Folgosinho

Folgosinho é uma bela vila no coração da Serra da Estrela, a qual, graças à sua posição privilegiada na encosta norte da serra, a 933 metros de altitude, permite uma atmosfera e uma vista espectacular da serra assim como de imensas povoações em redor. A beleza de Folgosinho e do cenário que a envolve é ainda mais acentuada quando vista do topo do seu pequeno mas belo e elegante castelo, ao qual foi adicionado um relógio na torre principal, visível ao longe quando se percorre a vila. Ao percorrer Folgosinho somos envolvidos pelo dia-a-dia da vida serrana, com pastores a atravessar as suas ruas seguidos de cabras e ovelhas em direcção aos pastos da serra, assim como pessoas a irem buscar água às diversas fontes espalhadas por toda a vila. Mas não é apenas a sua localização privilegiada, o modo de vida serrano e as belas vistas que tornam Folgosinho especial, mas também a sua associação à figura do mítico Viriato assim como uma curiosa e interessante tradição de culto das fontes, suportada por lendas de tradição oral.

Folgosinho é uma bela vila serrana que respira a história de Viriato e o clama como filho da terra. Segundo lendas locais, a origem do nome da vila deve-se a propriedades especiais da água da região, o que resultou num intenso culto das fontes visível por toda a vila.

O Local de Origem de Viriato?

Em semelhança a outros locais nas Beiras (já aqui falámos da Cava de Viriato), Folgosinho clama estar situada onde nasceu o lendário Viriato, líder dos Lusitanos na batalha contra os romanos. Efectivamente, a ocupação mais antiga de que há evidência das áreas que vieram a dar origem tanto à vila de Folgosinho como ao seu castelo remonta a dois castros pré-romanos, os quais tendo em conta a localização no coração da antiga Lusitânia, seriam Lusitanos. No entanto, este factor não é determinante para localizar aqui a origem de Viriato, sendo esta suportada essencialmente pela tradição oral. Não obstante a veracidade histórica ou não do nascimento de Viriato em Folgosinho, esta reclamação da origem do caudilho lusitano materializa-se em homenagens como uma bela estátua em tamanho real de Viriato a empunhar uma lança, localizada na vila, assim como o atribuir de designações como “Adro de Viriato” a uma praceta central da vila, à qual se adicionam ainda epítetos como “Heroe da Lusitânia, Vencedor de Quatro Pretores Romanos” ou “Vingador da traição de Alba”, relembrando assim a história do célebre líder lusitano. Menções, imagens em mosaicos e referências a Viriato são constantes por toda a vila, com representações da sua figura impressas em mosaicos situados em fontes como é o caso da fonte do Gorgulhão, a qual inclui citações dos Lusíadas e a sua homenagem a Viriato:

Desta o pastor nasceu, que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
(Lusiadas,  Canto III, Estância XXII)

A Lenda de Folgosinho

Para além das lendas relacionadas com Viriato, que afirmam que este ali nasceu e ali fundou as primeiras muralhas do castelo, Folgosinho é particularmente rica em lendas relacionadas com a água das suas fontes e com a origem do nome da vila, estando estas interligadas.

Segundo a lenda, durante uma perseguição aos Mouros, D. Afonso Henriques (outras lendas dizem que era D. Sancho I) e as suas tropas pararam para descansar na Serra da Estrela devido a cansaço extremo, e acamparam no sopé da serra. Estava um calor horrendo, e mesmo durante a noite as tropas não conseguiam descansar devido ao mesmo, aumentando ainda mais o seu cansaço, assim como o de el-rei. Nisto, Pêro Vasques, fiel conselheiro de Afonso Henriques, captura uma jovem rapariga no calor da noite, que é inicialmente considerada por Pêro Vasques como sendo uma espia moura. No entanto, ao ser interrogada pelo próprio rei D. Afonso Henriques, a rapariga revela que é apenas uma rapariga do alto da serra “naquela terra junto ao céu”, que ouvira falar no desespero de el-rei e dos seus homens, e que os quer levar para a sua terra no alto da serra, onde estes poderão ter ar puro e fresco. A rapariga acrescenta ainda que seu pai dizia, e o pai de seu pai antes dele, que a sua terra era onde tinha nascido Viriato. Ao ouvir isto o rei D. Afonso Henriques fica convencido e curioso em conhecer a terra de Viriato, e, contra o aconselhamento de Pêro Vasques, que ainda desconfia da rapariga, ordena que sigam a rapariga ao romper da manhã. Assim o fazem, fazendo uma longa caminhada até ao topo da serra, levando ainda a um maior cansaço do rei e das tropas e maior desconfiança de Pêro Vasques. Acabam por chegar no entanto, e ficam maravilhados com a beleza da terra da rapariga, assim como do ar fresco que finalmente respiram. Outra necessidade básica toma conta do rei e das tropas no entanto: a sede, devido ao calor e ao esforço da longa subida ao topo da serra. Mas a rapariga assegura que também há água, e dirige o rei a um penedo. Com o rei junto ao penedo, a rapariga cai de joelhos, e começa a entoar um encantamento místico em direcção à rocha granítica do penedo, clamando “Aqui viveu o grande Viriato… Aqui matará a sede el-rei de Portugal!”. O encantamento da rapariga parece resultar, e do penedo começa a jorrar uma maravilhosa, fresca e cristalina água da serra como que por milagre, devolvendo a vitalidade ao rei e às suas tropas ao beberem da mesma. É neste contexto que o rei profere as palavras que se diz terem dado origem ao nome da vila: “Descansemos aqui… e vamos todos tomar um folgosinho de ar!”, referindo-se não apenas ao folêgo oferecido pelo ar serrano, mas também ao fulgor oferecido por aquela água maravilhosa. A lenda diz então que imediatamente a seguir a este abençoado folêgo e fulgor, D. Afonso Henriques e as suas tropas retomaram com redobrada força e energia a sua luta com os mouros, e que muito sucesso tiveram nesta demanda nesse dia. A rapariga, por sua vez, ficou para trás na sua terra, e em jeito de profecia, proferiu outras palavras que também ficariam marcadas na história lendária da vila: “Água da serra, soldado para a guerra… Folgosinho! Folgosinho! Folgosinho!”, palavras essas, que estão gravadas na fonte do Gorgulhão, a mesma que contém a passagem dos Lusiadas. Diz-se que a rapariga era na realidade uma “figura da Terra ou do Céu”, evocando talvez uma origem ancestral da rapariga como deusa pagã.

Folgosinho

O Culto das Fontes

Seja devido às lendas, seja devido à qualidade da água, a verdade é que Folgosinho é um verdadeiro templo de culto às fontes. Toda a vila está repleta de fontes, algumas icónicas como a fonte do Gorgulhão, ou a fonte situada no Adro de Viriato. Mas as fontes por si só não são a única evidência deste culto. Tanto nas próprias fontes como espalhados pelas casas, becos e ruelas de Folgosinho, encontram-se diversos mosaicos por toda a vila que contém quadras com ditados, histórias, homenagens e referências a água e às fontes. Alguns exemplos das dezenas de quadras que encontramos por estes mosaicos são merecidos:

Ó linda fonte cantante,
Como entendo o teu penar
Em tudo ao meu semelhante,
Tu cantas para não chorar!

A água da fonte pura
Às vezes no seu cantar,
Aos noivos causa ternura,
Aos velhos fá-los chorar!

Na voz das coisas não há
mágoa que mais atormente
que a da fonte quando está
a falar de amor à gente…

Tem o regato o encanto
E a fonte tem a tristeza;
Ora o mistério, ora o pranto,
duma alma portuguesa.

Mata a sede na água pura
que estes meus lábios te dão,
que a fonte toda frescura
nasce no meu coração!

Aquela fonte murmura
uma canção tão dolente
Que faz lembrar a amargura
Que anda na alma da gente…

A fonte deste lugar
Merece ser estimada:
Tinha muito que contar
Mas do que vê…não diz nada!

Ó fonte de água cantante,
O que diz o teu cantar?
– O amor quando constante
Nem na morte há-de findar!

Murmura a fonte…em verdade
O que foi que a fonte disse?
– Recorda-te, ó mocidade
Que em breve chega a velhice!…

Clara fonte, os teus desejos
São bem iguais aos de outrora.
Aos velhinhos destes beijos,
Beijas os novos agora…

O curioso é que de facto a água de Folgosinho tem algo de especial, quando se abre a torneira das fontes para encher um copo ou uma garrafa de água, verifica-se que a água vem carregada de gás, o que até torna a água turva devido à acção da gaseificação, mas após alguns momentos o gás dissipa dando lugar a uma água cristalina e pura, da melhor água serrana. O aspecto gaseificado da água evoca quase imediatamente a lenda sobre o “fulgor” oferecido por esta água. Fica-se assim a reflectir sobre a inspiração possivelmente real da lenda. O culto das fontes de Folgosinho, pode inclusivamente ser muito anterior às lendas, tendo sido associado a estas através de gerações e gerações de tradição oral ao longo dos séculos, e ser na realidade uma sobrevivência do culto a cursos de água que os antigos povos de matriz indo-europeia e celta da Península Ibérica partilhavam com outros povos europeus nas regiões banhadas pelo atlântico desde a Idade do Bronze, visto o culto das fontes, tal como neste exemplo de Folgosinho, sobreviver também em países como a Irlanda. Este culto era dedicado a divindades aquáticas, às quais se faziam depósitos votivos, e das quais a deusa galaico-lusitana Nabia-Corona poderá ter sido um exemplo. O culto das fontes é praticado em diversos poços e fontes pelo país, nas quais ainda hoje se encontram oferendas, especialmente em datas com alto valor simbólico como a Noite de São João. No caso de Folgozinho, este culto sobreviveu com notável força, talvez devido às características especiais da água da vila, ultrapassando o mero ritual sazonal, e tornando-se numa das características da alma de Folgosinho.

Onde Ficar

A Casa dos Limos Verdes (ver foto em baixo) é um edifício de traço característico da região, em pedra e madeira. Conta com três quartos duplos e uma sala aquecida por uma salamandra. Os preços são muito em conta e a localização não podia ser mais central, bem no âmago de Folgosinho.

Recomenda-se ainda uma ida ao “O Albertino”, restaurante que já se tornou um marco icónico da Vila e que é por si só uma das atracções de Folgosinho, neste poder-se-à comer dos mais variados pratos com base na gastronomia da região, e vá de barriga vazia, porque no Albertino é para ficar uma boa parte da tarde a comer.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.509444 ; lon=-7.513889

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.