Moiras Encantadas – Parte 2

Tal é a proeminência das moiras encantadas como seres mitológicos particularmente característicos do folclore de Portugal e da Galiza, que merecem uma segunda parte, e ainda assim pouco é para explorar toda a significância que estas fadas do oeste ibérico contêm. As moiras são seres elusivos, que como já se referiu na primeira parte, aparecem frequentemente perto de rios, lagos, fontes e poços, zonas onde reina o burburinho da passagem das águas, que num contexto rural de proximidade à natureza soam como murmúrios de criaturas escondidas e mágicas. Mas estes não são os únicos habitats das moiras encantadas, estas também têm aparições junto de antigos monumentos megalíticos, castros, montes e castelos. No entanto, seja qual for o local de aparição, e apesar da diversidade de diferentes relatos, as lendas em torno das moiras encantadas têm frequentemente padrões semelhantes. Certos elementos têm a tendência a repetirem-se: uma bela mulher, de cabelos louros, é encontrada nas imediações de um local como os que foram mencionados, a fiar ouro, a pentear-se com um pente de ouro, ou simplesmente à espera no local. Quando alguém dá de caras com a moira, em geral há uma troca de promessas e a oferenda de um objecto de ouro, como o mencionado pente, um figo, ou um cordel. As promessas consistem então na oferenda de mais ouro, de tesouros, e de bezerros em ouro maciço, se a pessoa cumprir certos requisitos de forma a desencantar a moira, requisitos esses que em geral a pessoa falha em cumprir levando à transformação do ouro oferecido em chumbo ou outra forma de material sem valor. Os requisitos variam: a moira pede frequentemente segredo, a oferenda de leite, a negação da religião cristã, ou, transformando-se numa serpente, pede que o acordo seja selado com um beijo da serpente no céu-da-boca da pessoa. É ainda pertinente referir, que as versões que incluem a transformação numa serpente remetem-nos para uma possível reminiscência de um antigo culto às serpentes que terá existido em território luso, levando os gregos na antiguidade a chamarem ao nosso território de Ofiussa (terra das serpentes), e do qual é prova a proliferação de petróglifos de forma serpenteante no norte do país.

Naturalmente, a primeira pergunta que estas lendas suscitam, é qual a relação com os mouros históricos, principalmente porque as moiras em geral não são caracterizadas de todo como tendo uma aparência árabe ou berbere. Em geral, as lendas estão também associadas a histórias de origem destas moiras, que em geral envolvem ou um caso amoroso trágico entre a moira e um cristão, que levou a que esta ficasse encantada e amaldiçoada pela sua família, ou que mouros com poderes mágicos, durante a reconquista e a subsequente fuga, deixaram para trás tesouros, e encantaram filhas e raparigas mouras para ficarem eternamente a proteger tais tesouros, algo certamente fomentado por descrições no Livro de São Cipriano de tesouros escondidos dos mouros em terras lusas e galegas. Isto no entanto, não explica o estranho desfasamento entre a aparência das moiras encantadas e os mouros históricos. Alexandre Parafita, investigador que estudou em detalhe as lendas de moiras encantadas, especialmente a norte do país, divide a questão dos mouros entre mouros históricos e mouros míticos, e de facto parecem ser duas componentes interligadas mas que são distintas na sua origem.

Tal como foi referido na primeira parte, as moiras encantadas parecem ser uma derivação de antigas divindades pagãs, possivelmente relacionadas com a água, mas não só, visto o seu habitat também corresponder a outras especificidades da paisagem, como montes e locais misteriosos relacionados com o passado como antas, menires ou castros. Temos de pensar que as populações rurais mantêm uma tradição contínua, que é modelada consoante o passar dos tempos, mas que preserva certos elementos, nomeadamente aqueles mais associados à paisagem em seu redor, que pouco muda no interior do país, e que assim sendo vai mantendo acesa a imaginação humana em torno dos mistérios que a paisagem encerra. Assim sendo, antigas crenças pagãs de divindades da natureza, dos rios, dos montes, das fontes, dos antigos templos megalíticos, ganham uma nova roupagem lendária mas mantêm-se vivas. Os seres mitológicos como a moira encantada, são a representação desse mistério oculto que a paisagem parece esconder, dai que sejam muitas vezes consideradas seres do “outro lado”, criaturas subterrâneas que se escondem num mundo debaixo dos rios, dentro dos montes, em portais encerrados nas antas, e nos locais do passado como os castros.

Considerarmos assim, que as moiras encantadas são as “fadas” portuguesas e galegas, não é coincidência. As fadas irlandesas, habitantes dos sidh (montes na paisagem irlandesa que se pensa esconderem portais para um outro mundo mágico) comportam-se de forma semelhante às moiras, aparecem aos humanos em circunstâncias particulares, perto também de lagos, montes, monumentos megalíticos, e frequentemente também desejam trocas com os humanos, ou trazem oferendas do outro mundo. Ao contrário da tradição lusa, no entanto, os irlandeses registaram por escrito as tradições pagãs quando o cristianismo trouxe a literacia consigo, ainda que transformadas devido à hegemonia cristã. Graças a esse registo escrito, conseguimos traçar a origem das fadas irlandesas a antigas divindades celtas, os Tuatha Dé Danann, que se esconderam através de portais em montes e lagos que davam para um Outro Mundo mágico. De forma semelhante às nossas moiras, muitas histórias destas divindades descrevem um Outro Mundo paradisíaco do qual uma prova vem parar ao mundo real na forma de ouro, como um ramo de ouro na história irlandesa Immram Bran, e envolvem frequentemente uma bela mulher desse outro mundo, que pretende alguma forma de apoio ou acordo com um mortal.

A colocarmos a hipótese de as moiras encantadas serem oriundas de um desenvolvimento semelhante, mantém-se a questão do porquê da associação aos mouros. Para respondermos a essa questão, temos de tentar transpor a nossa configuração mental para as populações rurais no nosso país, que durante séculos foram iletradas e que não tinham as mesmas noções de historiografia que temos hoje em dia, tendo apenas a tradição oral e a força da imaginação que era fomentada por antigas lendas e crenças. Da história, este povo rural rodeado por uma paisagem misteriosa e diversificada, apenas tinha a visão difusa dos acontecimentos através das lentes destas tradições populares. Assim sendo, num país que foi assolado por invasões na antiguidade, das quais as últimas foram os mouros já no primeiro milénio depois de Cristo, a tradição oral associou antigas lendas e crenças a estes mouros, visto serem os “outros”, e como forma de explicação para crenças ancestrais, dando-lhe uma explicação “histórica” que de história apenas tinha uma visão mítica. É devido a isso que abundam lendas sobre mouros gigantes construtores de monumentos megalíticos, que castros são associados aos mouros, e que há a tendência na tradição oral a associar aos mouros todos os vestígios de civilizações ancestrais que de mouro nada tinham. E é também devido a este factor, que possivelmente antigas divindades pagãs passaram a ser “moiras encantadas”.

Ilustração de Fernanda Frazão – Lendas Portuguesas

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.

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