Festa dos Tabuleiros

Caso paradigmático do que são as celebrações do Espírito Santo realizadas em Portugal, a Festa dos Tabuleiros tem calendário marcado de quatro em quatro anos, em Julho, na cidade de Tomar, e é uma das maiores mobilizações populares do país.

As festividades dedicadas ao Divino Espírito Santo são de manifestação maior junto às zonas onde, historicamente, houve maior influência Templária. Tomar, nesse aspecto, é a cidade Templária portuguesa, tal como a província do Ribatejo em geral, e como tal não poderia fugir a tal costume – convém referir, contudo, a importância das Festas do Espírito Santo na Região Autónoma dos Açores, onde ganha uma magnitude igualmente única e até, diríamos, mais ancestral. Tratam-se de grandes paradas comunitárias, onde se celebra a fraternidade universal e a igualdade colectiva – mesmo que lá estejam presentes os muito ricos e os muito pobres.

A sua origem remonta a ritos pré-cristãos, depois cristianizados. Esta cristianização, segundo a maioria dos estudiosos, deveu-se quer à Ordem do Templo, que por si só já absorvia na sua forma de vida muitos rituais pagãos, quer à Rainha Santa Isabel, de resto ligada aos Templários, e que promoveu estas comunhões populares um pouco por todo o país.

Com um programa que se estende por mais de uma semana, conta com espectáculos de todo o tipo, desde a actuação de ranchos folclóricos, teatros de rua, exposições diversas, mostras de sabores regionais, arraiais populares, corridas de toiros, tudo e mais um par de botas. O que mais importa, no entanto, são os cortejos – a Procissão das Coroas e dos Pendões, o Cortejo dos Rapazes, o Cortejo do Mordomo, os Cortejos Parciais, e o inesquecível momento alto, o Cortejo dos Tabuleiros. Para o fim, no último dia, guarda-se a Distribuição do Bodo.

Mas, quanto aos cortejos, vamos por partes…

O pontapé de saída é dado pela Procissão das Coroas e dos Pendões, que anuncia, sete semanas antes, tudo o que está por vir. Começa no Domingo de Páscoa e, daí em diante, seis outras procissões se seguirão (em certos anos, até mais), antes da Festa dos Tabuleiros propriamente dita começar. Caminhantes, ao som de gaitas-de-fole e dos metais da banda filarmónica, trazem os pendões e as coroas de cada freguesia e são brindados com flores à passagem pelas ruas de Tomar, ruas essas que serão mais tarde coloridas com peças floreais de papel, a lembrarem as que apanhamos nas Festas do Povo em Campo Maior. É uma espécie de oficialização, em jeito de aperitivo, do que nos espera no mês de Julho.

O Cortejo dos Rapazes dá-se normalmente nos primeiros dias de festa, e não é mais do que uma reedição de um antigo cortejo que, entretanto, foi abandonado. Trata-se de uma réplica da procissão original dos Tabuleiros, mas aqui realizada por gaiatos, trajados tal e qual como, daqui a uns dias, os adultos vão estar.

Já o Cortejo do Mordomo coloca os bois como personagens centrais da andança. Antes, eram mortos e a sua carne distribuída, igualmente, por todos. Agora já não os sacrificam. Mas decoram-nos. Enfeitam-nos com flores numa alusão pagã à fertilidade e à provisão e à abundância.

Os Cortejos Parciais, entretanto, vão-se dando, um por um, ao longo da festa. Cada freguesia pega nos seus tabuleiros e leva-os ao Mordomo e ao Presidente da Câmara, seguindo depois para a Mata dos Sete Montes (e atente-se na magia do nome, invocando os sete montes, tal como Lisboa faz com as suas supostas sete colinas). Os tabuleiros por lá ficarão, expostos para os curiosos, até ao momento alto chegar.

E esse momento alto chegará no último Domingo de festa: é o Cortejo dos Tabuleiros. A torre a que dão o nome de tabuleiro, ornamentada com papoilas e com espigas e com pão, deverá ter a altura de quem a carrega, demonstrando-se assim o espírito de sacrifício de quem quer fazer parte disto – as mulheres, jovens na sua maioria, são as figuras centrais do desfile. Antes do arranque, a igreja, por alguém que a represente, dá a bênção aos tabuleiros – ao pão, à coroa, à cruz de Cristo, e à pomba do Espírito Santo que os encimam. Depois, ouvem-se três toques de sino. E ao terceiro levantam-se todos os tabuleiros acima da cabeça, naqueles que são, provavelmente, os segundos mais arrepiantes de toda a festa. Bem levantados, repousados nas cabeças das tomarenses vestidas de branco, tornam-se vivos agradecimentos ao que a Terra-Mãe (ou numa perspectiva cristã, Deus) ofereceu. E seguem viagem por cinco quilómetros. Com as mulheres ao leme, e os homens como meros acompanhantes.

No dia seguinte, Segunda-Feira, comemora-se o término da Festa dos Tabuleiros através do Bodo, ou num termo mais actual, a Pêza. A carne (antes proveniente do abatimento dos bois), o pão, e mais recentemente, o vinho, são entregues aos mais desfavorecidos. Noutros tempos, eram partilhados entre todos, mesmo contando com quem não precisava.

E assim se fecha este ciclo que, na sua raiz, nasce de celebrações à Deusa-Mãe e às colheitas, ou numa visão já romanizada, à Deusa Ceres (simbolizada no pão e na espiga), intimamente ligado à propensão fecunda da terra que se inicia com a chegada da Primavera e que no Verão atinge o seu farto resultado. Com o tempo, tornou-se um evento único, de apelo ao sentido de dádiva e gratidão católica, que faz todo um concelho parar, e todo um país a querer lá estar.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=39.603797 ; lon=-8.414347

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.