Serra da Gardunha

Miradouro para a imponência da Estrela, a norte, e para o início da planura alentejana, a Sul: é a Serra da Gardunha, um poema que a natureza escreveu à Beira Baixa.

Da Gardunha temos o completo retrato de Portugal – o do norte, acidentado, e o do sul, amainado. Todo ele se vê de lá do cimo.

As duas faces da Gardunha

Como quase todas as serras que se estendem no sentido Este-Oeste, há vincadas diferenças entre a vertente norte e a vertente sul da Serra da Gardunha.

Não só de paisagem, mas também de costumes e até de fenótipo das suas gentes (Vítor Martins, que lá tem raízes, diz que encontra, do lado do Fundão, beirões de “tez clara, loura e de cintilantes olhos azuis”, por oposição à encosta oposta, onde os locais são mais morenos – ou por outra, mais alentejanos.

Acontece em todo o lado onde um percalço da Terra impõe obstáculos ao Homem: já Mattoso diz que na Serra da Estrela, bem aqui ao lado, há dois povos, o da encosta norte e o da encosta sul, que mal comunicam entre si.

Mas indo apenas àquilo que se vê a olho nu, isso só já basta para separarmos águas.

A Gardunha nortenha espreita a grandiosidade da Estrela e dos seus contrafortes, mas daqui até lá vai um longo e amplo vale, a Cova da Beira, onde bosques de castanheiros e de cerejeiras governam. É o verde que predomina, o da terra fértil que segue do Fundão até aos inícios serranos da Covilhã, e o dos pinheiros – por vezes, carvalhos -, que pelo Outono dão um acastanhado deslumbrante à tela. Na Primavera, o quente amarelado das giestas chega em Abril. Indo à Portela de Alpedrinha temos uma enorme janela para tudo isto.

Na face meridional, a cor muda. A pedra multiplica-se, e multiplica-se em exponência. É um chão bruto e seco, apenas pontuado no sopé, quando a templária aldeia de Castelo Novo resolve mostrar que é possível que haja quem aqui more. Vegetação tímida e pouco mais que rasteira vai dando uma alternativa ao cinzento do granito – mas pouca, normalmente vinda de protuberâncias de um verde seco, os codeços. Os ares do alentejo estão lá, nos sítios onde ainda vemos sobreiros de boa saúde.

Passeios na Serra da Gardunha

Uma Serra fronteira?

É da Penha da Senhora da Serra, o cume granítico da Serra da Gardunha, que temos uma boa síntese dos dois portugais, o do norte e o do sul – porque o do centro é designação mais recente, e no fundo significa tudo o que não encaixa completamente em norte ou sul.

Se um dia se quiser perceber estes dois lados do espelho que é Portugal, venha-se aqui – suba-se ao ponto mais alto da Gardunha, e temos isso numa viragem de trezentos e sessenta graus.

De lá, da Penha que aponta o dedo a Deus, mirando horizontes a sul, temos a planície sem fim do alentejo, apenas cortada por uma ou outra elevação, destacando-se, contudo, a rigidez de Marvão. Olhando a norte, temos um microcosmo do norte português – montanhas abruptas, como ondas em maré brava, intercalados com vales de terra fecundante.

É o fim do casario de piso singular e cores garridas. E o começo dos lares de pedra, onde o granito (ou o xisto) dá robustez às argamassas. Tudo isso pode ser visto na linha cimeira que separa a encosta norte e a encosta sul da Serra da Gardunha, um autêntico summit, usando palavra em voga, de geografia portuguesa.

A Serra da Gardunha acima das nuvens, com as neves invernais

Montes de Cereja

Há poucas paisagens tão eloquentes na transmissão visual de beleza como a da Gardunha quando chega as cerejeiras ganham flor.

Nesse quadro nipónico onde o branco macio da flor da cerejeira vai pintalgando as encostas desta serra da raia, perde-se o fôlego e apura-se o sentido – ou os sentidos, porque viajar não é só ver, e aqui, sobretudo aqui, há tanto para cheirar.

Esta é a linha de montagem das cerejas que alimentam o país. Sendo de grande ou pequena quantidade, coisa que varia consoante os rigores do clima e as tragédias dos incêndios, a verdade é que nunca deixa de ser boa.

E se a querem conhecer recém-nascida, é ir até lá, quando as cerejeiras ainda rodam os seus ramos como saias, ou dormirem uma noite junina em Alcongosta onde todos os anos se dá a Festa da Cereja.

As pedras mágicas da Gardunha

A Serra da Gardunha, como de resto a maioria das elevações de toda a Beira interior, Alta ou Baixa, é rica em figurações pétreas, sobretudo do lado sul, onde o granito mais se sente.

O granito, como rocha resistente que é, dá para isto: põe o vento como um grande e imortal artesão. A tela que é a serra é composta de inúmeras de peças que nem o homem, com toda a sua imaginação, seria capaz de esculpir.

São vastas as designações que o povo foi dando a certos afloramentos curiosos : o Cabeço do Galo, uma rocha de asas abertas com uma silhueta que lembra a de um galo ou de uma águia (ver foto em baixo); duas obras que nos remetem para o mito dos Gigantes, como a Cabeça do Gigante, que parece levar bigode abaixo do pronunciado nariz, e o Crânio de Gigante, arredondado e de uma perfeição espantosa; a Pedra Basculante, um dos muitos exemplos de Pedras Baloiçantes que o país tem; a pirâmide de granito que é feita na Penha; um ET vindo directo do filme de Spielberg, próximo da ribeira de Alpreada; as partículas do Cabeço dos Corvos… e tanto mais por descobrir quanto aquilo que está por desenhar.

Uma das muitas curiosas pedras da Gardunha

Lenda da Serra da Gardunha

Não existe apenas uma lenda, mas esta é a mais famosa e, por isso, a que aqui vem à baila.

Já a ouvi contada de duas formas, numa tendo os romanos como povo invasor, noutra tendo os mouros nesse mesmo papel. É a maleabilidade característica das lendas, que mantêm a essência da narrativa, adaptando-a sazonalmente conforme os contextos históricos. Mas vamos reduzir-nos à segunda versão, sabendo que da primeira para a segunda mudam pouco mais do que nomes.

A lapa onde, segundo a lenda, apareceu a Senhora com o aviso da chegada dos Mouros a Idanha-a-VelhaUm homem nobre de Idanha-a-Velha tinha uma filha de um primeiro casamento. Contudo, depois de viúvo, tornou a casar com nova mulher que, como é frequente acontecer nestes dramas de família, repudiava a filha do seu esposo.

A pequena vivia assim solitária, tendo como único amigo um cão. Mas até o cão era vítima do mau carácter da madrasta.

Durou isto tanto tempo, ainda por cima com os maltratos sempre em crescendo, que a rapariga se fartou e fugiu.

Sem grandes planos, olhou para o cimo de uma serra e decidiu por lá exilar-se na companhia do seu amigo.

Correram em direcção ao topo do monte e por lá encontraram uma cavidade no meio de vários penedos. Decidiram fazer da lapa um abrigo, e por lá pernoitaram.

Na manhã seguinte, a menina sentiu-se acordada por um toque de alguém. Olhou em volta e viu no fundo da lapa uma luz, de onde mais tarde saiu a Senhora. Surpreendeu-se com a aparição e ainda mais com o recado que tinha recebido: ela que voltasse à sua Idanha e avisasse seu pai de que os Mouros aí vinham.

Assim foi feito, e o pai disse ao povo de Idanha que se resguardasse na serra onde a Senhora tinha aparecido, porque os sarracenos estavam à porta e traziam todo o mal com eles.

Os Mouros, chegados a Idanha, nada viram, decidindo depois subir a colina que ali estava ao lado. Foram batidos pelos aldeões que lá se protegeram, estando em posição privilegiada no ataque. E diz-se que Gardunha vem daí, o monte que “guardou” os de “Idanha”. 

No sítio onde a Senhora apareceu foi construída uma capela, a Ermida de Nossa Senhora da Serra, cujos vestígios ainda podem ser vistos, na Penha da Serra da Gardunha. A lapa existe, e encontra-se bem lá no alto, para que apenas a veja quem se der a esse esforço (ver foto).

Hotéis e Glamping na Serra da Gardunha

Para a pergunta de onde ficar na Serra da Gardunha há várias e boas respostas. Dependerá do que se quer.

Na encosta sul, na aldeia histórica de Castelo Novo, encontra-se a Casa do Balcão, de molde típico da Beira Baixa, perfeitamente enquadrada na tonalidade acinzentada desta terra de Templários. Bem perto, um pouco mais para Este, sobressai o Carvalhal Redondo – Farm House, uma ampla quinta com casa tradicional mas de linhas modernas.

Entre as duas encostas, no ponto de viragem que é feito em Alcongosta, temos o Natura Glamping, já famoso pelas suas tendas que mais parecem ovnis (ver imagem em baixo). Tem localização privilegiada.

Por fim, já na encosta norte, nas Donas, a poucos minutos do Fundão, a Casa Entre Serras vai buscar o seu nome por se encontrar entre a majestosa Estrela e a Gardunha – simples e afável, e com entrada permitida a animais de estimação.

As icónicas tendas OVNI, na Serra da Gardunha

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.08063 ; lon=-7.5264

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.