Forcados

Mesmo que não exactamente com este nome, a origem dos grupos de forcados remonta a um tempo muito mais antigo do que aquele em que foram oficializados, quando no reinado de reinado de D. Maria II surgiu o decreto que punha os rapazes que empunhavam um pau com três dentes na ponta a pegar os toiros sem recurso a nada mais do que o seu próprio porte.

Para pegarmos numa primeira origem, menos distante, teremos de ir até ao século XV, altura em que existiam os gaiatos que entregavam as armas para a lide aos cavaleiros – coisa que ainda hoje existe -, e que, para se defenderem do toiro, usavam hastes pontiagudas. Problema: estas hastes, que eram no fundo lanças, acabavam por abater o toiro aos poucos, acção que deveria estar a cargo da lide e não destes actores secundários que deveriam apenas servir de apoio. Aquando das toiradas reais, isto é, aquelas em que rei e corte estavam presentes, tudo se agravava mais: os galfarros das lanças eram substituídos por alabardeiros da confiança do reino numa de protegerem a família real do palanque que separava o toiro do monarca, sendo que as alabardas usadas para isso traziam efeitos ainda mais devastadores para o toiro. Seria então necessária uma outra via, uma que mantivesse a aristocracia salva de perigo mas não ameaçando o espectáculo. Apareceram assim os monteiros das chocas, homens habituados a treinar as investidas dos animais antes destes serem enviados para a arena. E são estes os parentes mais próximos dos actuais forcados portugueses (falamos de forcados portugueses porque há forcados não portugueses, embora possamos afirmar que a vastíssima maioria é de cá, e que foi cá que nasceram, sobretudo no centro e no sul do país). Os ditos monteiros formavam então a chamada Casa da Guarda, os novos protectores da gente rica, que, segurando as hastes do toiro, o deveriam fazer cair, e aí se desenhou aquilo a que se assiste hoje e que apelidamos de pega.

Este ritual de bravura e camaradagem, que muitos aficionados entendem como o gesto máximo do romantismo das corridas, instalou-se em definitivo quando, por ordem da rainha D. Maria II, se deixaram de matar os toiros na arena, passando os forcados a assumir o papel de fecho da lide a cavalo.

Mas podemos, porém, falar de uma hipotética segunda origem, muito mais distante do que esta primeira falada há dois parágrafos atrás. O touro é, desde tempos remotos, tido como um animal sagrado, reconhecido em constelação desde, possivelmente, o período paleolítico (chamam-lhe o touro celeste), e a arte rupestre não o desmente – há até quem aponte este padrão de estrelas como a origem para o nome Serra da Estrela. O seu processo de divinização seguiu caminho, ao longo dos anos e das civilizações – lembremos que a Mitologia pôs Júpiter a fazer-se passar por um touro na sua viagem com a Deusa Europa; e não esquecer Mitra, que caminhou com um touro às costas e o degolou. Os Egípcios tinham por hábito pintar um toiro e matá-lo de seguida, num ritualismo que celebrava uma mudança cíclica de estação. Vencer o touro era também visto como um rito de iniciação, uma ode à bravura humana  – o labirinto do Minotauro, de resto com representação na nossa Conímbriga, bem o sublinha. Os próprios bois do povo, fenómenos que acontecem ainda hoje no extremo norte do país, junto à Galiza, não são mais do que reminiscências do paganismo ibérico. Não será preciso assim tanta ginástica para ver nos forcados de hoje os rituais pagãos de ontem, mesmo que, ironicamente, e não podendo falar por todos eles, uma das particularidades destes miúdos seja a sua profunda devoção católica. O toiro, tido como símbolo divino da força (e igualmente da fecundidade), teria de ser derrotado pelo homem, para que este último se superasse.

Aparte esta explicação de teor mais esotérico, fiquemo-nos por fim com o que hoje existe. Especialmente nas províncias do Algarve, Baixo-Alentejo, Alto-Alentejo, Ribatejo e Estremadura, há oito homens que, com barretes verdes e vermelhos que se confundem com uma certa imagem de marca do país, se entregam a uma perigosa arena num só salto. Um deles, o caras, olha o animal nos olhos, fita-o e chama-o até que a natureza deste lhe dê o impulso do ataque. Seguem-se os ajudas, doze braços que tentam imobilizar um aríete vivo e traiçoeiro com centenas de quilos. E por fim, quando parado, o rabejador, que põe todo o seu peso na cauda do animal, orientando-o e desorientando-o, sendo o último destes homens a abandonar aquele circulo de batalha. De fora, olha a experiência do cabo, que orienta a pega desde o seu início, e escolhe quem vai à primeira marrada. Chamam-nos de Grupos de Forcados Amadores, e no final da distinção trazem o nome da terra a que pertencem.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.