Igreja de Vilar de Perdizes

Falar da Igreja de Vilar de Perdizes, também conhecida como Igreja de São Miguel, vai para além da típica descrição da arquitectura e história de uma Igreja, apesar da bela arquitectura exterior e refinado interior reluzente, e de a sua história poder remontar a uma altura prévia ao séc. XI. É que esta Igreja, para além da sua associação ao Padre Lourenço Fontes, um dos maiores divulgadores da etnografia e cultura tradicional nortenha, encerra ainda no seu interior segredos relacionados com o passado pré-Cristão português. No balcão superior destinado ao sub-coro da Igreja de Vilar de Perdizes, debaixo de um alçapão subtilmente escondido, encontra-se posicionada na horizontal uma grande estela em pedra representando o que se pensa ser o deus Larouco, que dá o nome à Serra do Larouco e pensa-se ter sido o deus patrono do Altar de Pena Escrita, que se encontra também nas imediações de Vilar de Perdizes.

A figura foi encontrada pelo próprio Padre Fontes, e chamou a atenção de investigadores do lado de cá e de lá da raia que procuram ver o esconderijo do elusivo deus. A estela em relevo esculpido na pedra apresenta uma figura antropomorfa de masculinidade indiscutível, visível por ter um enorme falo e um tronco desproporcional relativamente às pernas, indicando o seu carácter como deus da fertilidade. Numa das suas mãos tem um martelo, possivelmente um indicador que Larouco também seria um deus do trovão ou da metalurgia, um Deo Máximo como indica uma das aras votivas encontradas nas imediações do Altar de Pena Escrita. As suas características levaram-no a ser comparado com outros deuses no mundo celta como o Dagda irlandês e o Sucellus gaulês, ou mesmo com deuses de outros panteões de tradições oriundas da Indo-Europeia, como o Thor germânico. A representação remete ainda para a memória colectiva das populações rurais, para histórias na tradição oral de gigantes que caminhavam pelos montes, munidos de um martelo, e que encontram eco no relevo de Larouco.

Larouco-Vilar de Perdizes

Por ironia, a estela representativa deste deus pagão ancestral encontra-se no covil da sua própria némesis, numa igreja cristã, levando a ponderar o que levou a que aqui se escondesse. Pensa-se que em tempos a estela estaria no seu contexto original e seria visível algures num templo pagão primitivo na zona em redor de Vilar de Perdizes (quiçá na área da própria igreja actual). A imagem de Larouco deverá ter emanado tal poder simbólico, que possivelmente continuou a merecer culto pagão por parte dos povos mesmo após a chegada do cristianismo. Por outro lado, a sua representação portentosa com um falo magnânimo e um martelo na mão deverá ter tido uma forte conotação pagã, que atiçou o temor e superstição do clero católico. Este último, possivelmente influenciado por doutrinas de “educação” das populações rurais e combate ao paganismo como a demonstrada no manuscrito doutrinário De Correctione Rusticorum (séc. VI) de S. Martinho de Dume, terá ocultado a figura, mas não a ousou destruir, tal o respeito que Larouco exercia, e assim se encontra hoje na Igreja de Vilar de Perdizes.

Curiosamente, e talvez também devido a mais uma estratégia do cristianismo para assimilar o paganismo intrínseco às populações rurais de ascendência galaica, Larouco encontra-se ao abrigo de uma igreja abençoada por São Miguel, como o comprova o nome alternativo da igreja e a detalhada estatueta do arcanjo Miguel visível na fachada da igreja. Este ícone do panteão cristão parece desempenhar uma dupla função, por um lado, São Miguel é em muitas vertentes da tradição cristã, quem aprisionou Lúcifer, ou o diabo. A índole pagã de Larouco muito possivelmente poderá ter levado a que este fosse demonizado, uma estratégia da igreja cristã em atribuir aos velhos deuses pagãos a faceta de anjos caídos, de demónios, que se disfarçavam de deuses para enganar os mortais. E claro está, nada melhor do que o arcanjo que encarcerou o diabo para ser o guardião de uma figura como Larouco. Por outro lado, o próprio São Miguel, tal como está representado na estatueta da igreja, faz-nos lembrar o próprio Larouco, é uma figura de espada na mão, em pose triunfante, um Deo Máximo e solar, como Larouco o deverá ter sido antes da chegada da fé cristã.

Todas estas questões parecem vir ao de cima ao nos depararmos com a Igreja de Vilar de Perdizes, um eco dos várias ressonâncias em volta de Larouco que a região em volta parece conter. As terras barrosãs são talvez um depósito de tesouros escondidos do nosso passado galaico-lusitano, e este Larouco oculto, incrivelmente, num alçapão da Igreja de Vilar de Perdizes, é sem dúvida um de tais tesouros.

Coordenadas de GPS: lat=41.854187 ; lon=-7.632022

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.

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