Lenda do Galo de Barcelos

Uma lenda tem de ser vista como tal, o que significa que é tão descabido lê-la num sentido estritamente literal ou histórico, quanto o é tê-la como mera fantasia para contar a crianças. A Lenda do Galo de Barcelos não é excepção, e apesar da sua aparente simplicidade, esconde significados múltiplos.

O galo, mais do que o criminoso absolvido, é a estrela da história que aqui se conta, e não podemos ficar alheios ao simbolismo de tal animal

A Lenda do Galo de Barcelos

Por tempos medievos, aconteceu um crime em Barcelos que muito preocupava os barcelenses, mais ainda por não se saber quem o cometera.

Por azar para o próprio, por lá passava um galego, peregrinando pelo Caminho Português até Santiago de Compostela. Como é evidente, o estranho tornou-se o suspeito número um. Ninguém o conhecia, e era demasiada coincidência o crime acontecer numa altura em que ele ali vagueava.

Ignorando as justificações do peregrino, que dizia estar apenas a percorrer o Caminho como pagamento de uma promessa, foi imediatamente acusado, declarado culpado, e por fim condenado à forca.

No dia do julgamento, o peregrino pediu a presença de um juiz. Apesar da desconfiança, foi-lhe feito o favor. Assim que o teve à distância da voz, disse ao juiz: é tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem. E apontou para um galo assado que estava numa mesa, pronto a ser transformado em refeição. O povo riu perante tamanho absurdo.

No entanto, no momento em que o galego estava a ser enforcado, o galo voltou à vida, cantando alto bem à frente do juiz. Este, que viu na improbabilidade absoluta de tal acto um sinal da inocência do acusado, correu até à forca e percebeu-se que, graças a um nó mal dado, o peregrino sobreviveu.

Foi então libertado, prosseguindo a sua demanda, e cumprindo o Caminho de Santiago. Anos depois, retornou a Barcelos, onde construiu um Cruzeiro, hoje conhecido como Cruzeiro do Senhor do Galo.

Cristo e o Galo, uma aliança antiga

Significado da Lenda do Galo de Barcelos

A lenda de Barcelos, com mais um ponto aqui e menos um ponto ali, dá ares de ser bem linear. Além de sucinta. No limite, à superfície, vislumbramos-lhe apenas uma certa carga moralista: culpar alguém tendo por base a desconfiança, ainda por cima pouco fundamentada, pode levar a situações tremendamente injustas.

Esta interpretação escorreita acontece porque a estamos a olhar exclusivamente no espírito da letra. No entanto, são muitas as lendas que vão mais além quando começamos a desenrolar o novelo. É o caso.

O galo é uma parte fulcral nesta lenda que é, porventura, a mais famosa do país. Animal sagrado, cultuado por praticamente todas as religiões passadas e presentes, é o símbolo máximo do sol. E o sol é, muito provavelmente, o Deus mais antigo ao qual o homem presta vassalagem.

Com efeito, é o galo que canta quando o sol nasce. Dessa maneira, tornou-se o elo do astro na terra, por ser aquele que o anuncia. O galo torna-se assim uma figura celeste, divisa da luz (conhecimento), que chega para pôr fim à escuridão (ignorância). E, pela mesma lógica, é um sinal da regeneração, porque de cada nova noite surge um canto do galo a revelar um novo dia.

Tal como acontece no episódio relatado em Barcelos. O galo aparece para manifestar a verdade, isto é, a dar luz aos barcelenses, que se encontravam envoltos na escuridão, cegando-lhes a razão. O próprio galego parece submeter-se a um rito de regeneração que também conflui com a simbólica do galo. Esteve à beira da morte, de forca atada ao pescoço, e renasceu – o tal homem novo que muitos peregrinos almejam tornar-se ao percorrerem o Caminho de Santiago.

Alguns investigadores sugerem que um busto existente no Museu Arqueológico de Barcelos é uma escultura de Serapis, um Deus que por várias razões, algumas delas políticas, combinava atributos de outros dois: Osiris e Apis. O primeiro deles, Osiris, era identificado como Deus da Ressurreição ou Regeneração. O segundo, Apis, era um Touro Sagrado, filho de Isis, fecundada por um raio de sol. Ora, quer a ressurreição, quer o sol (através do galo), estão representados na Lenda do Galo de Barcelos. A acreditar neste antigo culto barcelense, que de resto não é nada inverosímil por influência romana, poderá a lenda ser uma forma de recontar uma veneração pagã usando ao invés palavras cristãs?

O Cruzeiro do Senhor do Galo

Um objecto misterioso: um cruzeiro que conta a lenda do Galo de Barcelos, canta outros simbolismosO objecto com que, segundo a lenda, o peregrino resolveu agradecer a Santiago e ao galo que lhe salvou a vida veio em forma de cruzeiro.

É um ex-libris da cidade, e pode ser visto por quem quiser.

Trata-se de um monumento bruto, de decalcamento tosco, mas de grande valor espiritual. Numa das faces do cruzeiro, encontramos São Tiago Maior a salvar o galego da forca, levantando-o pelos pés. Em cima, encontram-se o galo e o Cristo crucificado. Cristo e o galo estão muito próximos, o que é interessantíssimo, dado o sincretismo entre ambos.

A religião cristã adoptou o galo dos tempos pagãos (e não está sozinha nisso, a título de exemplo, o islão também o fez) e tornou-o uma espécie de anunciador de Cristo. A razão é evidente. Se o galo, antes, anunciava o nascer do sol, agora passaria a anunciar o nascimento de uma nova luz: Jesus, substituto da antiga Deidade Solar. Daí a missa que se realiza entre o dia 24 e 25 de Dezembro se chamar Missa do Galo. Na verdade, 25 de Dezembro é a data em que o sol renasce no hemisfério norte, quando passado o Solstício de Inverno, os dias se tornam mais longos. Já a data do nascimento de Cristo, nem eu, nem mais ninguém, sabe dizer qual é.

O Galo de Barcelos acabou por ser aproveitado como produto de marketing, marca de um novo Portugal, refundado no Estado Novo e que, em parte, resistiu à revolução

O Galo de Barcelos e o turismo

O Galo de Barcelos é hoje um ícone do país inteiro, e o cidadão comum só o associa à cidade de Barcelos porque o nome não lhe dá grande hipótese.

Há quem defenda até que o Galo de Barcelos é uma propaganda do Estado Novo. Talvez o seja enquanto imagem de marca do país. Sabemos que António Ferro, o exímio e genial propagandista de Salazar, muito fez para tornar símbolos locais em nacionais. Uniformizava assim a imagem de um país que, apesar de pequeno, tinha (e tem) as suas assimetrias culturais, algumas delas marcantes. A dança do vira, por exemplo, rapidamente passou de idiossincrasia minhota a fenómeno nacional assim que o Salazarismo tomou conta do país. Admite-se que o mesmo possa ter acontecido com a massificação do Galo de Barcelos enquanto produto, hoje mais turístico que cultural. Até porque foi na década de 1930 que a produção ganhou visibilidade.

O desenho que lhe reconhecemos hoje – pintalgado, preto, e decorado com corações que lembram os Corações de Viana – vem daí, desse tempo. Entretanto, recentemente, tornou-se tela branca para dele se pintar da cor que se quiser, mantendo apesar de tudo o formato original iniciado no passado século.

Pode valer muito, se vier de bom artesão. Ou quase nada, se for de plástico, enfiado entre centenas de outros numa gift shop da Baixa lisboeta ou portuense. Uma pena, porque tal símbolo não merece esta democratização.

Venha do turismo, do Estado Novo, ou da Idade Média, o Galo de Barcelos é a figura de Portugal

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.