Lobisomem

O lobisomem é um lugar comum no que toca ao lendário português. Na verdade, alargando o espectro, é um lugar comum no lendário mundial, mas será mais frequente ouvirmos falar dele nos países europeus e nos sul americanos.

Bastará olhar para alguns nomes atribuídos a lugares de Portugal. Em Cambra de Baixo apelidaram uma caverna de Cova do Lobisomem. Em Tabuaço, perto de Pinhão, chamaram Fraga de Lebisomem a uma assustadora cavidade que os aldeões tinham medo de visitar. Em Caminha, temos um lobisomen com direito a código postal: a Rua do Lobisomen (na imagem). Exemplos destes, há muitos, a comprovar que este ser fantástico está tão presente na cultura popular que o mapearam em nomenclaturas geográficas.

Em Caminha, a Rua do Lobisomen testemunha uma antiga lendaA sua origem é difícil de calcular. Já gregos e romanos falavam de uma criatura maléfica e híbrida, meia humana, meia loba, que atormentava povoações. A própria literatura mencionou-o em vários períodos da história. E mesmo a Igreja aproveitou-o para apresentar ao povo o outro lado, diabólico, contra o qual pregavam.

Uma das características do lobisomem, e neste caso, do lobisomem português (ou seja, na forma como é cá interpretado), é o facto de nem sempre ter de assumir a pele de um lobo. Além desse animal, de resto óbvio, as populações relatam lendas de criaturas que são metade homem e metade cavalo, ou mesmo metade homem e metade burro, e tratam tais seres com o mesmo nome: lobisomem. Haverá mais exemplos de fauna portuguesa carimbada desta forma: homem-bode e homem-cão e homem-porco, por exemplo, também assentam no mesmo termo. O que leva a concluir que, para as zonas mais rurais do país, um lobisomem é um homem que sofre uma mutação para um outro animal, normalmente um que esteja presente na vida de campo de quem, com pavor, dá páginas a estas lendas de Portugal.

Habitualmente o lobisomem existe enquanto maldição, divina ou não. Um fadário que pode ter vindo como castigo por algo que a ordem popular (ou, por vezes, a ordem clerical) vê com maus olhos. A sua transformação de homem para homem-animal dá-se em determinados períodos do dia, mormente durante a sua parte escura, sendo a meia-noite uma referência enquanto fase de transição, de tempo de ninguém. E o dia da semana mais sublinhado é a Terça-Feira e a Sexta-Feira, igualmente ligados a diversas superstições – por cá, o exemplo óbvio é ver como o Barroso celebra a sua Sexta-Feira 13.

Outro sinal mágico é a recorrência com que o número sete é encontrado nestes testemunhos do povo. Muitos contam que um lobisomem nasce quando, depois de sete filhas, aparece um oitavo que é homem. Outra versão é a de se soltar uma maldição sobre o sétimo filho, quando todos eles são do mesmo sexo. Versa-se igualmente sobre as sete encruzilhadas ou os sete montes ou as sete pontes ou as sete fontes que têm de percorrer – a encruzilhada exige especial atenção pelo simbolismo que tem, num cruzamento de caminhos que se encontra à entrada das aldeolas, um ponto que converge e diverge, sempre sacralizado pelo saber popular, sempre beatificado com cruzes pela igreja.

É frequente terem pavor à luz, e escolherem travessas e ruelas escuras durante a noite. Se alguma casa tiver luzes acesas, arrombam-na. E aos lampiões que encontram no caminho, apagam-nos com as rajadas dos seus sopros e assobios.

Crê-se que muitos moram em covas e cavernas onde poucos ousam entrar, nem sequer com as costas quentes do dia. Alguns relatos, metem-nos como cidadãos comuns, que estão condenados a correr o seu fado quando as horas e a lua os obrigam a isso, voltando à sua forma e vida humana com o regresso da luz, pela manhã.

Curiosa é a benevolência com que são tratados no lendário português. Quase nunca a lenda acaba com a sua morte. Nestas histórias contadas de geração em geração, a haver um final mais convencional, esse é o da quebra da maldição: por algum gesto contra o lobisomem que o faça sangrar, ou por uma determinada bênção católica, ou por qualquer outro acto que implique reversibilidade. Picá-lo, mesmo que só com uma agulha, por vezes, chega. Rezar também. Em alguns casos, menciona-se o vestir-lhe roupa do avesso, e acrescenta-se que dessa forma ele volta à forma humana.

De notar, também, que há um ou outro caso em que o lobisomem é personagem de uma história de amor. É o caso da lenda do Pulo do Lobo, no Baixo-Alentejo, que, excepcionalmente, termina de forma trágica.

Mas mais que tudo, é interessante ver que os relatos são muitíssimo parecidos de sul a norte, de este a oeste – descontando variações superficiais, porque uma história contada por duas pessoas diferentes nunca sai igual.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.