Museu da Tapeçaria de Portalegre

Não que fosse preciso, mas bastaria o Museu da Tapeçaria de Portalegre (ou Museu Guy Fino) para justificar a existência da cidade. Preparem-se porque, assim que chegamos ao Palácio Castelo Branco, exactamente onde a exposição de tapeçaria está, entramos numa mostra sem igual, onde a arte de tecer é tal que se confunde com a da pintura. Mesmo. Sem exageros. Há aqui tecelagem mais vivaz que muita tinta.

A Tapeçaria de Portalegre do Museu Guy Fino faz-nos duvidar de tudo, porque naqueles pontos não vemos tecelagem nenhuma, tal a perfeição

O começo das Tapeçarias de Portalegre

As tapeçarias de Portalegre são hoje reconhecidas por interesses que vão além do nacional. Muitos foram os pintores que quiseram ver as suas obras reinterpretadas desta forma, passando-as do cartão para a tapeçaria. E tudo isto tem origem num ínfimo pormenor histórico: um novo ponto de costura, inventado por um português, Manuel do Carmo Peixeiro, no início do passado século.

Manuel do Carmo Peixeiro viveu em França e por lá se tornou apreciador desta arte. No entanto, esbarrava em alguns impedimentos técnicos da tapeçaria francesa, que limitavam o resultado final da obra. Essa foi a sua motivação para criar um novo ponto que contornasse essas restrições práticas, o chamado ponto de Portalegre, bem mais trabalhoso mas também bem mais rigoroso do que qualquer um outro. Em parceria com um excelente comunicador seu amigo, Guy Fino, homem com um impulso negocial inacreditável, resolve montar um tear e se a nova invenção se dava bem do ponto de vista estético. E deu.

A partir daí, ficou Guy Fino de persuadir alguns novos artistas a verem as suas obras passarem da pintura para a tecelagem. Os primeiros, ou pelo menos os primeiros mais famosos, são Júlio Pomar e Lima de Freitas. Este foi o ponto de partida. O reconhecimento veio mais tarde. E por uma personagem improvável: Salazar.

Guy Fino, sabendo da aposta que o antigo regime andava a fazer nas obras públicas, apostou nesse cavalo – seria de extrema importância pôr alguém do Estado Novo a olhar para as tapeçarias de Portalegre. E conseguiu o seu representante máximo.

Tudo aconteceu quando uma exposição de tapeçaria francesa passou pelo Museu Nacional de Arte Antiga – ainda hoje, para mim, o museu referência deste país. Guy Fino aproveitou a altura para expôr, em paralelo, no Palácio Foz, junto aos Restauradores, duas obras portuguesas recém-tecidas. E havia assim, em Lisboa, duas exposições de tapeçaria: uma megalómana e imponente, vinda de França, e outra humilde, com um par de peças do meio esquecido ponto de Portalegre.

O que aconteceu é que Salazar, depois de muitas insistências, lá acedeu a visitar o Palácio Foz, já depois de ter visto a magnífica colecção francesa. Segundo se conta, ficou absorto com os exemplares nacionais, considerando-os superiores aos representantes da Gália. Estava feito. A partir daí, as encomendas de tapeçaria do governo português passaram a ser feitas a Guy Fino, e muitas delas podem ser vistas hoje nos mais variados salões públicos – mas deixemos isso para outros textos.

O Museu Guy Fino visto de fora

A Internacionalização das Tapeçarias de Portalegre

O sucesso das Tapeçarias de Portalegre a nível nacional deu a Guy Fino a rede de protecção que precisava. Estava agora campo aberto para um novo objectivo: internacionalizar uma arte que tinha tudo para ser reconhecida lá fora.

Voltando à exposição de tapeçaria francesa no Museu Nacional de Arte Antiga, havia por lá um famoso artista deste peculiar mercado: Jean Lurçat. Guy Fino, um estratega com olho de comerciante, consegue meter conversa com o francês. Lurçat regressa para o seu país natal sem conhecer as tapeçarias portuguesas, mas o contacto inicial, que era o que Guy Fino mais queria, ficou garantido.

Entretanto, algum tempo depois, Lurçat convida o português para uma visita ao seu castelo pirenaico. E foi aí que foi entregue um exemplar de tapeçaria francesa, no caso, o desenho de um galo. Guy Fino viu aí a sua janela de oportunidade e perguntou se poderia transpor esse retrato para uma tapeçaria sua, isto é, usando o ponto de Portalegre, e o francês concordou.

Depois da tecelagem de tal obra ser feita, Guy Fino pediu a Lurçat para vir conhecer a fábrica portalegrense. Colocou ambas as peças lado a lado, sem dizer qual era a portuguesa e qual era a francesa. O olho de Lurçat foi buscar a que tinha maior qualidade, e afirmou ser essa a francesa (nas fotos em baixo, é a do lado direito). Errou. A de boa qualidade era portuguesa.

Se virmos atentamente as duas imagens, reparamos no pormenor das curvas, e em alguns detalhes que exigem mais nobreza no ponto, e percebemos que a da direita é, de facto, mais apurada. Bastará olhar para os vértices das patas de cada galo, ou nos raios do sol que é tecido na parte de cima.

Foi a viragem para o mercado global que Guy Fino tanto queria. Lurçat foi só o primeiro de muitos a ver as suas obras tecidas em Portalegre, considerando a tapeçaria desta cidade a melhor do mundo.

Um blind test que fez a Tapeçaria de Portalegre virar internacional

O Museu Guy Fino

Sou sensível às pessoas que vêem em muitos museus um sinal de tempo perdido – porque muitos, verdade seja dita, o são também para mim. Contudo, o Museu da Tapeçaria Guy Fino está longe de ser um teste a nós próprios. Vemo-lo desprendidos de pretensões, e mesmo um leigo em relação a estes assuntos verá o seu bilhete recompensado.

Ao longo de algumas salas do Palácio Castelo Branco, de fachada barroca, poderemos ver a magnitude e, sobretudo, o minucioso detalhe da arte tapeceira de Portalegre. O museu divide-se em duas partes, separadas por andares: no de baixo, a história das tapeçarias e o seu conceito técnico, no de cima, as obras.

E dessas últimas há destaque para algumas. A “Passagem no Espaço”, intrigante no seu futurismo, ainda mais tratando-se de obra dos anos sessenta. “Lisboa”, de Carlos Botelho, onde a capital é bem resumida num jogo angular. E deixando a minha favorita para o fim, a “Bela Aurora” (foto em baixo), de Júlio Pomar, pintada em cartão em 1949 e transposta para a tapeçaria em 1983.

De qualquer forma, há muitas outras peças espalhadas pelo país e que foram aqui fabricadas. De Almada Negreiros à mais recente Joana Vasconcelos. Mas para isso é importante vir aqui conhecer a arte. Depois disso identificamos uma Tapeçaria de Portalegre em qualquer lado.

Uma das obras maiores da tapeçaria portalegrense

Onde ficar

Já que estamos numa de arte, sugira-se o Hotel José Régio (foto em baixo), situa-se no centro de Portalegre. É um exemplo de modernismo, estendido à estrutura dos quartos, com todo o equipamento necessário, sem ter de se pagar um valor absurdo por isso.

Tem 4 Estrelas. Daqui até ao Museu da Tapeçaria Guy Fino é só seguir a Rua 5 de Outubro – a pé, não demorará mais de cinco minutos.

Hotel José Régio

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.292383 ; lon=-7.432980

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.