Pulo do Lobo

Ficou conhecido a nível nacional pela forma estranha como Cavaco Silva resolveu fugir a uma pergunta, dizendo que não ouviu declarações do presidente Mário Soares porque estava, na altura, a visitar uma cascata entre Mértola e Serpa, na zona norte do Parque Natural do Vale do Guadiana, com o nome de Pulo do Lobo. E assim este pequeno degrau esculpido no rio Guadiana entrou como notícia de abertura em tudo o que foi telejornal, que na altura eram poucos.

Passaram-se anos e, felizmente, o Pulo do Lobo voltou a ser o que era: uma garganta fluvial, uma cascata com cerca de vinte metros de altura que se atira para um Guadiana tão parado que parece lagoa e não rio. Está afiada entre um terreno pedregoso mas agora de acesso mais facilitado, e envolta numa misteriosa lenda – uma que, na terra, pouca gente não a conhecerá. E cada um a contará à sua maneira, razão pela qual eu irei contar à minha.

Conta-se que uma princesa aqui vivia, numa das margens do rio, e que esta se apaixonou por um jovem – pobre mas inventivo, humilde mas destemido -, da outra margem. A princesa esqueceu a sua condição e entregou o seu coração ao rapaz. O rapaz aceitou-o e devolveu-lhe o seu.

Todos os dias o gaiato aventurava o caminho mais curto até à sua amada, que passava por uma cascata formada quando as duas margens do Guadiana se aproximavam uma da outra até ficarem à distância de um gigante pulo. Tudo estava bem até que o pai da princesa se apercebeu do que se passava, e logo tratou de apanhar o rapaz e ameaçá-lo de que, caso este não largasse a sua filha, soltaria todas as maldições que tivesse dinheiro para comprar sobre ele. O amor dos dois era maior do que qualquer alarido, mesmo que fatal, e as visitas do miúdo mantiveram-se.

O pai da princesa, sabendo disso, não foi de modas e cumpriu à letra a ameaça feita: contratou um bruxo e este transformou o pobre gaiato num lobo. Decisão que piorou a coisa, porque nem o rapaz – agora lobisomem – deixou de dar o salto entre margens, nem a princesa deixou de o querer ver depois do encantamento.

Num acesso de raiva, o pai da princesa voltou à carga, agora com exército, e foi nesta desproporção de forças que avançou para a perseguição do rapaz-lobo. Ao saber destas intenções, os apaixonados juntaram-se e decidiram fugir. Mas para fugir teriam de voltar a passar por ali, pelo pulo que o miúdo se habituou a dar. A impulsão da princesa não chegou, e acabou por resvalar e cair nos 20 metros de altura da cascata, morrendo no embate. O sofrimento do seu amor foi tal, que tragicamente se atirou também ele ao rio, meio homem, meio lobo, acabando por morrer ao lado da sua amada.

Coordenadas de GPS: lat=37.804123 ; lon=-7.633481

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.