sua própria milícia, tropas de estudantes que condenassem os maus caloiros, sendo essa a origem das actuais trupes supracitadas.

Ontem como hoje, a batida deste sino, conhecida como o Toque da Cabra, é um fenómeno que convoca a união e o sentimento comunitário e de clã dos estudantes de Coimbra, mas também um símbolo que marca toda esta estrutura hierarquizada que é o corpo estudantil conimbrense.

Comentários

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

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