Lobo Ibérico

É mais fácil darmos por um lobo ibérico (canis lupus signatus) em território espanhol do que português, mas ele ainda resiste, com dificuldade, por cá, nomeadamente em terras galaicas, ou seja, nas proximidades do Rio Douro e nas serranias acima deste, embora há cerca de um século atrás o pudéssemos encontrar em quase qualquer parte menos urbanizada em Portugal.

De todos os lobos, o ibérico é aquele que apresenta menores dimensões. Tem uma cor que se mistura com a cor da vegetação serrana mais a norte, de pelo acastanhado ou acinzentado, aclarando à medida que chegamos ao focinho – a própria pelugem sofre uma ligeira transformação do verão para o inverno, tornando-se genericamente mais escura. Na verdade, para quem não vive nestas regiões, será difícil notar a diferença entre o lobo ibérico e determinadas raças de cães, dado o elevado grau de parecença entre ambos, sendo a diferença menos visível do que perceptível: o carácter indomável dos primeiros face ao feitio mais domesticável dos segundos.

O lobo ibérico foi, ao longo da história, e com o empurrão da igreja, associado ao lado maligno da religião, sendo várias vezes representado como figura do diabo. Esta manifestação demonizada desta espécie ibérica, que de resto sempre teve medo do homem e nunca mostrou vontade de se aproximar dele, mostra-nos uma bem sucedida tentativa do poder católico em afastar qualquer resquício pagão na religiosidade portuguesa e espanhola, que, como é de conhecimento público, sempre gostou de divinizar os animais, ou de fazer destes um elo de ligação a Divindades maiores. Juntando a isto toda a questão das economias locais, que vivem dos seus rebanhos e que vêem estes diminuídos por causa dos ataques deste mamífero, fazendo com que vários pastores optem por os abater para defesa do seu jantar, percebemos a razão que leva a que seja hoje um animal em perigo de extinção, com um território cada vez mais reduzido, e recolhendo-se cada vez mais nas montanhas nortenhas das Astúrias, Leão, Galiza e Norte de Portugal. Isto apesar de alguns esforços políticos para a sua preservação, que incluem a indemnização monetária a pastores que tenham sido prejudicados por investidas vindas de alcateias, desde que sejam cumpridas as normas: um pastor e um cão por cada cinquenta cabeças de gado. É, no entanto, verosímil que alguns destes homens prefiram não entrar em burocracias e resolvam tratar do assunto in situ, espingardeando sobre o canídeo assim que têm a oportunidade.

Foi recentemente comentada uma eventual alteração à lei actual, pondo-se a hipótese de, no seguimento de um pedido do Governo de Espanha às autoridades europeias, e caso se verifique que o número de exemplares tenha aumentado consideravelmente, se voltar a colocar o lobo ibérico como alvo de caça, mesmo que limitada. A razão, segundo fonte governamental, é que o número de lobos cresceu e as indemnizações aos pastores por perda de gado também, e a caça funcionaria assim como uma espécie de balança do sistema. A Quercus, por seu lado, defende que a estratégia deverá passar por aumentar a vigilância ao gado de modo a minorizar os ataques deste animal.

Quem disse tudo sobre este assunto foi o jornalista Ricardo J. Rodrigues, no seu recomendadíssimo livro-reportagem “Malditos – Histórias de homens e de lobos”: Aqui há lobos que sobrevivem contra todas as probabilidades, que encontram caminhos para perpetuar a espécie, que caçam como não devem e são caçados como não podem. Nem mais, nem menos.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.