Sertã

No caso deste escriba, as visitas regulares à Sertã – que muito provavelmente serão para continuar em anos vindouros -, começaram com o Festival Provart, que tem como objectivo dar a conhecer cervejas artesanais portuguesas. Esse festival, feito numa base anual, situa-se numa língua de terra junto ao Convento da Sertã, do século XVII, que já foi de tudo, desde prisão até ao que é agora: um hotel. À sua volta correm duas ribeiras, a da Sertã e a de Amioso, aos quais os locais, num sentido prático, chamaram de Ribeira Grande e Ribeira Pequena, respectivamente. E foi a partir daí, em incursões para fora deste epicentro, que fiquei a conhecer o resto da vila.

Situa-se num vale em que o xisto predomina, humidecido pela confluência de rios e ribeiras e albufeiras. Vale a pena de lá partir em busca de poiso fluvial ao sol, nos meses estivais, sendo a Praia do Trízio de destacar.

Mas cingindo-nos às fronteiras da vila, e começando por baixo. Junto ao Convento da Sertã, há, mesmo a ladear a Ribeira Grande, um lagar, réplica do original e podemos fazer dele o ponto zero para se conhecer bem esta Princesa da Beira. Se seguirmos da confluência das ribeiras Grande e Pequena para Norte, o relevo dá de si, e apanhamos a encosta onde domina a torre do castelo, de origem sarracena, anexada à Capela de São João Baptista. O castelo é uma parcial recuperação do forte original. É o monumento que mais alma dá à vila, e a razão do seu nome, pelo menos no imaginário popular, via explicação lendária. É neste morro que encontramos as praças mais importantes, muitas com vista privilegiada para a Ribeira Grande e os seus espaços lúdicos, ainda antes desta se juntar à Pequena, a Oeste do Jardim da Carvalha.

A Lenda da Celinda mencionada acima poderá basear-se num equívoco histórico – parte da premissa que terá sido o romano Sertório que mandou edificar uma fortaleza por aqui, facto que não está comprovado. De qualquer forma, e porque o povo não inventa história sem que haja um mínimo de plausibilidade lá pelo meio, é de se conhecer aquilo que os sertaginenses contam. Dizem que numa investida que os romanos fizeram contra o castelo (que, na altura, mais provavelmente se trataria de um Castro) morreu o homem que o guardava, e que a sua mulher, Celinda de nome, com tanta raiva ficou que, estando a fritar ovos numa frigideira (isto é, numa sertã), subiu às muralhas e despejou os ovos e azeite a ferver no exército inimigo, fazendo com que este recuasse e dando tempo a que ajuda chegasse para impedir a invasão. Uma padeira de Aljubarrota vinda da Beira-Baixa, portanto.

A lenda, apesar de não poder ser levada à letra, atesta duas coisas: as fundações lusitanas e romanas da Sertã, e a luta, em muitos casos inglória, que os lusos levaram a cabo contra a hegemonia do Império sediado em Roma.

Voltando ao passeio, é de lembrar as várias capelas que existem na povoação – algumas com direito a romarias. É merecida a visita à Capela de Nossa Senhora dos Remédios, seguindo a elevação que continua para oriente. Conta-se que esta veio substituir uma outra, templária, e a hipótese é provável tendo em conta que a Ordem do Templo marcou fortemente o território – a sua cruz, aliás, consta no brasão da vila. A este pequeno lugar de culto está associada uma outra lenda, que fala de uma serpente que ali foi morta por um fidalgo, e que nos remete para a terra de serpentes, a Ofiússa mítica que ligamos ao noroeste peninsular.

Daí voltamos a descer, novamente em direcção às margens da ribeira principal. Fazemos o caminho que segue o curso das águas até darmos com as sombras do Jardim da Carvalha outra vez. Seguimos, e passando o lagar à esquerda, chegamos à Ponte Filipina, uma que se crê estar no lugar de outra, bem mais velha e de origem romana. Aqui é escolher: ir ao Restaurante do Convento e atacar o prato icónico, o maranho, ou atravessar a ponte e gozar uma cerveja no Delfim, à beira-rio.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.801594 ; lon=-8.095784399999957

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.