Gaita de Fole Mirandesa

Actualmente, contamos com várias bandas que recuperaram a Gaita de Fole Mirandesa para composições próprias ou como meio para revisitar o cancioneiro tradicional mirandês, sendo os Galandum Galundaina o exemplo maior.

A gaita de fole em Portugal e na Europa

Antes de irmos à gaita de fole mirandesa em concreto, podemos começar isto desmistificando, à cabeça, duas noções enganadoras que se tem acerca da gaita-de-fole enquanto instrumento musical: a primeira, dentro do país, que nos tenta convencer que elas apenas existem no norte português – errado; e a segunda, fora do país, que nos impõe este instrumento como exclusivo das ditas nações celtas – errado também.

Começando pela parte nacional, a gaita de fole é típica de várias regiões de Portugal, e sendo certo que o Minho e Trás-os-Montes a têm em muito boa estima, é também costume ser usada em romarias e outras rambóias profanas mais meridionais, na Beira Litoral (Coimbra em destaque) e na Estremadura e seus círios (mormente na zona de Torres Vedras). Ou seja, apenas o território que vai além Tejo, está já um pouco fora do seu uso mais comum, embora também se possam encontrar por lá, sobretudo no distrito de Setúbal.

Já em relação à sua conivência com a cultura celta, nada aponta para aí, já que os primeiros registos do seu uso não se encontram em qualquer país cuja manifestação celta (que já tem a sua subjectividade) seja conhecida. É certo que podemos encontrar muitas gaitas em países como a Irlanda, ou a Escócia, ou a Bretanha Francesa. Mas é igualmente certo, e até com durabilidade histórica maior, que as podemos ouvir no mediterrâneo, seja ele o mediterrâneo europeu, seja o norte-africano.

A gaita de fole transmontana

Agora falando da gaita de fole mirandesa em particular (ainda há quem a trate por gaita transmontana, e de forma muito mais genérica e enganadora, como gaita de fole portuguesa): esta, sim, é do norte, mais especificamente do nordeste, do chamado Planalto Mirandês, mãe da língua com o mesmo nome. Caiu em desuso mas vive agora novo fulgor. Está tão vibrante na zona oriental de Trás-os-Montes, que já tive um gaiteiro amigo de Mogadouro dizer-me que hoje, se pontear-mos uma pedra por aqueles lados, salta um novo gaiteiro de lá. Os mirandeses já não me conseguem perdoar o ter escrito Mogadouro num texto sobre gaita mirandesa, mas eu escrevo o que vejo, e o que vejo é ela a ser tocada (e muito bem tocada, diga-se) por essas paragens também.

Chamam-lhe, com ternura, a desafinada força da natureza. Prende-se a isso o facto de ter um som que, para o ouvido mais confortável, parece pouco harmonioso, sem afinação, estridente e pujante. O que posso confirmar é que a gaita mirandesa não é para todos. Não tem o apuramento melódico da gaita de fole galega, por exemplo, que é mais aprimorada estética e sonoramente, e que conseguimos ouvir mais frequentemente na província do Minho. À transmontana, falta-lhe esse veludo que escutamos na Galiza ou na Irlanda ou na Escócia. Mas aqui segue o que mais importa: a mirandesa é uma gaita representativa da região que a fez – é agreste, fria, bruta, rudimentar, popular, épica, guerreira, agressiva e indomável.

É composta por um fole, um ponteiro, e um ronco. O que é mais proeminente é mesmo o fole, de cabrito, que é maior do que as gaitas vizinhas, portuguesas ou espanholas. Com afinação em Si Bemol, ou por vezes, mais raramente, em Si ou Lá, tem um timbre muito semelhante a outras encontradas do outro lado da fronteira, na província leonesa, de resto com traços culturais muito próximos da cultura das terras de Miranda.

No Planalto Mirandês, conseguimos vê-las com bastante regularidade nos meses em que as festas saem à rua. Acompanham bailes com carvalhesas e murinheiras, e musicam os passos misteriosos dos icónicos Pauliteiros de Miranda. E há ainda o festival itinerante L Burro i L Gueiteiro que tem o som da mirandesa como banda sonora para uma causa maior: a defesa do burro mirandês.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.