Moliceiro

Ícone de Aveiro e da famosa ria que lhe entra terra adentro – do seu extremo norte, em Ovar, ao seu ponto mais a sul, em Mira -, o moliceiro é um dos barcos mais peculiares de Portugal. O seu nome revela a sua função primórdia: usavam-no na recolha e transporte do moliço, isto é, da vegetação dos rios, como algas e limos, utilizado posteriormente como fertilizante natural da terra nas actividades agrícolas. Os tempos modernos chegaram e a agricultura passou a contar com adubagem química, ficando o moliço relegado para segunda categoria e, consequentemente, empurrando o barco moliceiro para o desuso por deixar de fazer parte de uma actividade lucrativa. Tal como aconteceu com o rabelo no Douro, o moliceiro, enquanto barco de bela aparência, e estando fora da realidade actual a função laboral que está na sua origem, virou-se para o turismo, como o atesta a regata feita anualmente, entre a Murtosa e Aveiro.

E agora indo àquilo que é mais memorizável nesta barca: as pontas, seja a proa, seja a ré. Acabam ambas com uma curvatura empinada chamada de bica – a proa mais que a ré -, mas o que as torna verdadeiramente diferentes é a decoração nas suas faces exteriores, e de ambos os bordos. De cores vivas e quentes, guardam-se os melhores painéis para a proa, onde o espaço é mais amplo e menos escondido pela água, arranjando-se até uns centímetros para se escrever um chavão associado à ilustração. Aqui, na frente, desenha-se alguma coisa que reflicta o proprietário do barco e do qual este se orgulhe. Em muitos casos, estas autênticas e literais figuras de proa têm motivos eróticos, quando não nitidamente grosseiros. Noutros, mais púdicos, saúdam-se símbolos nacionais e religiosos. Para a ré é guardado um desenho menor, muitas vezes reproduzindo o trabalho da faina ou do campo. Em qualquer caso, os floreados surgem quase sempre a emoldurar a ilustração principal.

O moliceiro é construído de acordo com a sua circunstância geológica, isto é, o seu desenho foi feito em função do feitio da ria e dos seus canais. É nesse contexto que percebemos o seu fundo achatado e o facto do espaço que ocupa dentro de água ser mínimo, de forma a facilitar a sua circulação por ruelas de água que, em muitos casos, são muito pouco profundas, quando não surpreendidas por bancos de areia submersos. As faces laterais do moliceiro são baixas, muito mais baixas do que as de um barco convencional, de forma a facilitar a captura dos limos. A deslocação é, normalmente, feita à vara ou à vela, embora também possa ser feita à sirga, nos momentos em que assim se exige, e cujo processo consiste no puxar do moliceiro usando cordas, encontrando-se o pescador na parte exterior da embarcação. A vela, sempre que possível, é a escolha número um, pela facilidade e velocidade que dá. A vara é solução quando a vela deixa de o ser, o que acontece quando o vento é inexistente ou vem do lado contrário. A sirga é hipótese de recurso, usada apenas nas alturas em que os estreitos canais não deixam que a vela ou a vara sejam utilizadas. A tripulação, na altura em que o moliceiro se apelidava de barco de trabalho, era mínima: duas pessoas, usualmente uma bem mais velha que a outra. Dependendo do dia, poderiam estar os dois tripulantes no trabalho de recolha, caso o vento fizesse o trabalho de deslocação por eles. Sem vento, teria um de estar à vara, e o outro na recolha, obviamente trazendo um retorno monetário menor neste tipo de rondas.

É verdade, infelizmente, que já não os vemos a carregar moliço. É também verdade que o próprio moliço, pela poluição e pelas alterações a que a ria foi sujeita com a construção de bases portuárias, já mal se consegue ver. Mas enquanto pudermos ter um moliceiro dentro de água, tão elegante que parece que flutuar acima dela, Aveiro há de valer sempre a pena.

Comentários

(295 Posts)

Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.