Oliveira

Portugal, geograficamente falando, não é mediterrânico. Mas bastará olhar para a sua flora para percebermos que o seu clima (para não falar de grande parte da sua cultura), o é. E a predominância da oliveira na paisagem portuguesa serve para selar este perfil mediterrâneo que percorre a maior parte das suas antigas províncias (salvo raras micro excepções em determinadas zonas do país, e excluindo daqui o Minho, que parece ser a única região portuguesa que já podemos afirmar ser mais atlântica do que outra coisa qualquer).

E como é evidente, a ocorrência da oliveira em solo português também varia, sendo muito mais vista a sul, onde o relevo não a mata de frio e o sol a benze durante quase todo o dia. Haverá, a norte, algumas zonas onde se dá bem, até porque no que toca ao solo, não é particularmente exigente. No Douro, quando este fica quente, já mais para o interior, é possível vê-las em barda, acompanhando os sufocantes vales durienses. Contudo, será no Alto-Alentejo, no Baixo-Alentejo, e no Algarve, que a tomamos como rainha das planícies, acinzentando as cores com o verde outonal das suas folhagens.

A ela associamos essa secura do sul. Parece-nos tão seca que nos esquecemos que consegue florir. Uma flor esbranquiçada, de quatro pétalas, dando de si durante um par de meses de verão. A aridez que caracteriza o seu aspecto até nos faz pensar que mal precisará de água para sobreviver – mas precisa, e precisa sobretudo se a queremos prolífica, mãe de muitas azeitonas. É este fruto, sacado aos ramos pela vibração de varas, que faz com que o homem se preocupe tanto com a sua condição, contruíndo olivais e esperando um punhado de anos até que possa ser feita a primeira colheita. São cenários manipulados para que ela se sinta em casa, tal como acontece com os montados de sobreiros nas planuras alentejanas.

Além da azeitona, a oliveira tem no seu intrincado tronco outra riqueza. A madeira, robusta e maciça, é preferida por vários artesãos, feitores de artesanato emadeirado.

E as suas folhas, faladas como mágicas desde tempos perdidos, são uma pujança curativa, já assim tidas para os romanos que governaram todo o mundo mediterrâneo, e cujo império é provavelmente a causa da sua disseminação por essas terras, incluindo nelas o território português actual.

Conhecemo-la por estar limitada na estatura. Com efeito, é muito raro vermos uma acima dos dez metros de altura. A partir de certa idade, perde a vontade de crescer. Ou cresce de outra forma, para os lados, encorpando o seu tronco com entrelaçados difíceis de seguir com o olhar.

Mas há um outro lado a ser falado, que dá pano para mangas: a sua espiritualidade, ou de outra forma, o que a espécie humana viu de transcendente na oliveira. Isso é traduzido na quantidade de vezes em que a oliveira é citada nos livros sagrados. No Novo Testamento, por exemplo, era um ramo de oliveira que a pomba de Noé trazia para anunciar a misericórdia divina no dilúvio, e foi no meio de oliveiras que Cristo meditou antes do calvário. No Antigo Testamento é mencionada dezenas de vezes. Mas podemos ir antes disso. O simbolismo pagão da oliveira também existiu, enquanto metáfora para o conhecimento, a luz num mar de escuridão – não era o óleo de lá sacado usado para alumiar as noites de breu?.

Cá no burgo, aproveite-se a Rota das Oliveiras para se ser apresentado a olivas que já cá estão antes de haver sequer uma ideia de Portugal. São centenárias, algumas. E umas outras ultrapassam os mil anos de idade. Fizeram parte de toda a história deste país e foram parte da história de uns quantos outros. Nem que seja por isso, já merecem reverência.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.