Taberna do Benfica

Esqueça-se o nome por uns momentos. Para se perceber o espírito da Taberna do Benfica, o melhor é deixar-se o clubismo à porta – seja-se, ou não, do clube em questão.

Porque o que aqui conta não é a parte do Benfica, mas sim a parte da Taberna. Destas, no país, já não há praticamente nenhuma. Na Guarda, pelo menos que eu saiba, é a última. À cabeça vem-me uma outra, nos antípodas clubísticos da que aqui falamos, que é o Tasco do Artur Portista, no Porto. Quer uma, quer outra, contam com aquelas benditas portas de vaivém (pintadas com a respectiva cor da equipa que defendem), como nos saloons dos westerns americanos.

Aspecto interior da Taberna do BenficaMas vão escasseando. Uma atrás de outra, fecham negócio. Porque os clientes são velhos e os mais novos já lá não vão. Ou porque os donos são idosos e os filhos não querem continuar o fado da família. Ou porque os reguladores não ajudam, e não raras vezes confundem a protecção ao consumidor com fascismo higiénico.

E por isso é bom que se dê corda aos sapatos para se visitar a Taberna do Benfica como ela merece, antes que o casal que a mantém aberta se resolva reformar, e tão pitoresco espaço se transforme numa loja de souvernirs de gosto questionável. Fica lá bem para cima, junto à Sé e ao seu Cu da Guarda, na alta da cidade, que já é alta mesmo nos seus pisos inferiores. Aproveite-se o poiso para tomar uma aguardente ou uma jeropiga, e tagarelar um pouco com a senhora Maria de Lurdes – foi quem me calhou, o senhor António Santos estava lá para dentro, provavelmente por estar a dar bola no momento em que cheguei. Vivem juntos no andar de cima, como acontecia com muito do comércio de outras décadas.

A última das tabernas da GuardaContou ela que antes era uma pequena mercearia, com os anos (e já lá vão mais de uma centena deles) adaptada a casa de pasto, até virar o que é hoje. Tem uma televisão provavelmente mais velha do que eu, encostada à parede do lado esquerdo de quem entra. Uma pequena mesa com cadeiras a rodeá-la está a um metro do televisor. Em frente e à direita, um balcão separa-nos dos proprietários. Mas ainda conseguimos ver o lavatório onde os copos são lavados, só com água e dedos, sem os químicos duvidosos dos detergentes. E não é a aguardente já desinfectante que baste?

Um dos poucos sinais que restam na pele de um Portugal que via na taberna um escape para os esforços inglórios de quem trabalhava muito e ganhava pouco.

A única coisa que chateia é o pensamento à saída, que nos leva a crer que poderá ser a última vez que lá vamos.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.539548 ; lon=-7.267296

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.