Gigantes

Os Gigantes, enquanto seres mitológicos, ainda sobrevivem no nosso lendário. São várias as influências que eles exercem na nossa tradição oral, e muitas as fontes de onde foram trazidos – embora algumas mais óbvias do que outras.

Arruda dos Vinhos, a Ilha de São Miguel, e a freguesia de Romariz: o que têm em comum? São-lhes atribuídas lendas de Gigantes, tão próximas das mais variadas mitologias europeias.

Gigantes gregos, celtas e nórdicos

Quase todas as culturas contam narrativas onde os Gigantes assumem um papel capital.

Os gregos tinham-nos como filhos da terra ou nascidos da terra – uma curiosa descrição que os aproxima, como iremos ver, de uma certa visão lusa que temos deles. Estes monstros são paridos da Deusa Gaia, a Mãe-Terra, que, tal como os Titãs (também filhos de Gaia mas de uma geração anterior), se opuseram a Zeus. Para os helénicos, derrotar um Gigante obrigaria à comunhão de esforços entre homens e Deuses (a morte de Efialtes foi feita por Apolo, que lhe vazou o olho esquerdo, e Héracles, que fez o mesmo com o olho direito). Ou seja, assume o papel de barreira quem quando derrotada, liga a dimensão espiritual e a terrena.

A mitologia celta, por outro lado, tem um Gigante como mote de um dos seus mais famosos episódios: Balor, que contava com um olho maléfico a meio da testa (e que conseguia imobilizar um exército inteiro) e outro na nuca. Balor vivia atormentado por uma predição – a de que um dia ele seria morto pelo seu neto. A profecia confirmou-se quando Lugh decapitou Balor e a queda do Gigante abriu uma enorme cratera no solo. Diz-se que Balor morreu de olho aberto e que esse espaço foi mais tarde enchido de água transformando-se no lago Loch na Súil.

Já nos territórios nórdicos, os Gigantes, chamados de Jötnar, que viviam em Jötunheimr, terras altas, montanhosas, acima das terras dos homens. Tal como na mitologia grega, aparecem, habitualmente, como inimigos dos Deuses. Antes, eram tidos como os feitores dos Dólmens. Como exemplo, uma das mais famosas lendas suecas coloca os gigantes como a origem de duas ilhas – Gotland e Öland, o que encontra paralelismo numa outra lenda portuguesa, à qual iremos mais tarde. Ainda hoje, o folclore escandinavo retrata os trolls como desproporcionados e temerosos monstros que vivem em cordilheiras geladas, longe das vilas e cidades humanas.

O que tem tudo isto a ver com Portugal? Pode ter tudo, ou pode ter nada. Mas há muitas osmoses por aqui.

Vista do lado Leste, a Cova do Gigante de Arruda dos Vinhos

Lendas de Gigantes em Portugal

Em Portugal, são várias as lendas que aludem a Gigantes. Em quase todas elas conseguimos encontrar paralelo com os Gigantes das culturas supracitadas – celta, nórdica, grega -, outras de relação mais directa, como as bíblicas, ou menos óbvia, como as de inspiração Atlante.

Já aqui se escreveu sobre a Cova do Gigante, um monte em Arruda dos Vinhos (ver foto em cima) que, segundo crença popular, foi criado por um Gigante morto pelos locais, depois de muita devastação fazer por essa zona. Taparam-no com terra e o cerro lá ficou, agora esverdeado pela vegetação.

Nos Açores, São Miguel fez-se, segundo uma lenda, de um enorme Gigante (passe o pleonasmo, que apenas serve para vincar a overdose de tamanho), que viajou da foz do Tejo até ali para morrer abraçado à sua amada, criando as mais distantes zonas de da ilha micaelense.

No Alto Alentejo, a Pedra do Galo foi alvo do lendário português, contando-se que aquela obra só poderia ser arquitectada pelos braços de um Gigante, colocando uma pedra milimetricamente encaixada numa outra, que lhe serve de base. E no Baixo Alentejo há uma pegada em Mértola que uma lenda atribui a um pé de um Gigante que ali passava.

Em jeito de curiosidade, há até uma elevação em Romariz que, acredita-se, resulta da defecação de um Gigante: o Monte Castelhão!

Todos estes casos revelam proximidades com a mitologia grega, celta, ou nórdica.

A Cova do Gigante relaciona os Gigantes com os montes – os tais nascidos da terra gregos -, ao mesmo tempo que expõe a vitória do homem sobre um elemento aparentemente invencível (como acontece com o Balor celta ou com o Golias filisteu, ambos decapitados). A lenda de São Miguel é um reflexo da lenda sueca de Gotland e Öland, onde o Gigante surge como explicação para a existência de ilhas, que, geologicamente, são montes também. As crenças acerca da Pedro do Galo alentejana (que, tudo indica, é um afloramento natural) é papel químico dos Jötnar escandinavos – homens de dimensão supra humana que montam formas rochosas que, antes de as entendermos como Cultura Megalítica, eram alvo das mais fantásticas histórias.

Uma oibra que pode ser vista no Palácio do Buçaco

Adamastor, o Gigante na literatura portuguesa

Obviamente, aparte as lendas faladas no tópico anterior, não poderíamos escrever sobre o mito dos Gigantes em Portugal sem escrever umas linhas sobre o mais evidente de todos: o Adamastor.

O Gigante Adamastor não é uma invenção camoniana porque tem inspiração em modelos helénicos. Mas a descrição que Camões lhe entregou tornou-se tão ímpar que conseguiu arrastar este Gigante do mar para um panteão de novos Deuses deste burgo.

Tal como acontece com o Balor celta, ou o Golias bíblico, entre muitos outros exemplos que se podiam dar, o Adamastor dos Lusíadas representa o maior dos obstáculos para o homem e a sua consequente superação. É a personificação da fúria oceânica, da revolta de um cabo de tormentas, logo depois virado para o seu lado optimista: um cabo de boa esperança. Nisso, a simbologia do Gigante parece ser transversal a todas as línguas: é o obstáculo físico do homem como via para a espiritualização.

Mais tarde, após Camões, foram vários os escritores e poetas que o reescreveram: Bocage, Saramago, e de uma forma mais notória, Fernando Pessoa, com a sua variante do Mostrengo.

Seja em estatuária, em pintura, em literatura, o Adamastor ficou indissociado de uma imagem mitológica do país que procurou o que estava para lá de um horizonte desconhecido.

Fundindo a tradicional azulejaria nacional e a epopeia que nos levou ao Cabo das Tormentas, o painel de azulejos alusivo ao mito do Adamastor que se pode ver no Palácio do Buçaco é, de todas as representações ilustrativas que conheço, a minha favorita (imagem em cima).

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.