Língua Mirandesa

O Mirandês é uma língua sob todos os aspectos – é-o institucionalmente, proclamada como tal pela Assembleia Legislativa em 1999, num dia que pôs todo o concelho de Miranda em festa, e é-o no sentido informal, isto é, serve como forma de pôr as gentes do planalto mirandês a comunicar. A nível de léxico e gramatical, não há outra forma de a considerar, tal como fazemos para línguas ibéricas regionais, como o galego, o catalão ou o asturiano. É nesta última que se baseia o mirandês, mesclado com uma outra, dita leonesa e falada no extinto Reino de Leão, obtendo-se daí as famílias linguísticas asturo-leonesas. Neste sentido, distingue-se de outras variantes linguísticas portuguesas, de carácter mais popular, como é o caso do Castrejo ou do Barranquenho.

Em Miranda do Douro, e apesar dos escritos nas placas de informação ainda se escreverem na língua mirandesa, é já difícil encontrarmos alguém que a fale por aqui – trata-se afinal de uma cidade, e assim, para efeitos comerciais, e também enquanto vítima da modernização, a língua mirandesa foi-se substituindo pelo recente português (muito embora os resquícios mirandeses ainda lá se encontrem, basta termos meia dúzia de linhas de diálogo com locais). No entanto, em pequenos pontos em redor do concelho de Miranda e de Vimioso, sobretudo em meios mais rurais, é possível ouvirmos esta língua de um latim arcaico ser passada na intimidade familiar, de pais para filhos.

A razão para que tenhamos esta porção de particular cultura é mais ou menos consensual: por alturas da formação de Portugal, a sudeste de Bragança, um pedaço de terra manteve-se no Reino de Leão, e como tal falante do asturo-leonês, ao invés do galaico-português, falado mais a oeste e descendente da Galiza. Depois, mais tarde, foi a geografia a mandar: o planalto mirandês sofreu sempre de acessos difíceis a quem vem do litoral atlântico e assim a miscigenação mirandesa com o português não aconteceu, ou pelo menos nunca aconteceu ao ponto de destruir os falares locais.

Há, claro, ligações fortes entre o mirandês e o actual português, como o há entre este e qualquer outra língua ibérica, exceptuando a basca, mas também há diferenças bem marcantes, ao ponto de algumas palavras não serem entendidas ao ouvido ou ao olho de um português comum.

Hoje, e depois de alguns anos a perder falantes, a ser alvo de troça, e até mesmo a ser perseguida como foi o caso durante o Estado Novo, o mirandês voltou a ser falado e ensinado nas escolas do planalto e traduzido em várias edições de livros clássicos ou de banda-desenhada, assistindo-se assim a um renascimento de um pilar cultural do nordeste. Contudo, alguns estudiosos, mais pessimistas, não duvidam que a língua se extinguirá em breve, dado o número reduzido de gente que a fala, e no facto dos mais jovens, mesmo que o pratiquem dentro das suas famílias, acabarem por abandonar esta zona e irem fazer vida para as cidades do litoral.

Por curiosidade, podemos aceder a um tradutor português-mirandês aqui.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.