Santuário da Senhora de Anamão

É longe. Se há coisa universal sobre Castro Laboreiro, é que é longe. Mesmo se formos minhotos o é. E até para a gente de Melgaço, que está ali ao lado, Castro Laboreiro parece distante. São muitos metros em comprimento e muitos metros em altura. Mas valem todos a pena.

É uma terra de pedra, um mundo pétreo que nunca nos habituámos a ver, pela justificada razão de não existir outro igual a este. E nem sequer vamos falar dele todo. Apenas de uma parte, para já. Um vale, com acesso por um troço em terra batida que implica algum esforço físico, mas recompensador à chegada, quando deixamos que o Santuário da Senhora de Anamão nos ocupe todos os sentidos.

Também o chamam de Senhora do Numão. E é assim que ele mesmo se auto-proclama, vêmo-lo em placa, por cima da portada da pequena igreja, à qual se deu o mesmo nome. Antes disso, os presságios de estarmos em aura sacra são tantos que se tornam perto de vulgares – uma pedra fértil que anuncia casamentos (noutro texto, lá iremos), um cruzeiro a vigiar uma passagem de dimensão, amontoados de pedrinhas que mais não são que promessas de quem aqui passa, a Pena de Anamão imponente como Deus a acompanhar todo o nosso passo, pedras baloiçantes que só vista distraída não se apercebe, cruzes esculpidas a cristianizar pedras pagãs, há de tudo isso. Todos são sinais, como que um trailer, do que vem depois. Quando o trilho pára de serpentear para cima e começa a serpentear para baixo, em direcção ao vale.

Aí, passando o curtíssimo riacho, ficamos envolvidos de granito. Granito em bruto e granito em obra. Dele fizeram uso para monumentalizar o sagrado daquele lugar de silêncio.

Construiu-se uma capela, que infelizmente apanhámos de porta fechada, e logo ao lado, aproveitando uma rocha como parede, um pequeno púlpito onde carimbaram uma flor, a flor da água asturiana (ver imagem do topo), símbolo de possível origem celta, ligado à pureza e beleza, às xanas (por cá, com a variante Janas), e, como o nome indica, à água, a que não deve ser indiferente o facto de um pequeno ribeiro ali passar à beira. Esta rosácea de seis pétalas está intimamente ligada à data mágica dos solstício de Verão, entre nós conhecida na versão católica por dia de São João, onde, na região espanhola das Astúrias, a usavam enquanto elemento purificador, quando os primeiros raio de sol da manhã deste dia mágico tocavam as fontes pela primeira vez. Que tal culto tenha vindo até estas terras não será de estranhar, dada a compatibilidade cultural e histórica de ambas as regiões.

Mais acima, a poucos metros, temos uma pia feita também ela em granito. Desconheço se servirá para esse ritual de purificação – lá vem a pureza e a água, outra vez – a que convencionámos chamar de baptismo, mas acredito que sim. Daí temos vista privilegiada para o omnipresente penedo de Anamão, já falado acima. Poderá ser ele, essa rocha monstruosa que ameaça a todo o segundo cair sobre nós, a razão para a existência de tal santuário, e a ideia de que o megalitismo aqui presente está orientado em sua função faz-nos crer ainda mais nessa hipótese.

De resto, se formos à lenda que se escreve nestas pedras, ficamos sem dúvidas quanto ao tapete cristão que se colocou sobre este chão pagão. Tal como acontece em dezenas de outros sítios em Portugal (e em Espanha, convenhamos), houve uma imagem da Senhora que, encontrada numa perfuração de um penedo, foi levada para a Igreja Matriz de Castro Laboreiro. E ela de lá fugia voltando, no dia seguinte, a ser encontrada no sítio original. Tantas vezes foi de lá raptada, e tantas vezes ela quis voltar, que acabaram por lhe construir uma capela junto ao seu lugar de estimação. A tal pedra, muito provavelmente, é a anunciadora de casamentos vindouros, segundo crença local.

Todo este contexto parece um déjà vu, e é. Lembramos, por exemplo, que o mesmo acontece no Santuário de Nossa Senhora das Preces, na Beira-Alta. Também aí há uma Senhora que se escapa, regressando constantemente ao seu poiso de nascença, onde, da mesma forma, se construiu nova capela. Uma forma retorcida de a igreja tentar explicar o porquê desses lugares serem tão idolatrados, e uma justificação para lá conseguirem construir um edifício que o torne seu.

Depois disto, o regresso, feito pelo mesmo trilho que nos trouxe até cá, quase que não custa. Será sempre um gosto, entre o sagrado e o profano, voltar aqui.

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Mapa e Coordenadas de GPS: lat=42.006837 ; lon=-8.133865

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.