Pombais Tradicionais

Como acontece com os Muros Apiários, os Pombais Tradicionais presentes em Trás-os-Montes e na sua continuação até à Beira Alta tornaram-se estruturas obsoletas. Mas se para os primeiros a recuperação é feita apenas numa perspectiva turística, para os segundos, estes de quem vamos aqui falar, há todo interesse – quer turístico, quer gastronómico, quer ecológico – em fazê-los renascer.

Ao longo do Douro e a norte dele, andam um pouco por todo o lado. Que estranhas casas brancas são aquelas em forma de ferradura e onde pela porta mal cabe um homem?

O que é um Pombal Tradicional

Um Pombal Tradicional é uma pequena casa que pode ser vista amiúde nas serranias transmontanas e na faixa norte da Beira mais interior, que tinha a função primordial de abrigar pombas e daí se tirarem proveitos múltiplos.

Primeiro que tudo, para um citadino, há uma desmistificação a fazer: se, para um lisboeta habituado à paisagem do Rossio, uma pomba é sinónimo de lixo, no campo nem sempre assim é. Além de ser prato cobiçado – em Espanha, por exemplo, a tradição de se comer pombas (sobretudo ainda jovens, chamadas de borrachos) é muito maior do que a que existe cá -, esta ave produz estrume que, segundo os trabalhadores vinhateiros do Rio Douro, é de elevadíssima qualidade. E fora isso, antes, havia ainda o extra de se poderem vender alguns dos pombos para provas desportivas de tiro, e a bom preço.

A verdade é que hoje a adubagem química, ainda por cima feita em doses industriais, veio destruir o uso de estrume. Esta quebra de ciclo que a natureza tão bem faz – darmos estrume à terra e ela em troca dar-nos vinho parece um milagre – foi-se perdendo. E se por esse lado a manutenção dos Pombais Tradicionais deixa de ter a mesma valorização que tinha antes, o pior é que há também cada vez menos gente disponível para sustentar estes poisos. A migração das zonas rurais para as cidades não dá outra hipótese que não deixar muitos deles ao abandono.

Hoje, alguns Pombais viraram lar de outro tipo de aves: as paredes, já meio desfeitas, permitem a entrada de outro tipo de avifauna de maior dimensão que, apesar do deterioramento, vêem naquelas paredes aconchego suficiente para a nidificação. O que era antes uma caixa forte de pombos virou agora o mesmo mas para corujas e mochos e poupas e estorninhos. Já as pombas domésticas fizeram a mesma marcha que os homens de campo, em direcção às cidades, onde havia mais alimento e menor risco de ataque.

Mesmo assim, aqui e ali, ainda se vêem Pombais Tradicionais em boa forma, e até que ainda prestam a função para a qual foram originalmente criados. E há programas que prevêem a recuperação de alguns conjuntos que, nos últimos anos, forma engolidos por silvado. São recuperações que promovem o ecossistema nordestino, dando presas suficientes às aves de rapina que circulam nos céus do Parque do Douro Internacional.

Um Pombal Tradicional da zona do Nordeste

Arquitectura do Pombal Tradicional

Salvo raras excepções, os Pombais Tradicionais são quase sempre de planta circular (ver foto em cima) ou em forma de ferradura (ver foto inicial), até mais esta última do que a primeira. Eventualmente, poderemos avistar estruturas rectilíneas, em quadrado ou em rectângulo, mas tratam-se de uma minoria.

A razão para a arquitectura circular ou semi circular é dúbia. Tratando-se de arquitectura popular, é possível que haja uma relação com as históricas casas próprias da Cultura Castreja, que são uma evidência no norte português – e vindo estas casas de dias distantes, talvez ainda romanos ou pré-romanos, não é de deitar fora esta hipótese.

De resto, reconhecemos nelas certos retoques que têm um objectivo muito específico e funcional.

Os corta-ventos que se levantam cerca de trinta a quarenta centímetros acima do telhado, uma espécie de continuação da parede para além do tecto, têm o propósito de proteger as aves da nortada. A encimar esse pequeno muro, há pináculos, normalmente de quartzo, que poderão ser apenas rocha bruta levantada ou, em casos mais artísticos, pedra trabalhada. Ainda na parte superior, vemos buracos que são a porta de entrada (e de saída) dos pombos, pequenos o suficiente para deixar de fora as aves de rapina. Do lado de dentro, contam-se ninhos, em saliências, usados para produção. Nas paredes, no lado exterior, podem ainda ser vistas placas metalizadas que obstroem o caminho de possíveis predadores de pombas, como as cobras que aqui abundam, ou mamíferos como a gineta ou a fuinha. A entrada humana é mínima, por vezes mais pequena que uma janela, e habitualmente tapada por uma portinha em madeira (excepcionalmente pode ser de ferro) – é feita um bom meio metro acima do nível do chão para impedir a entrada de roedores e para evitar que a porta fique empenada no estrume que se acumula no lado de dentro.

Por fora, são cobertos a cal. Algumas deixam o xisto ou o granito darem a cara. O telhado é tapado com telha de barro ou de ardósia.

Onde Ficar

O concelho de Vinhais tem posição privilegiada no que toca à riqueza dos Pombais Tradicionais, quer pelo número que concentra ao longo da sua área de influência, quer pelo estado de conservação em que muitos se encontram. Por lá passa, também, uma rota que tem como alvo, precisamente, a visita a estes exemplos de arquitectura popular do nordeste.

Assim sendo, recomenda-se o Vinhais Hotel – repouso moderno em terra medieva, a um pé do Parque Natural do Montesinho.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.