Sarapatel

Agora que a consoada está aí à espreita, apresentamos um natalício prato criado no Alto Alentejo que teve força suficiente para ser agora cozinhado em Goa e no Brasil. Ao ponto de ficar mais famoso por lá do que por cá. Chamam-no de Sopa de Sarapatel ou muito simplesmente Sarapatel.

Sarapatel, uma salada de carnes e miudezas comida em épocas religiosas – no Natal e na Páscoa

Origem e história do Sarapatel

Para começar, entenda-se que Sarapatel é uma definição com o seu quê de genérica. Designa quase todo o prato feita com sangue de animal cozido. No entanto, aqui trataremos do Sarapatel mais famoso, o alentejano, por oposição ao minhoto e ao madeirense.

Sarapatel é termo muito bem empregue porque se trata, de facto, de uma salganhada de carnes de borrego, cabrito, carneiro, porco, ou mesmo de todos eles. E aquilo que se come são mesmo as miudezas de cada um destes animais, do pulmão ao coração, passando pelo fígado. Sem eufemismos, tratam-se de vísceras. E resumindo, não é coisa para estômagos mal preparados.

Parece de relativo consenso que o Sarapatel é originário do Alto Alentejo, numa zona próxima da raia de Portalegre e que teve mão judaica – sem o porco, nesse caso – muito embora, como já foi dito, também tenha sucesso mais a norte, no Minho. Em Castelo de Vide, onde existe uma judiaria, é tradição comer uma Sopa de Sarapatel no almoço de Páscoa.

O que também sabemos é que Portugal foi ponto de partida para o mundo, e que hoje o Sarapatel é comido no Brasil e, sobretudo, na parte da Índia com maior influência portuguesa, Goa. Aí misturou-se com os sabores autóctones – as especiarias nativas que lhe foram orientalizando o sabor.

Receita de Sopa de Sarapatel

As receitas podem ser muito variadas, ainda mais se formos ao antigo Portugal do além-mar. Mas iremos cingir-nos àquela que é tida como original, a da raia norte do Alentejo, entre Portalegre e Castelo de Vide.

Começa-se por fazer um estufado com os suspeitos do costume – gordura, cebola, alho, azeite, louro, pimenta – e acrescentem-se uns menos suspeitos – cravinho e colorau. Juntem-se as vísceras, sejam do que for: poderão ser de borrego, mas também de cabrito (mais raramente, de porco).

Depois do cheiro do guisado vir ao de cima, pomos vinho branco, e depois deste, vamos deitando água espaçadamente. Esperamos que deixe cozer e passado esse tempo poderemos temperar com ervas a gosto. Quando no ponto, juntamos o sangue de borrego (ou de cabrito) meio enfarinhado (há quem acrescente nozes) e deixado antes, em paralelo com o refogado, a cozer. Aqui vamos mexendo tudo em lume brando, até que a liquidez quase se dissipe.

E nesse momento é tempo de preparar o prato. Forra-se um recipiente preparado para levar sopa com pão cortado às fatias no fundo. Esta será a cama para o Sarapatel que ficou a cozinhar. Acompanha-se com folhas de hortelã (um costume que existe no Maranho, um pouco mais a norte, na Sertã, Beira Baixa) e, eventualmente, com cebolinho e rodelas de laranja no topo.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.