Real Fábrica do Gelo

Na Serra de Montejunto construiu-se uma casa com um destino fora do comum: a Real Fábrica do Gelo. Tinha o propósito de fazer gelo para a gente rica de Lisboa – com a família real e os cafés da nata da capital destacados de entre os que mais o procuravam. Tudo isto porque a fidalguia havia descoberto um produto novo e, ao mesmo tempo, delicioso: o gelado.

Numa altura em que o frio atacava bem mais do que agora, bem perto de Lisboa, havia uma serra que fabricava gelo. Até a ermida que lá se fixou tinha um nome alusivo às baixas temperaturas de Montejunto: a Capela da Senhora das Neves.

História da Real Fábrica do Gelo

À medida que os meses estivais aumentavam, de ano para ano, a procura de gelo (ou como também se dizia, de neve) seguia o mesmo passo – e tudo para fazer face à procura de produtos como o sorvete ou as bebidas geladas que começaram a ser por cá cobiçadas por influência da dinastia Filipina.

Na altura, a produção de gelo era feita na Serra do Coentral, nas longínquas paragens da Lousã, ou longínquas na perspectiva de um lisboeta. Obviamente, à altura, a distância tinha uma importância que não tem hoje: a neve que vinha carregada do Coentral até à capital demorava a chegar, e demorando a chegar, poderia já vir em estado mais líquido do que sólido.

Pensou-se então numa solução geograficamente mais próxima.

Havia uma serra, um pouco mais para dentro do que a de Sintra, e também mais alta, à qual o povo chamava Serra da Neve, onde ficava o ponto mais alto de toda a Estremadura. Por aqueles anos, nevava por lá bem mais do que neva agora, razão pela qual lhe mudámos o nome para o que conhecemos hoje: a Serra de Montejunto. Por aí se decidiu criar um espaço de custo astronómico (e grande parte do custo envolvido relacionava-se com a dificuldade em levar os materiais necessários até ao topo do morro), e que tinha como objectivo fornecer a cidade de Lisboa, nomeadamente a família real, com gelo para que a gastronomia de Verão lhes estivesse a preceito.

Assim se começou a construir a Real Fábrica do Gelo, diz-se que com um primeiro impulso vindo de Frades Dominicanos, a meio do século XVIII, sofrendo adaptações posteriores.

O célebre Edifício dos Silos, na Real Fábrica do Gelo da Serra de Montejunto

Arquitectura da Fábrica do Gelo

As estruturas construídas revelam um processo de fabrico bastante inovador, sobretudo tendo em conta o seu ano de berço, e ainda para mais tendo em conta as visíveis melhorias na qualidade do gelo fabricado quando comparado com o anteior, de origem beirã.

Pode ser separado em dois blocos, um reservado à produção pura e dura, o outro ao depósito e conservação.

O primeiro bloco consiste, sucintamente, num conjunto de dezenas de tanques largos mas pouco profundos (os tais onde o gelo se criava) abastecidos por um outro tanque, este com maior capacidade, para onde dois poços dirigiam a água. A transferência de água era feita através dos desníveis naturais do terreno e os pequenos reservatórios em calcário que criavam o gelo comunicavam por pequenas aberturas entre si, permitindo a passagem da água do primeiro até ao último recipiente.

O segundo bloco é aquele que aparece mais comummente nos postais de apresentação da Real Fábrica do Gelo – um edifício de época, de simplificado ornamento, que guarda três silos (dois para a conservação da neve, um outro responsável pela preparação da expedição até ao Tejo. Na fachada do edifício afigura-se uma cavidade acima das suas portadas, provavelmente destinada a acautelar uma imagem católica (e logo ali ao lado construiu-se a Capela de Nossa Senhora das Neves).

A acção eram, assim, executada numa conjugação harmónica de esforços de todos estes elementos, engenhosamente desenvolvidos, numa funcionalidade revolucionária setecentista.

A partir de Outubro, quando o Inverno já virava verbo, enchiam-se os tanques durante as horas do sol. Depois de a água solidificar durante a noite, de manhã chamavam-se operários para fatiar o gelo, carregando-o para os silos logo ali ao lado. Dali partiam então burros, em primeiro lugar, e bois, em segundo, que se encarregavam de levar a matéria fria até ao Carregado, sendo depois transportada por via fluvial, atravessando o Mar da Palha até à capital do reino, naqueles que se convencionaram chamar barcos da neve.

Onde ficar

A Casa do Avô é situa-se na encosta norte da Serra de Montejunto e é uma simples e humilde casa, que conta com preços modestos mas que leva cozinha própria e tem a Real Fábrica do Gelo ali a um passo de distância.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.17732 ; lon=-9.0512

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.