Moiras Encantadas – Parte 1

O nome moira é enganador porque uma moira encantada não é uma moura no sentido histórico que recriamos na cabeça. Estamos no campo místico e, como tal, há dezenas de teorias que podemos atirar, não estando nenhuma delas exactamente correcta, porque não existe tal coisa como certo ou errado na imaginação humana. Verdade é que as moiras encantadas são um ser quase exclusivo de Portugal, e dizemos quase porque na Galiza também fazem parte do saber popular. A sua origem, muito provavelmente, reside nas tribos indo-europeias, tendo sido fundidas posteriormente com o contexto cultural de várias épocas pelas quais este território ibérico passou. Mas parece existir uma afinidade entre as nossas moiras encantadas e outros seres místicos europeus, sempre femininos, sempre associados à água (tal como as Tágides que Camões lembrou, embora estas últimas se concentrem na zona da foz do Tejo), habitualmente encantadores e por vezes vingativos.

Hoje em dia, contam-se lendas que andam quase sempre à volta do mesmo: reis mouros que partiram, em fuga das espadas cristãs, e que cá deixaram filhas e sobrinhas. Estas, sozinhas, refugiaram-se em pontos inóspitos, quase sempre marcados por correntes de água, como grutas, fontes, ribeiros, lagos, poços, aguardando por alguém que as socorresse e acudisse os seus cantos hipnóticos. É também comum ouvirmos contar que estas fadas guardam tesouros deixados pelos sarracenos. Esta versão actual das moiras deve, contudo, ser vista com um certo distanciamento, dado tratar-se de um possível novo verniz atribuído a seres místicos mais antigos, divindades pagãs que sobreviveram à cristianização. Podemos, com efeito, falar de seres milenares, de raiz indo-europeia, que se foram adaptando às novas realidades históricas. Como forma de o provar, podemos expôr, logo à cabeça, os elos de ligação das moiras com as fadas celtas do folclore irlandês, que existem, sobretudo no lendário popular. Na verdade, é até mais frequente ouvirmos falar delas no norte do país (onde a cultura árabe praticamente não teve tempo de se difundir) do que no sul, o que vem igualmente comprovar que o ano zero destas fadas portuguesas pode estar bem para lá do período em que os mouros invadiram a península. Outro detalhe que contraria a sua origem árabe reside na cor dos seus cabelos que, na sua maioria das vezes, é relatado pelo povo como louro, tão louro que parece ouro, contrastando com os cabelos negros das árabes verdadeiramente ditas. Adiante-se também que a própria palavra moira é apresentada por alguns estudiosos como derivada do celta e não do latim, tratando-se de uma transformação do termo original marwo, estando desta forma conectada directamente com a espiritualidade céltica. Podemos estar assim perante uma entidade que vai bem além da nacionalidade, e talvez seja preciso recuarmos até ao pensar das tribos lusitanas e galaicas, ou até antes dessas, para encontrarmos a semente de tudo isto.

São tidas como guardiãs dos mundos subterrâneos, sendo frequente estarem ligadas a superstições relacionadas com o interior da terra, as entranhas do solo, e de onde saem raras vezes, mas em datas simbólicas, como o são as de solstício – a noite de São João é alimentada por dezenas de lendas de moiras. É normal, portanto, que alguns investigadores as ponham como representações da terra-mãe, divindades indígenas que marcam os ciclos da terra onde se escondem. Têm, por vezes, uma face maligna, amaldiçoando quem as tenta desencantar ou quem sucumbe aos seus cantos. Na imaginação popular, o acto mais marcante da moira encantada é o da fiação, ligado à roca, objecto que está intimamente ligado ao destino. A fiação simboliza, portanto, o escrever do destino (o seu, o da terra, e talvez o daqueles que se deixam encantar por ela). Um outro, de forte poder de sedução, é o pentear do seu cabelo longo e dourado, armadilha fácil para o homem desprevenido. E há mais: dádivas que se transformam em ouro, vindas de objectos como o pente, ou de frutos como o figo.

As moiras encantadas são tão parte de Portugal que não as conseguimos figurar em nenhum concelho, ou distrito, ou província. Já aqui falámos da moira que se esconde no Castelo de Paderne, no Algarve, e de uma outra que pede a cristãos que a desencantem debaixo de um dos arcos da Ponte de Trajano, em Chaves, ou de lendas que falam delas em redor do Castelo do Magriço, na Beira Alta. São apenas três exemplos de um lote de milhares.

Na segunda parte deste tema, escrita pelo Carlos Carneiro, será abordado o paralelismo das moiras encantadas com outras fadas do folclore europeu.

Comentários

(274 Posts)

Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.

2 comentários sobre “Moiras Encantadas – Parte 1

  1. Eddasimples

    Ricardo, um obrigado por este texto e pela exposição da nossa cultura mais profunda. se me permite, as moiras e a sua descrição lembram-me as Norns dos Escandinavos, também elas associadas ao destino.Haverá alguma correlação ou povos distintos a “explicar” os mesmos fenómenos?

  2. Ricardo Braz Frade Post author

    Cara Edda,

    Muito obrigado pelo seu comentário. Essa relação parece-me evidente, ao ponto de a considerar umbilicar – não só com as Norns escandinavas como com outras divindades eslavas ou, de forma mais óbvia, com as nereides da mitologia clássica. Isso apenas reforça a ideia de estarmos a falar de um passado comum – neste caso, indo-europeu, que, salvo raras excepções, engloba praticamente todo o território europeu e ainda algum que vai para lá dele – e cujas diferentes culturas resolveram reflectir em formas divinas diferentes. A segunda parte deste tema, que não será escrita por mim mas pelo Carlos, abordará o paralelismo das nossas Moiras com outras fadas do folclore europeu – o texto não será meu, como tal não lhe posso adiantar muito mais sobre isso.

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