Portas do Ródão

As Portas do Ródão são um monumento natural, esculpido pelo vento e, mais que tudo, pela água que corre no Tejo. Aparece pouco depois de chegarmos a território português vindos de Garrovillas de Alconétar, em Espanha, e situa-se, como é fácil prever pelo nome, perto de Vila Velha de Ródão, vila industrial com pouco para ver mas com um activo natural merecedor de visita nas suas redondezas.

São, no fundo, uma espécie de dois fins de terra, um quase a beijar o outro, mas separados pela força do caudal do Tejo, que segue para sul, a caminho de Abrantes, de Santarém, e por fim, de Lisboa. Estamos perante dois dos mais emblemáticos miradouros, mesmo na fronteira do Alentejo com a Beira Interior. Do extremo do cabo sul conseguimos ver muito da Beira Baixa, e do extremo do cabo norte, acontece o mesmo mas para o Alto Alentejo. A beleza que a natureza aqui fez tratou de pôr o homem a criar o que habitualmente cria quando se deixa render ao encanto de um sítio: diviniza-o com Deuses e com mitos e com lendas. Aqui, não é para menos.

A mais recente versão da Lenda das Portas do Ródão tem uma contextualização mais recente – a da época da invasão moura -, mas parece óbvio que tal curiosidade já tenha tido outros Deuses ligados a ela. Conta-se que, aquando da conquista árabe, o rio Tejo separava o lado Visigodo, a norte, do lado sarraceno, a sul. Os Visigodos eram então defendidos pelo rei Vamba, casado com uma bela mulher. Do lado sul estava o rei Mouro que se apaixonou pela rainha visigoda, amor esse retribuído por ela. Vamba, entretido com outros afazeres, entre os quais a guerra, não se aperecebeu. Namoravam à distância dos dois cabos, ela sentada num trono de pedra no lado setentrional, ele sentado num outro trono de pedra, no lado meridional. O amor entre os dois levou a que o rei mouro fracassasse uma tentativa de rapto, através de um túnel que seria, supostamente, construído por baixo do rio. Mas as contas falharam e as escavações não chegaram à outra margem. A rainha, por sua vez, teceu uma ponte de linho de um lado ao outro, e conseguiu assim abraçar o rei sarraceno. A tragédia veio depois. Vamba, o Visigodo, assim que soube o que se tinha passado, mandou o seu exército capturar a foragida e conseguiu-o. Foi ela julgada e sentenciada à morte, morte essa que deveria ser dada atando-a a uma mó e deixando-a cair desfiladeiro abaixo. A rainha, antes de morrer, soltou uma maldição: nesta terra não haverá cavalos de regalo, nem padres se ordenarão e putas não faltarão. Conta o povo que nunca mais cresceu mato nem silva na zona por onde a mó e a rainha passaram antes da sua abrupta queda no Tejo.

O Rei Vamba (ou Wamba), de resto, é uma fonte de lendas no concelho de Vila Velha de Ródão, e esta aqui descrita é apenas um dos exemplos de muitos outros que há para contar.

O castelo que atribuímos ao dito rei Vamba lá se encontra, no lado norte, do qual a torre é aquilo que mais se vê e mais bem cuidado está. E há, do lado sul, a chamada Buraca da Moura, segundo crença ligado ao Buraco da Faiopa situado na Serra de São Miguel, no concelho de Nisa, túnel que saiu da imaginação popular e que alimenta a lenda já falada. Os pontos de vista oficiais, de qualquer um dos lados, são dignos desse nome, mas há outros, aqueles de mais difícil acesso, onde não há outra hipótese que não um improvisado alpinismo nas rochas quartzíticas que se fixam lá no topo, que escondem belos cenários serranos, portugueses e espanhóis. E depois podemos sempre aventurar uma ida ao extremo de cada cabo e fazermo-nos passar por um deles, pelo mouro ou pela visigoda, sentado num gigante cadeirão rochoso, a engendrar uma maneira de chegarmos até perto de um amor que o Tejo separa.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.64297 ; lon=-7.68768

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.