Janas

As Janas são fadas comuns a Portugal e a algumas partes de Espanha, como a Galiza e a Cantábria e, sobretudo, as Astúrias, e podem igualmente ser conhecidas como gens ou jãs ou ainda xanas, esta última forma mais recorrente no Principado Astúriano, onde inclusivamente podemos percorrer o desfiladeiro das Xanas, nos infindáveis Picos da Europa. Na Sardenha, são conhecidas como ianas ou gianas. O nome poderá, eventualmente, derivar do latim para Diana, Deusa das Florestas, ou da língua basca, como corruptela de jans, que significa Deusa.

Partilham muitas das características das nossas Moiras Encantadas (que, de moiras, só têm mesmo o nome – como já aqui foi falado em dois textos, o Moiras Encantadas parte I, e o Moiras Encantadas parte II), embora, no caso das Janas, estas estejam mais alocadas aos bosques e florestas ou mesmo às casas situadas em ambientes bucólicos, ao invés dos sítios onde param as moiras, que o imaginário popular remete para as proximidades dos cursos de água – sejam rios, grutas, ribeiras, lagos, poços, e afins. Outra possível diferença que podemos apontar entre ambos estes seres da mitologia portuguesa é o facto de associarmos as Janas mais ao extremo sul do país e às zonas do Ribatejo e Estremadura (à entrada do Parque Natural de Sintra existe uma pequena povoação com o nome Janas, curiosamente uma terra cercada por alta densidade florestal), onde as lendas recorrem amiúde ao seu nome, enquanto as Moiras são enunciadas com maior frequência no centro e no norte.

Com efeito, é na zona sul que se acredita que estas Janas estão ligadas à roca, construída com a madeira sagrada dos carvalhos, e à fiação do linho, arte tantas vezes associada aos antigos Deuses, simbolizando o seu poder em mexer com o destino das pessoas – a tecelagem das Janas significa isso mesmo, o mexer de cordões da vontade dos céus, que vai moldando o fado do povo. Nesse sentido, assemelha-se a uma versão portuguesa da Deusa nórdica Frigg, que acreditavam ter também o poder de tecer as nuvens.

Na zona oeste do Algarve, a crença mandava pôr-se linho e um pedaço de bolo ou de pão ou até uma moeda de ouro (uma oferenda, no fundo) junto à lareira, durante a noite. Elas chegavam e fiavam e cantavam enquanto o escuro durava e no dia seguinte, quando o silêncio finalmente pairava, o linho deixado no borralho transformar-se-ia num perfeito bordado, fino como cabelo, só ao alcance destas Deusas. Mas havia um lado vingativo que convém escrever. Caso não existisse bolo, ou caso este fosse oferecido em doses pouco graciosas, o linho apareceria no dia seguinte, sim, mas queimado e reduzido a cinza.

Ainda hoje, de acordo com algumas recolhas recentes, é possível ver gente mais velha falar em bordados tão perfeitos que só podem ter sido feitos pelas ditas mãos de fada, ou mãos de Janas, que não são mais do que fadas cá do burgo.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.