Sortelha

Sortelha é uma aldeia histórica situada no concelho do Sabugal, na Beira-Alta, e uma das mais belas e bem conservadas, sendo praticamente indistinguível do que seria há 500 anos atrás. Em tempos foi vila, ainda podendo ser considerada como tal embora agora seja mais comum classificá-la como aldeia histórica, e foi efectivamente sede de concelho, até que em 1885 se extinguiu o dito concelho com a reforma administrativa efectuada pelo estado liberal. Graças ao facto de estar bem conservada, Sortelha apresenta-se como uma autêntica aldeia medieval, composta de casas feitas em granito rodeadas por uma enorme e igualmente bem-conservada muralha do castelo que circunda a aldeia, estando as torres do mesmo visíveis por toda a aldeia, como se de atentos guardiões se tratassem. E de facto terão sido, pois ao percorrer a muralha de Sortelha somos brindados com uma sublime vista sobre as terras em redor, com especial espectáculo oferecido pela Serra da Malcata, mas sendo também possível um vislumbre da Serra da Estrela.

Sortelha é uma aldeia histórica que parece ter ficado parada no tempo durante a Idade Média, e que está dotada de uma absorvente atmosfera mágica e misteriosa, levando a nossa imaginação a voar graças à sua estética medieval incrivelmente bem-conservada.

Escusado será dizer que a imagética medieval do castelo e das casas bem-conservadas no seu interior oferece a Sortelha uma fantástica atmosfera, na qual o tempo parece ter parado. A sensação que nos oferece a partir do momento que nos encontramos perante o portal de entrada e quando passeamos pelas suas ruas feitas de pedra e por entre as casas de granito, completamente rodeados pela sua imponente muralha, não é simplesmente aquela sensação a que nos habituámos em reconstituições históricas comuns em feiras medievais, mas sim a de uma autêntica viagem ao passado. Quase de imediato imaginamos a aldeia repleta de cavaleiros com armadura medieval a rigor, sob o olhar atento de donzelas vestidas com longos e coloridos vestidos, e quase que conseguimos ouvir o som metálico do ferreiro a bater o ferro na forja ou de espadas a cruzarem-se em torneios medievais, ou o grito de alarme dado pelos guardas na torre a informar da aproximação de hostes mouras ou castelhanas. Miragens do passado que parecem ecoar por todos os cantos de Sortelha. De manhãzinha é possível que a aldeia acorde com o som de águias ou semelhantes aves de rapina a sobrevoar as muralhas do castelo, como que a relembrar que estamos numa aldeia de conto de fadas, e que a qualquer momento poderia irromper pela aldeia um protótipo de Rei Artur acompanhado pelos cavaleiros da Távola Redonda.

Efectivamente parece haver uma aura de magia e de mistério pela aldeia, e esta não se resume unicamente ao dia, mas também à noite. Apesar de frequentemente visitada durante o dia pela sua importância histórica e como atracção turística, a aldeia tem um número muito reduzido de habitantes, sendo que muitos habitam nos núcleos de habitação rural mais recentes que se encontram fora das muralhas do castelo, em volta da aldeia histórica propriamente dita, o que significa que a certas horas da noite Sortelha parece ser uma aldeia abandonada, mas permanece com luzes acesas em todos os cantos e algumas casas, e inclusive o principal portão de entrada está iluminado, com a estátua que está ao lado da mesma a dar a sensação de estar a observar a entrada do visitante. Isto dá a Sortelha uma atmosfera nocturna onde se acentua ainda mais a aura mágica e misteriosa que paira pela aldeia, a qual se torna também fantasmagórica, como se a aldeia permanecesse viva e tivesse uma essência própria, apesar de não se ver viva-alma. Os únicos habitantes a estas horas são morcegos, a ocasional coruja e alguns gatos, mas até estes últimos parecem partilhar da atmosfera misteriosa de Sortelha, e dirigem-se ao visitante nocturno como que a dar as boas vindas, parecendo inclusive que querem guiar o mesmo a um passeio pelas muralhas do castelo, como se a aldeia os comandasse a tal ou estivessem imbuídos do espírito de antigos habitantes. Delírios claro está, proporcionados pela mágica atmosfera de Sortelha, mas que parecem incrivelmente reais. É talvez devido a esta atmosfera que por vezes se organizam em Sortelha eventos como a “Sortelha Assombrada”, na qual grupos de teatro organizam uma visita pela aldeia durante a noite onde se encenam representações de lendas e mitos típicos das Beiras.

Sortelha

Origens de Sortelha

Pensa-se que o local onde Sortelha foi erguida tenha sido na sua origem um castro que remontava ao período do Neolítico, por onde passaram posteriormente romanos, visigodos e mouros, até que no contexto da reconquista cristã, D. Sancho I começou a tomar medidas para fazer do local um posto de defesa fronteiriça, e no séc. XIII D. Sancho II finalmente levou à edificação do castelo e à fundação da aldeia, a qual foi ainda reforçada durante o reinado de D. Dinis pela sua importante posição fronteiriça. No início do séc. XVI, D. Manuel I ordenou algumas obras em Sortelha, da qual resultaram alguns elementos manuelinos ainda hoje visíveis na aldeia. No séc. XVII, por sua vez, após a restauração da Independência, Sortelha, e mais especificamente o seu castelo, foi novamente o alvo de obras que a prepararam para as novas tecnologias militares como o fogo de artilharia, algo que foi muito útil pois Sortelha foi extremamente importante nos dois séculos seguintes no contexto de repelir incursões militares por parte de Castela e durante as invasões napoleónicas. O facto de estar bem-conservada e manter o seu espaço urbano medieval deve-se à perda da sua relevância defensiva por falta de necessidade para tal em séculos mais recentes, o que levou a que a maioria da sua população tivesse progressivamente se deslocado para as zonas mais baixas em volta das muralhas, onde o terreno era mais fértil e menos acidentado. Como tal, não houve uma transformação do núcleo habitacional original de forma a adaptar-se ao estilo de vida moderno, e este manteve-se inalterado, continuando, juntamente com o castelo, a evocar a sua estrutura original do séc. XIII.

A etimologia do seu nome, por sua vez, é algo menos claro, e tem várias versões, sendo que algumas claramente poderão ser o resultado de lendas e ditos originários da tradição oral popular. Uma destas encaixa perfeitamente na imagética e matriz medieval de Sortelha, e diz que o nome se deve a um antigo jogo medieval que estava presente nos antigos torneios medievais, no qual um cavaleiro vai no seu cavalo em velocidade com a lança empunhada de forma a conseguir acertar num anel, o qual tem exactamente o nome de “sortela” ou “sortija”, que teria evoluído para Sortelha. Uma outra versão para a origem do nome adequa-se por sua vez à atmosfera mágica de Sortelha, e também se refere a um anel, mas neste caso a um anel de pedras preciosas associado a poderes mágicos e que seria característico de bruxas e feiticeiras, cujo nome seria “sortel”. Esta versão claramente teve influência na simbologia de Sortelha, visto que dito anel está representado no seu antigo brasão de armas como sendo um anel de ouro com um rubi situado por cima do castelo de Sortelha, que por sua vez é representado por cima de montanhas e de um rio que se assume ser o rio Liz, o qual atravessa a região circundante da aldeia. Esta relação de Sortelha com anéis, seja por um motivo ou por outro, tem expressão no bonito Jardim do Anel, localizado perto de uma das muralhas, onde estão localizadas várias esculturas, incluindo, claro está, um anel. Num registo menos influenciado pela tradição popular, alguns arqueólogos propõem por outro lado que o nome se deve à palavra medieval “sorte”, a qual designa uma parcela de terreno fértil, e visto que há uma lacuna de terrenos férteis na zona mais alta de Sortelha onde se situa a aldeia histórica, encontrar um terreno fértil seria uma “sorte”, o que levaria a que o nome da aldeia reflectisse esse contexto. De notar que até em tal hipótese parece haver um certo cunho de tradição popular.

Sortelha

Pontos de Interesse

Sortelha tem um património diverso e recheado de pontos de particular interesse. Para começar, o próprio castelo e muralhas, do qual já fizemos extensa menção, e que está classificado como monumento nacional desde 1910, de estilo românico-gótico com alguns detalhes manuelinos, e possuidor de uma imponente Torre de Menagem assim como uma outra torre chamada de Torre do Facho. O castelo tem ainda duas portas, e a muralha outras quatro, que são igualmente impressionantes e dão a ideia de autênticos portões para um local mágico. Das duas portas do castelo, apelidadas de Porta do Castelo e de Porta Falsa, a primeira está virada para Oeste e para o centro da aldeia, onde está situado o pelourinho, e tem um balcão com mata-cães ao lado do qual se encontram esculpidas na pedra as armas reais de D. Manuel I e as icónicas esferas armilares portuguesas, tendo o dito balcão ainda um nome sugestivo: a Varanda de Pilatos. O mencionado pelourinho marca uma notável presença e destaca-se no largo que o alberga, saltando imediatamente à vista. Foi construído já no séc. XVI e é de estilo manuelino, tendo no topo uma esfera armilar atravessada por um espigão.

As quatro portas da muralha, por sua vez, provocam uma forte impressão sobre o visitante pois são algo monumentais e transparecem a ideia de transposição para outra realidade, são estas a Porta da Vila ou do Concelho, Porta Nova e as restantes duas ambas chamadas de Porta Falsa, sendo uma das mesmas uma das chamadas “Portas da Traição” típicas em castelos, das quais se atiravam condenados para o exterior. A Porta da Vila, orientada a nordeste, é a porta principal, como se poderá depreender, e uma das mais marcantes, tendo uma estátua de uma mulher a segurar uma criança (possivelmente uma representação da Virgem ou uma Santa) a dar as boas vindas com um ar vigilante e reverente à sua esquerda, assim como apresentando pedras com símbolos inscritos na pedra do lado direito. Do lado de dentro, por outro lado, encontramos perto da porta um dos Passos da Via Sacra, pequenos altares em pedra de estilo barroco adossados às paredes de pedra, que foram edificados já no séc. XVIII, dos quais há outros quatro pela vila, junto a uma das Portas Falsas da muralha, perto da Porta do Castelo, na cabeceira da Igreja Matriz, e na Capela de São Sebastião. A referida Igreja Matriz é dedicada a Nossa Senhora das Neves e remonta ao séc. XVI, e apresenta vários pormenores decorrentes do renascimento, estando ainda acompanhada pela Torre Sineira, erguida sob um penedo, e com degraus talhados na pedra que levam até ao topo, onde estão situados dois grandes sinos, plenamente funcionais. A castiça Capela de São Sebastião por sua vez remonta igualmente ao séc. XVI, e apresenta além do Passo da Via Sacra uma típica alminha.

Apesar da Porta da Vila ter tal nome, a Porta Nova, seria, ironicamente, a porta mais antiga de Sortelha, e seria junto desta que se realizava o mercado medieval em tempos passados. Provavelmente devido a esse pormenor, a porta contém ainda as marcas gravadas na pedra de antigas medidas usadas em tempos medievais nos mercados, a vara (110 cm) e o côvado (66 cm). Adicionalmente a Porta Nova dá acesso a antigos monumentos de Sortelha, que se encontram fora das muralhas e ao qual se acede através da calçada medieval, nomeadamente à antiga Igreja da Misericórdia (também chamada de Igreja de Santa Rita ou de São João), oriunda do séc. XIV e que em tempos terá sido a Igreja Matriz de Sortelha, e encontra-se na proximidade do Hospital da Misericórdia e da Capela de Santiago, esta última do séc. XVI e fornecendo outro exemplo castiço de arte renascentista. Tanto a Igreja da Misericórdia como o Hospital homónimo estão em ruínas, e contribuem para a atmosfera misteriosa de Sortelha, tanto de dia, como à noite, onde ganham contornos assombrosos e fantasmagóricos. Tanto a Igreja de Nossa Senhora das Neves como a Igreja da Misericórdia têm ainda em seu redor sepulturas antropomórficas talhadas no granito, misteriosas estruturas que existem um pouco por toda a região beirã e nortenha, e que estão frequentemente localizadas em redor de capelas e Igrejas, entre outras zonas com afloramentos graníticos.

E afloramentos graníticos abundam em Sortelha, sendo que dois dos mesmos, no exterior em redor das muralhas, ganharam curiosos nomes devido à forma que se formou nos mesmos. Falamos da “Cabeça da Velha”, que efectivamente como tal se parece, e da “Pedra do Beijo”, devido a dar a sensação de duas pedras graníticas a beijarem-se, e que está relacionada com uma lenda de Sortelha, como veremos adiante. Curiosos monumentos de formação natural que enriquecem a paisagem em redor de Sortelha. Outros pontos interessantes em Sortelha são as suas duas fontes: a Fonte da Azenha, talhada na pedra, e a Fonte do Mergulho, que se situa sob um cruzeiro, e que poderá ter sido um marco romano que foi cristianizado. E não poderíamos claro está, deixar de referir algumas das casas em pedra que oferecem a Sortelha a sua atmosfera medieval quando passeamos pelos seus largos e ruelas, visto algumas serem de especial relevo. É o caso da Casa dos Falcões, da Casa com Janela Manuelina, Casa do Governador, Casa da Câmara e da Cadeia, Casa Árabe, a chamada Casa Número Um e ainda a Residência Paroquial ou Passal, entre inúmeros solares e casas senhoriais que também merecem um olhar atento. Muitas destas casas são do séc. XVI, mas algumas remontam também ao séc. XIV, sendo interessante ver os motivos e arquitectura visíveis nestas casas e os diferentes estilos artísticos que estes apresentam, do gótico ao manuelino e renascentista.

Aldeia Histórica de Sortelha

Lendas de Sortelha

Como não podia deixar de ser, toda a magia que envolve Sortelha levou à origem de várias lendas, algumas das quais se tornaram icónicas e das quais aqui damos um pequeno resumo. Uma destas refere-se à origem da “pedra do beijo” que anteriormente mencionámos. Diz a lenda que em tempos passados, a certa noite, Sortelha estava cercada por hostes mouras, na esperança de conquistarem o castelo. Dentro deste estavam as hostes cristãs, lideradas pelo Alcaide, que vivia no castelo com a sua esposa, que se dizia ser feiticeira, e a bela filha do casal. O cerco mouro prolongou-se durante muito tempo, e a bela donzela, filha do Alcaide, começou a sofrer de um enorme tédio, e começou a passar o seu tempo à janela para se distrair. Um dia, enquanto estava na varanda, reparou no comandante das tropas mouras, o qual era um jovem altivo e bem-parecido, e o mesmo reparou na beleza da jovem, e ambos não conseguiram mais deixar de pensar em encontrarem-se de alguma forma. O chefe mouro encontrou então forma de alguns dos seus homens entrarem para lá das muralhas à socapa durante a noite, e entregar à jovem donzela mensagens com juras de amor e oferendas através de cestos que esta fazia subir pelas paredes do castelo, e fazia descer de volta com as suas próprias mensagens de retribuição às juras de amor. Um grande amor despontou entre os dois, mas este não podia ficar eternamente separado pelas muralhas que os dividia e pelos dois lados em guerra nos quais se encontravam, tal como Romeu e Julieta. O chefe mouro elaborou então um plano para conseguir estar com a donzela, encheu de ouro um prisioneiro cristão em seu poder, e libertou-o, em troca de este falar a sós com a donzela e abrir-lhe a porta para que esta pudesse fugir do castelo e encontrar-se com o seu amor. Entretanto, o pai e a mãe da donzela arranjaram-lhe um casamento com o filho do Alcaide do Sabugal, mas esta reagiu com desânimo e tristeza perante tal notícia, o que levou a sua mãe a ficar desconfiada. Após o cavaleiro cristão subornado pelo chefe mouro falar com a donzela, uma bela noite esta retirou-se mais cedo para os seus aposentos com a desculpa de que lhe doía a cabeça, e, tendo sido a porta do castelo aberta pelo cavaleiro cristão, fugiu e foi-se encontrar com o chefe mouro, já fora das muralhas do castelo, e os dois beijaram-se apaixonadamente. No entanto, dada a desconfiança da mãe, esta acorreu à muralha para ver se a filha não se teria escapulido, e acertou na sua suspeita, pois do alto da torre do castelo viu a filha aos beijos com o chefe mouro sob a luz da lua, para seu horror e desespero. Furiosa, invocou os seus poderes de feitiçaria, e fez os dois amantes desaparecerem com a sua magia. Quando o sol nasceu, era visível o beijo entre dois blocos de granito, eram os dois amantes, que tinham perecido, mas mantiveram o seu beijo apaixonado mesmo após a morte, e hoje em dia ainda estão os dois penedos no exterior da muralha de Sortelha, e são chamados a “pedra do beijo”.

Mas não é só lendas românticas e mágicas que preenchem o corpus lendário de Sortelha, e o seu carácter fantasmagórico nocturno também tem expressão em lendas. Uma das quais conta a história de uma mulher de Sortelha que foi traída e abandonada pelo marido. Desesperada e mergulhada em angústia e desgosto amoroso, a mulher pegou nos seus dois filhos e afogou-os num dos poços/fontes de Sortelha, e de seguida suicidou-se, atirando-se também para o poço e deixando-se afogar. Conta a lenda que a partir desse momento a mulher tornou-se um fantasma e passou a assombrar o dito poço. A altas horas da noite, podia-se ouvir os lamentos fantasmagóricos da mulher, e se qualquer homem infiel passasse pelo poço onde esta morreu, o fantasma da mulher agarrava-o e atirava-o para o poço, afogando-o em seguida. Uma lenda de assombração que sem dúvida nenhuma se adequa à atmosfera nocturna de Sortelha

Há ainda outra lenda de Sortelha que carece de romantismo ou assombro, mas que tem uma moral interessante. Esta lenda conta que um dia, estava um homem já de idade avançada no seu leito de morte, quando mandou chamar o seu filho para lhe dizer que não tinha ouro para lhe deixar, mas tinha um conselho que valia ouro, e aconselhou-o a nunca espalhar palavras ao vento, principalmente segredos, no sentido de nunca contar nem à mulher nem ao melhor amigo um segredo, pois esses guardam-se no coração. O jovem ficou confuso com as palavras do pai, sem compreender o seu significado, então resolveu fazer uma experiência: lançar um falso segredo a ver o que sucedia. Por esta altura, o rei mandou anunciar que tinha perdido o seu falcão amestrado favorito, e que oferecia uma grande recompensa em ouro a quem o recuperasse, ou uma terrível punição a quem lhe fizesse mal. O jovem viu nisto a oportunidade de realizar a sua experiência, e como por acaso até tinha ele mesmo encontrado de facto o falcão, podia inventar uma falsidade sabendo que tinha em seu poder o mesmo caso a coisa desse para o torto. Então convidou o seu melhor amigo para jantar, e contou-lhe que tinha encontrado e morto o falcão por acidente, e que para evitar ser descoberto, era exactamente esse o falcão que estavam a jantar nessa noite. O seu amigo ficou muito desesperado ao saber disto, pois não queria trair o seu amigo mas também não conseguia viver com esse segredo, então arranjou uma solução para aliviar a sua ansiedade: dirigiu-se ao pé do rio, e disse baixinho para as canas que estavam à beira-rio “foi o Zé do Feijão que matou o falcão”. Mais aliviado por libertar o segredo em voz alta, e seguro de que estava só, retirou-se tranquilo. Um pouco depois um pastor passou pela beira-rio, e cortou uma das canas para poder fazer uma flauta. E assim o fez, mas para sua surpresa, sempre que tentava tocar, o único som que saia da flauta eram as palavras “foi o Zé do Feijão que matou o falcão”. A partir dai, claro está, o segredo espalhou-se rapidamente pelo reino, e um dia foram bater à porta do Zé do Feijão para o punir pela morte do falcão, e ai o Zé do Feijão mostrou que o falcão estava vivo e de boa saúde, e acabou não a ser punido mas a receber a recompensa do rei. Mas aprendeu o significado sábio e sensato das palavras do seu pai. Finalizamos assim com estas curiosas lendas, que enchem o imaginário popular, e que acentuam ainda mais a alma mágica que Sortelha possui.

Interior da Casa dos Falcões em Sortelha

Onde Ficar

Sortelha conta com uma casa em granito que é tão parte integrante da arquitectura típica da aldeia que mal se dá por ela enquanto espaço de hotelaria. É a Casa da Lagariça (a que se anexa a Casa da Calçada), uma moradia do século XVIII recuperada, onde antes se encontrava uma lagariça (tanque onde se retirava o sumo da uva) que lhe deu o nome – ver imagem em baixo.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.3307429 ; lon=-7.2120311

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.