Procissão das Almas

No norte de Portugal, sobretudo no Minho, há uma crença antiga. Contam muitos, maioritariamente os mais velhos, que uma procissão de mortos ou de almas penadas é feita pela noite. O objectivo? Visitar casas onde, em breve, alguém irá morrer.

Nas noites de São João e de Samhain, exércitos de mortos caminham atrás de um vivo. Nessa altura, os bosques calam-se, os gatos fogem, os cães uivam como lobos. Para os minhotos, é o anúncio da morte, que irá bater à porta de alguém que conhecem, se não for mesmo deles próprios.

Procissão das Almas, a Santa Compaña galega

A crença numa procissão de defuntos é comum a outras áreas nortenhas de Espanha. A Galiza chama-a Santa Compaña. Mas também as Astúrias, assumindo a designação de Güestia ou Hoste, a adopta, a par com a província de Leão. Curioso é notar que há testemunhos de visões muito semelhantes em províncias improváveis, como o Algarve ou a Extremadura espanhola. E no Brasil, através da colonização, ganhou contornos distintos que iremos falar mais à frente.

Apesar de divergirem em certos detalhes, partilham a essência: a ideia da morte ir visitar ou recrutar alguém que num futuro próximo morrerá.

Há dezenas de variantes, mas para simplificar, vamos focar-nos naquilo que mais é contado.

Na versão galaica, isto é, galega e portuguesa, os mortos, portando círios nas mãos e andando descalços, com capotes a cobrirem todo o seu corpo, seguem atrás de alguém ainda vivo, carregando este último um crucifixo e água benta, e não podendo esse virar-se ou olhar para trás. A procissão é feita quando a noite já está vincada, não havendo nesga de sol, mesmo que enfraquecida. Normalmente, os fantasmas seguem alinhados em duas filas, e atravessam bosques cerrados onde o silêncio, por si só, já mete medo que baste.

O vivo será homem ou mulher, dependendo se o orago da paróquia é santo ou santa, e poderá entregar o seu azarado papel de líder dos mortos a outro, desde que lhe passe a cruz e a água benta. Quem quiser livrar-se deste fardo, terá de desenhar um círculo amarelo no chão e pôr-se lá no meio, deitado, e sem fisgar nenhum dos mortos que passe por ele.

Esta horda fantasmagórica entra nos lares das aldeias, e cada visita significa a morte futura de alguém que lá more. Há ainda quem diga que, em vez de casas, este anúncio do fim é feito a pessoas que são apanhadas em encruzilhadas – já aqui foi abordado o mistério que estes sítios, decorados com Cruzeiros, concentram. Seja qual for o cenário, uma coisa parece certa: a Procissão de Defuntos é o início do fim de alguém, e por isso é o terror para qualquer aldeão que tenha o infortúnio de a ver cruzar-se com ele.

A chegada da Santa Compaña pode ser antecipada. Ou por estranhas reacções de certos animais. Ou por um estranho cheiro a cera que invada, sem razão aparente, os ares de aldeias serranas. Ou por uma corrente de vento muito fria, demasiado fria para não se estranhar.

Desvios a esta versão existem sempre. Alguns falam de uma Santa Compaña diurna. Outros que os mortos não são mortos mas sim fantasmas de gente viva, e que essa gente, no dia seguinte, não se lembra de nada do que lhe aconteceu no dia anterior, desfiando depois, dia após dia, até morrer.

Uma crença do norte - a morte vem à rua

Origem da Procissão dos Mortos

São muitos os antropólogos que ligam o fatalismo das finisterras da Ibéria à Procissão dos Mortos. Tal como se marcou a diferença entre céu e terra, estando o primeiro entregue às Deidades e às almas e o segundo ao Homem, também, quando o mundo além-mar era domínio do desconhecido, foi essa a visão do Homem na relação entre terra e oceano.

Em Gales, cães ladram a anunciar a morteA divinização daquilo que não se conhecia era prática corrente, e mantém-se actual em muitos costumes hoje observados de norte a sul do país. Bastará ver todos os ritos que existem nos promontórios portugueses e galegos, como é o caso dos Círios Estremenhos ou do famoso Caminho de Santiago. Existe, na Galiza e em Portugal, um elo divino com o imenso Atlântico.

A crença numa vida para lá da morte é uma histórica parte das consciência humana, e normalmente entregavam-se aos defuntos sítios inacessíveis aos vivos: o céu, na maior parte dos casos, mas igualmente o mar, pelo menos nas culturas do eixo Atlântico, dos confins dos ilhéus Escoceses às mais solarengas costas de Portugal. Tal como se assumia que as almas ascendiam aos céus, também essas poderiam transgredir a barreira terra-mar e entrar num outro domínio da vida além-morte. Essa passagem para o outro lado pode, inclusivamente, ser confirmada noutras culturas europeias, de certa forma parentes da celta, como é o caso da nórdica, bem visível nos seus barcos funerários.

É nesse sentido que, de acordo com alguns estudiosos, se criou a ideia de, nestes ermos tão perto da infinitude Atlântica, fantasmas de pessoas recentemente falecidas fazerem o seu caminho até ao seu paraíso, que aqui seria o mar. Nessa óptica, os espíritos dos defuntos aguardariam no continente pelo dia em que seriam libertos da terra, o que acontecia no Samhain, ou seja, no dia 31 de Outubro – dia que marca a passagem de ano celta.

O coleccionador de almas, na Mitologia bretãEsta ligação ao celticismo tem ainda mais sentido quando relacionamos a Santa Compaña com certos episódios da mitologia de nações tidas como celtas. Em Gales, por exemplo, são famosos os cães que anunciam a morte, com os seus latidos muito altos quando ao longe, e mais baixos quando ao perto – chamam-nos os Hounds of Annwn, autênticos cães da morte (ver imagem acima, do lado direito). Na Bretanha francesa, província conhecida pela seu profunda cultura celta, há a figura mitológica de nome Ankou – uma personificação da morte que colecciona as almas penadas (ver imagem do lado esquerdo). Na Irlanda, uma outra premonição da morte dá pelo título de Banshee (derivação do gaélico bean sí, que traduzido dá qualquer coisa como a mulher-fada), e fá-lo a gritar boca fora.

Mais tarde, em épocas medievais, documentou-se a Santa Compaña num contexto já cristianizado, ligada a certos dogmas que até para a Igreja eram, à altura, controversos, como o da existência do purgatório. Outras provas de como o clero quis aproveitar este folclore pagão podem ser encontradas em gestos simples, como aqueles que, conta-se, se fazem para evitar ser abordado pela Procissão de Fantasmas: fazer-se a bênção com as mãos ou tocar num cruzeiro quando se vê ela a passar diante dos nossos olhos.

Os dias da Santa Compaña

Normalmente, os testemunhos de avistamentos da Santa Compaña dão-se em dois dias específicos. Ou antes, duas noites. Datas mágicas que, de ano para ano, a Europa celebra: a noite de São João (isto é, a de Solstício de Verão) e sobretudo a noite anterior ao Dia de Todos os Santos (ou seja, a de Samhain ou, numa forma comercial, a de Halloween ou Noite das Bruxas).

A escolha destes percalços de calendário não vem ao acaso. Se na segunda, como sabemos e já foi explicado nos artigos da Festa da Cabra e do Canhoto e da Coca, há todo um enredo em torno da ideia do mundo da morte vir à superfície dos vivos, para os perturbar nesse tempo ausente que é a passagem de 31 de Outubro para 1 de Novembro, na primeira vive-se igualmente uma passagem dimensional, de cunho solar, tão bem representada pelo São João do Porto. Contudo, há que lembrar que estas duas noites não detêm a exclusividade no que toca ao aparecimento da Santa Compaña. Vários testemunhos dão nota de aparições em dias vulgares, sem qualquer simbolismo, pelo menos que se conheça.

Curioso é notar o caso brasileiro. Em algumas regiões do Brasil, a Procissão dos Mortos é celebrada na Páscoa, o que poderá ter o seu sentido. Se por cá, no hemisfério norte, a Procissão de Defuntos é feita quando entramos no lado lunar do ano (isto é, o período em que as noites se tornam mais longas que os dias), é normal que a transição para o hemisfério sul aconteça numa data simétrica – e a Ressurreição, acontecendo normalmente no mês de Abril, calha precisamente na altura em que o Brasil vira a página para entrar na fase das noites maiores que os dias. Podemos assim dizer que, neste caso específico, a tradução de uma festividade portuguesa para o lado brasileiro foi feita mantendo o seu valor simbólico original – ao contrário do Carnaval, que é uma festa da chegada da Primavera e que no Brasil é festejada à entrada do Outono.

Em Pontevedra, uma parede mostra-nos como a Procissão dos Mortos ainda reside no folclore da Galiza e do norte de Portugal

Uma crença do passado?

Desengane-se quem pensa que as Procissões de Defuntos eram acreditares da Idade das Trevas, extravagâncias de gerações ignorantes, e que hoje já pouco mais são do que ecos medievalescos etiquetados como folclore.

Ainda há muito pouco tempo, através de um amigo de Castro Laboreiro (o quinhão de terra habitada mais alto do Alto Minho), ouvi uma história muito similar e que vai buscar muito às Santas Compañas galegas. Esses fantasmas castrejos, em tudo relacionados com aqueles que falamos aqui, darão seguramente um outro texto futuro.

Em Pontevedra, na Galiza, há um famoso graffiti (imagem em cima) que ilustra em parede urbana o que é, ou como se conta ser, uma Procissão de Mortos. Só mostra o quão actual ainda está no subconsciente das gentes do norte ibérico, Portugal incluído.

Joaquim Fernandes, no seu livro “Portugal Insólito”, escreve-nos o testemunho de uma mulher cujo marido, portuense, assistiu à passagem de uma Santa Compaña em Riba de Âncora, no concelho de Caminha, e que ainda hoje tem medo de falar do assunto. O relato é da década de noventa.

Reportagens feitas aqui ao lado, em Espanha, dão conta de histórias relacionadas com familiares que morreram depois de afirmarem ter assistido à passagem de uma fila de finados.

Resumindo, a Procissão dos Mortos não é coisa de um passado remoto, entretanto trazida para um presente marcado pelo cepticismo. Ela é mesmo parte de um consciente colectivo, temido por muitos, mesmo por gente mais impermeável a fenómenos sobrenaturais, grupo em que me incluo. Que las hay, las hay.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.