Magusto da Velha

Um magusto que não é no magusto acontece anualmente em Aldeia Viçosa, na Beira Alta.

Em Aldeia Viçosa, no dia 26 de Dezembro, não sabemos se chove água, mas há uma certeza: chovem castanhas.

Uma renda perpétua de castanhas e vinho

Há muito tempo atrás uma velha senhora muito rica quis deixar uma renda perpétua à Junta de Freguesia. Serviria a maquia para oferecer aos pobres uma boa dose de castanhas e de vinho.

Assim fez, não sem antes pedir uma contrapartida: como pagamento, toda a gente deveria rezar, por altura do Natal, um Pai Nosso à alma da Velha – termo algo depreciativo que foi ficando por desconhecimento do nome próprio da senhora.

A anuidade continua a ser paga, apesar de agora, por culpa dessa castradora de valor chamada inflação, não passe de cêntimos. Anualmente a tradição cumpre-se mesmo assim – a Junta de Freguesia chegou-se à frente e fica agora encarregue dos custos -, e apesar de já estarmos para lá de Novembro, o facto de estarmos perante uma chuva de castanhas faz com que estiquemos o conceito de magusto até ao Natal, ficando conhecido por Magusto da Velha.

Tudo isto podia vir de uma página do lendário tradicional português. Aparentemente, existe mesmo um certificado com a confirmação de uma renda perpétua, indicando que a dita Velha existiu mesmo, por muito estranho que seja desconhecer-se por completo o seu nome.

Não deixa de ser curioso que velha entende-se, na linguagem popular dos símbolos, como Inverno. Ainda hoje, à semelhança das Queimas dos Judas, se pratica um costume em tudo similar: a Serração da Velha, que é feito por altura do Carnaval e significa, precisamente, o fim do Inverno. Aplicando este simbólico sinónimo ao Magusto da Velha, teríamos Magusto do Inverno, ou seja, um magusto tardio, pós outonal.

O Magusto de Aldeia Viçosa

No dia seguinte ao Natal, o povo dirige-se em cavaqueira até ao largo da igreja.

Já todos sabem ao que vão. Aproveitando as cinzas ainda quentes do Madeiro feito no dia anterior, assam-se castanhas e prepara-se a entrega.

De lá de cima da torre, alguns locais preparam-se para lançar castanhas (normalmente, num total de 150 quilos) até aos comparsas lá de baixo. A tradição encontra algum paralelismo nas Festas de São Gonçalinho, em Aveiro, embora aí ocorra uma precipitação de pão, e não de castanhas. O vinho também é gentilmente oferecido pelos responsáveis da Junta de Freguesia.

Contam-se as histórias dos Natais passados, quando outra gente por lá fazia o mesmo. E assim se vai uma tarde, no caso uma das mais famosas tardes beirãs.

As cavaladas

As cavaladas, como as chamam localmente, são uma espécie de cavalitas, um gesto típico e abrutalhado engendrado pelos rapazes de Aldeia Viçosa.

À medida que as castanhas começam a saltar da torre da igreja até ao adro, algumas começam a cair no chão. Ora, são castanhas, e o chão não é impedimento à refeição. Pois então, quando cada homem se baixa para apanhar as castanhas, e um outro salta para as suas costas desafiando-o a aguentar-se em pé, chama-se a isso uma cavalada.

Tradições recentes, ao que parece, mas que poderiam vir dos milenares Caretos transmontanos, que por esta mesma altura espalham diabruras.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.57892 ; lon=-7.31769

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.