Queima da alcachofra

A queima da alcachofra já só muito raramente é feita, e será preciso uma mobilização forte para que se regenere e volte a fazer parte do mês de Junho em Portugal. Trata-se de uma tradição associada aos santos populares (ou se formos mais atrás, às festas solsticiais de verão), talvez mais a sul do que a norte, porque é nos ares mediterrâneos que ela respira melhor.

O ritual é simples e feito em grupo: no dia de Santo António ou de São João ou de São Pedro, jovens apaixonados reúnem sacos ou cestos e vão para o sítio onde alcachofras abundam – a corola começa a roxear a partir do mês de Maio, e em campo aberto, apesar de nem sempre serem muitas, conseguem destacar-se. À foice vai também o alecrim e o rosmaninho, para alimentarem as fogueiras juninas e perfumar o ar de cheiro a verão – fogueiras estas que servem também enquanto ritual de iniciação, servindo de obstáculo de salto para rapazes (e algumas raparigas). E quando o fogo está já em fase decrescente, por volta da meia-noite, hora muito simbólica pela transição que representa, os apaixonados passam a alcachofra pela queima. Recolhem-se, já queimadas, e colocam-se num vaso. Rega-se a terra. Depois é esperar que ela renasça. Por vezes dias, mas idealmente no seguinte, ao acordar. E é aí que a alcachofra se transforma em reveladora de destinos: se a planta brochar, o amor é para durar; se não brochar, será melhor procurar outro. E a verdade é que umas conseguem florir aqueles lilases espampanantes cá para fora, num bom contraste com os austeros picos que os sustentam – a que não deverá ser indiferente a metáfora do amor conseguir elevar-se acima de tudo.

Escusado será lembrar o lado pagão de tudo isto. Da fogueira, símbolo por excelência do sol, celebrado nestas datas por estar na sua máxima força (dias longos, noites curtas). Da hora da queima, a meia-noite, hora de transição, podendo estar associada à mudança de ciclo – a partir daqui, no hemisfério norte, o sol decai, no sentido em que ocupa menor parte do dia. E mesmo da espera num renascer da alcachofra à vida, numa referência à regeneração da natureza, que morre e renasce todos os anos.

Hoje as alcachofras são talvez mais usadas como fonte de inspiração culinária do que como vidente de emparelhamento amoroso. Nada contra. Mas é preferível o romantismo de deixar o coração nas vontades de uma flor.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.