Festas de São Gonçalinho

Não é a festa de uma cidade mas a festa de um bairro. Mas tão boa que enche uma capital de distrito inteira. Bem vindos às Festas de São Gonçalinho.

São Gonçalo, beato chamado sempre que se faz uma ode à vida – aos partos, aos casamentos, à fartura -, tem em Aveiro uma festa como nenhuma outra.

São Gonçalo, o casamenteiro

Ainda muito falta escrever acerca dos cultos a São Gonçalo, além do muito que já foi escrito.

As tradições de Amarante e do seu beato Gonçalo são paradigmáticas nesse aspecto – dos famosos Colhões de São Gonçalo à estátua de São Gonçalo da Corda. Numa temos um doce de óbvia (mais óbvia não podia ser) inclinação sexual ao qual é atribuído o nome do santo. Noutra encontramos uma imagem com um cordão que, segundo crença, as mulheres devem puxar para que fossem pedidas em casamento um futuro próximo. Quer num caso, quer no outro, temos uma clara alusão a um dote de São Gonçalo: gerar casamento ou, sendo mais explícito, fecundidade.

A mais de cem quilómetros de distância, na cidade de Aveiro, há umas tais festas que o povo atribui, com um terno diminutivo, a São Gonçalinho. Referem-se exactamente ao mesmo homem que é tão venerado em Amarante. E também aqui a correspondência é análoga, ligada a antigos ritos à fecundidade e ao poder casamenteiro desta celebridade do catolicismo ibérico.

Dito isto, parece mais que certo que a linguagem católica tenha introduzido Gonçalo, pregador incansável da causa cristã, como substituto de tradições vinculadas a históricas devoções pagãs – e todos sabemos como o paganismo gostava de visar máximas da natureza, estando o seu período áureo, isto é, a Primavera e os meses em que tudo abre, em primeiro lugar.

São Gonçalo será, então, a metamorfose de cerimónias pré cristãs que tinham na explosão primaveril o seu expoente. Tal como Santo António o é para as gentes mais a sul, sendo por demais evidente a similitude entre ambos estes homens, e para isso bastará olhar para a importância dos casamentos nas Festas de Santo António de Lisboa.

Em Aveira, no Bairro da Beira Mar, as promessas a São Gonçalo caem do céu sob a forma de cavacas

As Festas de São Gonçalinho em Aveiro

O trato a São Gonçalo, substituindo o nome próprio pelo seu diminutivo, Gonçalinho, é revelador de como o povo aveirense guarda uma ternura especial para com este beato nortenho. E as Festas de São Gonçalinho são a tradução do carinho dessa palavra em gestos populares.

Todos os anos, em Janeiro, quando o calendário se aproxima do dia 10 (o da morte de São Gonçalo), o Bairro da Beira-Mar, em Aveiro, conta com a sua grande festa de cinco dias, onde toda a cidade se concentra para participar nos inúmeros eventos do São Gonçalinho. Nestes cinco dias está incluído um fim de semana e, atenção, a segunda-feira, que no caso é de grande importância dado os ritos mais marcantes estarem guardados para este dia.

A organização fica a cabo de uma equipa de Mordomos, destacados no fim das festividades do ano anterior, que andam há quatro ou cinco meses a trabalhar para que nada falhe. E nada falha.

E muito embora haja concertos e DJs, missas, cânticos, fogo de artifício, teatros, fogueiras e arruadas, as atenções centram-se quase sempre em três fenómenos maiores: o pagamento das ofertas, a Dança dos Mancos e a Entrega de Ramos.

As ofertas a São Gonçalo

O pagamento de ofertas ao santo, aqui, faz-se de forma diferente. E demasiado curiosa.

No início das tardes dos dias de festa, devotos começam a juntar-se junto à Capela de São Gonçalinho. Uns querem subir ao topo da ermida, outros ficam cá por baixo, no largo. Os primeiros levam pães, duros como pedra e cobertos de açúcar. Os segundos agarram camaroeiros e, estranhamente, abrem guarda-chuvas e viram-nos ao contrário, tornando-os numa espécie de recipientes. Porquê? Porque assim que o sino repica, os admiradores do santo que lhe querem pagar promessas fazem-no atirando os pães (aqui chamadas de cavacas) do terraço até cá abaixo, e os outros fazem valer-se dos guarda-chuvas, dos camaroeiros e até das mãos para os apanharem.

A lenda diz que foi assim, com pão milagroso, que São Gonçalo salvou a vida a muitos leprosos locais. E hoje acredita-se que só as cavacas que se estatelam no chão sagrado é que têm a benção do santo. Ainda assim há quem as prefira apanhar, ou para dar uma trinca imediata, ou para a aproveitar para copo, deitando-lhe vinho para dentro.

Mais tarde, as posições podem trocar: e os de baixo sobem, e os de cima descem, clara alusão à eliminação de classes nas Festas de São Gonçalinho. Tudo em intensa cavaqueira, pois é de chuva de cavacas que isto é feito, numa imensidão de pão que é um hino à fartazana, porque São Gonçalo é isso, uma celebração do que é farto.

A Dança dos Mancos

A misteriosa Dança dos Mancos é o evento de mais difícil acessibilidade em toda a festa, sendo um acto mais encoberto pela organização, isto é, pelos Mordomos, devidamente vestidos com o gabão aveirense.

A coreografia é feita dentro da capela, retirados os bancos do seu interior. Começa então a entoar-se uma canção de verso raro e, a ocasiões, brejeiro. Lá pelo meio ouve-se Ó meu rico São Gonçalinho / Casai-me que bem podeis / Eu já tenho teias de aranha / No sítio que vós sabeis. Novamente, o povo chama São Gonçalo para momentos de deboche e marcadamente casamenteiros, quando não explicitamente sexuais.

Ao mesmo tempo, aparece um grupo de jovens – reproduzem caretas, ora mostrando a língua, ora fingindo sons anormais. O corpo de cada um dos rapazes faz-se de manco, ou seja, imita o que será o andar de alguém fisicamente debilitado. Ali mesmo ao lado, a imagem de São Gonçalinho olha para tão invulgar espectáculo.

A Dança dos Mancos é esta performance que tem qualquer coisa de mórbido e tem tudo de incorrecto. É o ponto em que as Festas de São Gonçalinho vão mais longe na transgressão de regras. E mais uma vez se vê como o santo (que oficialmente é apenas beato), aqui como em Amarante, é chamado para patrocinar momentos de escárnio.

A Entrega de Ramos

A Entrega de Ramos acontece no final das festas e reproduz a passagem de testemunho dos Mordomos do ano corrente para os Mordomos do ano futuro.

Enquanto as mulheres são todas convidadas a participar na organização das festas – e a parte de decoração do largo e da igreja é-lhes normalmente entregue -, os homens são seleccionados de ano para ano.

A cerimónia que confirma a transição é feita através de um cortejo pelas ruas de faina do Bairro da Beira-Mar onde os Mordomos do ano corrente visitam, entre canções, as casas dos seus comparsas que assumirão a responsabilidade no ano vindouro. Retornam depois à Capela de São Gonçalinho onde se fará a oferta do ramo ao santo e se cantam músicas de agradecimento a ele. É o ponto final da festividade, que só se repetirá um ano depois.

Onde ficar

Apartamentos e casas próximas da Capela de São Gonçalinho não faltam, podendo gozar-se a festa bem no meio da algazarra: o Aveiro Luz, com três quartos, os Innapartments São Gonçalinho II com divisões amplas e modernas, ou a bela Casa Aveiro Praça do Peixe.

Fugindo um pouco do epicentro das Festas de São Gonçalinho mas com distância perfeitamente alcançável a pé, o Aveiro Panoramic é solução em conta.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.64311 ; lon=-8.65517

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.