Romaria dos Santos Mártires de Marrocos

Feita nos dias 15 e 16 de Janeiro – e recentemente deslocada para o fim de semana após este dia -, a Romaria dos Santos Mártires de Marrocos mistura, como é da praxe, o que sobra de pagão com o que há de cristão.

Uma festa aos Mártires de Marrocos pode esconder uma outra, pagã e romana, dedicada a Carmenta

Os Mártires de Marrocos

Os santos evangelizadores que se deslocaram a Marrocos eram, antes de se tornarem mártires, cinco frades italianos com os nomes de Berardo, Pedro, Adjuto, Otão e Acúrsio. Inicialmente liderados por Frei Vidal, foi este substituído por Frei Berardo, por ter ficado doente ainda antes de ter pisado terras portuguesas.

No século XIII, chegados a Portugal, visitam D. Urraca em Coimbra. Segundo a lenda, esta ter-lhes-à perguntado quando morreria, e eles terão respondido que tal acontecimento só teria efeito depois de eles mesmo morrerem martirizados em Marrocos. Diz-se ainda que D. Sancha, filha do rei D. Sancho I, os terá motivado para a sua Missão de evangelização dos mouros, oferecendo-lhes provisões e vestimentas para dissimularem o seu cristianismo no caminho até lá.

Ora, chegado a Sevilha, que ainda mantinha forte influência muçulmana, despiram os disfarces e tornaram a vestir os trajes de frade. Entraram numa mesquita e começaram a pregar a palavra de Cristo. A ousadia não lhes deu bons resultados e foram expulsos de lá, poucas palavras depois de terem começado os seus discursos.

Dirigiram-se então para sul, para terrenos marroquinos, além de Gibraltar, os tais que deveriam ser o alvo principal da sua Missão. A vida dos frades e de Frei Berardo em Marrocos foi conturbada, por várias vezes ameaçada e salva, ora por cristãos, ora por alguns muçulmanos que sobreviveram graças a alguns dos milagres a si atribuídos. Tantas foram as vezes em que os mandaram exilar, e tantas outras foram as que eles se recusaram e continuaram a espalhar a palavra de Jesus – em oposição à vontade dos líderes espirituais muçulmanos -, que um dia os sarracenos se fartaram e decidiram decapitá-los.

As relíquias, pelo contrário, lá conseguiram ser salvas e resgatadas de Marrocos até Portugal, e mais tarde as cabeças de cada um dos santos foram também trazidas de Zamora até Coimbra.

Uma procissão aos Mártires de Marrocos é feita todos os meses de Janeiro

As romarias aos Santos Mártires

Diz-se que os primeiros sinais de peregrinação deram-se em terras conimbricenses e que o Mosteiro de Santa Cruz era o destino final de tal devoção. O mesmo em relação à representação destes santos na arte sacra. A razão é simples de entender: foi lá que eles se juntaram antes de partirem em Missão para Marrocos e onde se encontraram com D. Urraca. A arca-relicário dos mártires (foto ao lado) pode até ser vista no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra.

Arca-Relicário que se encontra no Museu Nacional Machado de CastroContudo, as romarias de Coimbra foram perdendo a sua importância, chegando mesmo, de acordo com alguns cronistas, a serem apontadas como absurdas por contarem com certas particularidades pouco convencionais – uma delas a famosa Procissão dos Nus, cuja origem tinha por base uma lenda da qual se dizia que cinco rapazes se safaram de uma mortal peste graças ao facto de terem visitado, despidos de roupa, as relíquias dos Santos Mártires em Coimbra. Essas caminhadas de devoção desfiaram de ano para ano, deixando-nos com um improvável reduto, uma pequena terra do município de Águeda, embora historicamente ligada à Sé de Coimbra: Travassô.

E assim aqui chegamos, à romaria mais importante de Travassô e uma das mais icónicas da região. São, no total, dois dias de calendário litúrgico. O dia 16 de Janeiro é, oficialmente, aquele que é dedicado aos Santos Mártires de Marrocos – foi esse o dia em que morreram, em Marraquexe. Em Travassô, é também esse o dia mais importante na homenagem aos santos, embora tudo começasse na véspera, dia 15 – isto não falando das preparações que surgem bem antes. Contudo, mais recentemente, a Paróquia decidiu, assumo que por uma questão de aumentar o número de visitantes, passar este par de datas para o fim de semana imediatamente a seguir ao do dia 16 de Janeiro.

Fora esta readaptação, a ordem das coisas mantém-se.

No primeiro dia faz-se uma reinventada Procissão dos Nus, onde os caminhantes levam mortalhas vestidas por cima da roupa, substituindo a antiga que se fazia em Coimbra onde muita gente ia de tronco nu e com roupa acima do joelho, em representação dos miúdos nus que, em deslocação de penitência às relíquias dos Santos Mártires, foram por milagre salvos por eles. Esta é parte da festa que mais tem que se lhe diga, como se verá mais à frente.

No segundo dia, o horário é mais completo, com direito a Eucaristia e confissões pela manhã. Ainda antes do sol estar no seu ponto máximo, dá-se a procissão entre a Capela de Nossa Senhora do Amparo e a Igreja Matriz, com bandas filarmónicas e desfile de pendões e andores de variadas personalidades bem-aventuradas do Catolicismo: os próprios mártires, São Franciso de Assis (já que os mártires eram frades Franciscanos), Santo António (que teve grande inspiração na Missão marroquina destes frades decapitados em Marraquexe), e outros mais óbvios como Nossa Senhora e a Sagrada Família. Há também várias crianças vestidas de anjo, e outras cinco na frente, essas vestidas com trajes franciscanos – isto é, reproduzindo a vestimenta dos martirizados. Chegados à Igreja Matriz, cumpre-se a Eucaristia Campal, no adro. Depois disso chega a hora das comezainas, nas barraquinhas propositadamente montadas por lá.

Tradições pagãs nos Santos Mártires de Marrocos

Havia e há muitas tradições associadas a esta romaria que remontam a tempos pré Cristãos. Sobretudo naquela que se fazia no dia 15 de Janeiro – a Procissão dos Nus.

Se o despir da roupa que se fazia antigamente se pode explicar pela penitência cristã – já que o arrependimento sempre foi um sentimento altamente valorizado pela igreja -, mais difícil é, num olhar cristão, conseguir perceber três hábitos profanos que lá se realizavam e, em dois dos casos, ainda se realizam.

Em primeiro lugar, um rito que entretanto desapareceu mas que foi testemunhado por muitos romeiros: vários homens, sobretudo militares, acompanhavam o passo da romaria de costas voltadas para a frente. Em segundo lugar, um outro rito que ainda hoje pode ser visto, que defende que as crianças que seguem na procissão, sobretudo as com pouco mais de um ou dois anos de idade, devem passar por baixo de um dos andores – o de Santa Clara, padroeira da fala -, de forma a que lhes seja fácil aprenderem a falar. E em terceiro lugar, o actual busto que é conhecido por Sagrada Relíquia, uma estatueta que é figura maior da procissão e que, diz-se, contém um osso de um dos santos – esta adoração por objectos místicos é manifestamente pagã e terá sido cristianizada mais tarde, atribuindo-se a eles determinada personalidade da Igreja Católica.

Tudo isto ganha uma complexidade maior quando vamos à data exacta em que, originalmente, se fazia esta Procissão dos Nus – 15 de Janeiro. Neste dia celebrava-se o Festival da Carmentália, em homenagem à ninfa Carmenta. Agora a coincidência que pode ser mais do que isso: Carmenta é uma figura da mitologia romana associada à protecção das mães e das crianças e também ligada à invenção do alfabeto latino, e para lá disso, os romanos viam nela uma ponte entre o passado e o futuro, já que ela teria o poder de ver qualquer um destes tempos – tal como o Deus Janus, que deu nome a Janeiro, o mês em que tudo isto de passa, e tinha, igualmente, uma face voltada para a frente e outra para trás.

Poderiam os soldados que andam de costas voltadas ser uma referência a esta dualidade temporal de Janus e de Carmenta?

E poderá a passagem das crianças sob o andor de Santa Clara para terem fácil aprendizagem da língua ser uma substituição de um ritual antigo feito a Carmenta, por ocasião do Festival da Carmentália, a inventora do latim? Afinal, Santa Clara, padroeira da fala, não encaixa bem no perfil de Carmenta, a ninfa inspiradora da língua latina originada no Lácio?

Mais. A lenda que se conta sobre a pergunta que D. Urraca fez aos Santos Mártires acerca da sua morte transforma estes numa espécie de adivinhos do que virá a acontecer (relembro que os franciscanos responderam-lhe que ela só morreria depois do martírio de Marraquexe, o que se verificou). Não poderá este pedaço lendário ser uma outra forma de conectar o carácter profético de Carmenta, que como se disse tem a capacidade de ver o futuro, com a nova religião cristã simbolizada nos cinco mártires?

E novamente: a idolatração feita à Sagrada Relíquia pode ser outro resquício pagão, tal como é a já aqui mencionada Cabeça-Relicário de São Fabião, conhecida por soltar um sopro mágico da sua boca (curiosamente ou não, Carmenta significa qualquer coisa como feitiço mágico)?

Terá a data da morte dos cinco frades franciscanos, conhecidos como Santos Mártires de Marrocos, sido aproveitada para coincidir uma celebração pagã com uma nova (e substituta) de tonalidade cristã?

Que existem aqui muitos fenómenos em tudo contrários ao que a igreja católica prega, não restam dúvidas. Se Carmenta e as suas festas têm alguma coisa a ver com eles, não sabemos. Mas fica uma hipótese que não parece de todo improvável. Há coincidências demasiado coincidentes para que tudo isto seja acaso.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.596517 ; lon=-8.506051

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.