Lenço dos Namorados

A declaração de amor vinda das mulheres do Minho, essas belas Marias da Fonte, é feita com bordados: são as dedicatórias garridas dos Lenços dos Namorados.

Também conhecido por Lenço dos Pedidos, este têxtil de confissões de amor estende-se por vários concelhos do Minho estando hoje intimamente ligado ao concelho de Vila Verde

Origem dos Lenços dos Namorados

A versão que reúne maior consenso defende que os primeiros lenços, inicialmente pontuados a duas cores (preto e encarnado) foram criados por mulheres de classes baixas tentando reproduzir uns outros que eram comuns na fidalguia. Alguns citam o século XVII ou XVIII como o do seu nascimento – no entanto, outros dirão que estes lencinhos, como também são conhecidos, apenas ganharam vida em meados do século XIX, quando, nas zonas rurais, alguns homens na idade do casamento começaram a usá-los como indumentária (provavelmente oferecidos pela sua amada).

Há também uma lenda que se conta acerca de um amor que uma rapariga nutria por um rapaz e que, não havendo passo à frente do lado dele, ela própria resolveu confessar os seus sentimentos em agulha e linha, daí nascendo um namoro de uma vida inteira. Sendo apenas uma lenda, não deixa de fazer alusão à função declarativa dos lenços.

Como com tudo o que é popular, não é fácil atribuir datas de nascimento a certas tradições. Não é sequer certo que os primeiros lenços bordados neste tipo de motivos tenham tido como função principal a declaração de amor por alguém. Esse lado romântico poderá perfeitamente ter chegado depois, como nova utilidade para uma peça de decoro que já existia, e daí massificando por uma questão de procura. As próprias declarações, defendem alguns, não eram necessariamente de paixão – poderiam, por exemplo, ser de mãe para filho.

Com efeito, pode mesmo ter sido esta a ordem de acontecimentos: os primeiros lenços eram parte do traje feminino, foram posteriormente reutilizados como carta de amor, e só depois constituídos indumentária masculina, numa afirmação de amor correspondido (ou seja, a utilização do lenço por parte do homem era um sinal de que o sim tinha sido dado e a relação era já assumida, uma espécie de anel de noivado dos dias de hoje, mas oferecido pela mulher e não pelo homem).

Acrescente-se que, no Minho, há também a Cantarinha dos Namorados, tradicional de Guimarães, e que é, grosso modo, uma correspondência do Lenço dos Namorados em barro.

Contudo, algumas bordadeiras mais velhas já assumiram que nunca fizeram um lenço que fosse para se declararem a um homem. Por que razão os faziam, então? Essencialmente porque aqueles lenços de vermelho e preto começaram a ter gente que os comprasse, dando às minhotas um encaixe extra na sua curta bolsa mensal. Há que não esquecer o lado prático das coisas, e é evidente que o cariz comercial que os lencinhos foram ganhando ultrapassou todo o romantismo que esteve ligado ao seu passado.

Um dos motivos mais característicos dos Lenços dos Namorados: o coração

Evolução do Lenço dos Namorados

O lenço que vemos hoje, tantas vezes repetido nas lojas de souvenirs dos bairros históricos de norte a sul do país, pouco tem a ver com os que foram primeiramente bordados para os homens solteiros do Minho.

Como já mencionado, o produto inicial era composto por duas cores: vermelho e preto (além do branco do próprio linho). Só mais tarde – e muito por fruto do trampolim promocional a que se prestou Vila Verde e o seu município – se juntou a palete cromática que lhe deu aquele tom característico.

Letra infantil e com erros ortográficos: duas imagens de marca dos correntes Lenços dos NamoradosÉ também duvidoso se os primeiros lenços tinham as famosas quadras que hoje lemos – poderiam, contudo, ter uma frase escrita, por vezes orientada em espiral, normalmente com erros ortográficos dada a iliteracia das bordadeiras, e quase sempre com letra que diríamos infantil. Esse analfabetismo deu uma ingenuidade enternecedora aos lenços, o que acabou por fazer com que hoje, mesmo sabendo que as bordadeiras já sabem ler e escrever correctamente, finjam iliteracia e dêem erros ortográficos voluntários porque é essa a imagem que vende.

Também os materiais usados foram cedendo aos tempos. Do inicial ponto de cruz, de alta complexidade, passaram-se a bordados mais simplificados. E o lenço de linho foi substituído, em alguns casos, por um lenço de algodão: qualquer um deles, contudo, serviria de papel para a mensagem de amor que se pretendia dar e para todos os motivos que o ornamentam (dos corações, às chaves, passando pelos passarinhos).

A Adere-Minho, entretanto, e para evitar demasiados desvios ao padrão do Lenço dos Namorados, criou um caderno de especificações onde salienta quais as regras a cumprir para que um lenço leve o seu selo de certificação. Todavia, mesmo a Adere-Minho trata de dar a ressalva que estes lenços de formato aproximadamente quadrado devem ser tudo menos estanques, sublinhando a sua evolução estilística ao longo das últimas décadas.

Lenços do Minho ou lenços de Vila Verde?

É rara a coisa que venha do Minho e não seja uma combustão de cores. Os trajes à vianesa, os sons do cavaquinho na dança do vira, as gigantes procissões às Senhoras das terras que encontram auge na Senhora da Agonia, tudo partilha um gosto pelos tons vibrantes, um pouco como antídoto ao clima local, conhecido pelos habituais dias chuvosos.

É nesta combustão cromática que se encontra, também, o actual Lenço dos Namorados, produto do Minho, hoje estreitamente ligado ao concelho de Vila Verde.

E aqui estala uma certa controvérsia que se tem desenrolado acerca da sua origem.

De facto, sendo a produção de bordados populares tão pouco investigada até ao final do século XIX, é quase impossível saber em que casa foi criado o primeiro lenço. Sabemos, contudo, que eles eram feitos em vários pontos do Minho, sem obedecer a um critério particular, e que não tinham obrigatoriamente de ser um presente de namoro. E por isso podemos falar de um lenço minhoto.

Então por que razão tem Vila Verde mostrado tanto afinco na sua protecção e, de certa forma, em chamar a si a naturalidade dos lencinhos? Porque a estética que reconhecemos nos lenços de hoje (e que alimentou a renomeação dos lencinhos para Lenços dos Namorados) é inspirada nas recolhas feitas em Vila Verde na década de oitenta do passado século – recolha essa feita numa altura em que a produção regional escasseava mas que a vila conseguiu manter -, e cujo município fez questão de promover daí em diante.

Ou seja, tem o Minho mérito na confecção de lenços partilhada em várias terras da sua frondosa província, como tem Vila Verde mérito na propagação dos lenços a um mercado nacional e, até, internacional.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.