Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe

Sabemos que a Senhora de Guadalupe tem um culto muito forte no país aqui ao lado, e mais ainda, talvez, no México. Que ele tenha feito malas para cá, é quase desconhecido. Mas aconteceu. E a Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe é apenas um exemplo disso, este no Algarve, havendo mais, sobretudo na zona do Baixo-Alentejo.

Quem conhece esta pequena igreja pouco tem a dizer sobre ela. Na terra, no limite, dirão que o Infante Dom Henrique lá passava tempo em oração, e há relatos que indicam ser bem verosímil. Mas fora isso, que é um apontamento curioso, passa-nos ao lado. Não admira. Está caiada, como qualquer outra moradia antiga algarvia, e é de traços simples – ganha em densidade o que perde em ornamento. Vista do exterior, então, é quase um paralelepípedo em bruto, despido de rodriguinhos, e apenas o óculo e os contrafortes contrastam a sua cor do grés com a brancura que os envolve. Além disso, não está num sítio que possamos dizer que o olho encontra facilmente, ficando meio oculta num pequeno vale entre dois montes de inclinação suave. E até os desmentidos sobre a sua possível origem Templária parecem ter razão de ser, retirando-lhe essa carga misteriosa que os Cavaleiros do Templo cunhavam em tudo o que punham dedo.

Contudo, e por muito que ninguém o entenda, é monumento nacional. E há uma explicação para o ser.

chaves-decoradas-na-ermida-de-nossa-senhora-de-guadalupeA verdade é que pequenos detalhes nos levam a assumir o que este monumento realmente é: uma fonte no que à simbologia diz respeito – antes de gótico, é um quadro românico com duas centenas de anos de atraso, alegórico e fora do seu espaço. E se a sobriedade já lembra esse estilo tão caro ao norte de Portugal, se olharmos para os detalhes dos capitéis e chaves, rendemo-nos à evidência. Mesmo admitindo recentes estudos que a apontam como uma obra de Dom Dinis, isto é, do final do século XIII ou início do século XIV, há marcas que, com intencionalidade, a remetem para um período mais arcaico, de ode às imagens sagradas e paganizadas da proto-história.

A chave decorada com três faces é paradigmática. Da boca de uma delas parece entrar (ou sair) um animal serpenteante. Poderá mesmo ser uma serpente, numa analogia com o homem regenerado. Ou um peixe. Dificilmente uma língua, como já li algures. No meio, um disco que dá a ideia de movimento, remetendo para as suásticas solares. Bastaria isto para ficarmos presos a um enigma de sugestões, tão visto em templos românicos nortenhos. Mas não fica por aqui: nos capitéis há um bovino, símbolo lunar representado pelos cornos, em oposição ao sol da suástica – os opostos, noite e dia, sol e lua, outra característica marcadamente românica.

Ou seja: se de facto a obra é produto da arquitectura dionisina – e Dom Dinis, como os Templários, de resto, sempre deveram muito à causa românica -, a sua alma vive bem antes disso.

E onde entra aqui a Senhora de Guadalupe, que afinal lhe dá o nome, quando tal culto é posterior à data da fundação da ermida?

Pois haverá sempre a possibilidade de terem baptizado este templo dessa forma uns bons anos depois de ele ter sido fundado. O milagre atribuído à Senhora de Guadalupe, em Cáceres, terá acontecido por volta da segunda década do século XIV, isto é nos últimos anos do reinado de Dom Dinis. E o culto, por essa altura, começou por ganhar audiência apenas do lado de lá da fronteira. Algumas fontes dizem-nos que tal veneração terá migrado para território português quando portugueses e espanhóis lutaram lado a lado, já na altura de Dom Afonso IV, filho de Dom Dinis. E poderá ter sido aí, em agradecimento à protecção dada pela Senhora, que Portugal decidiu cunhar tal igreja de Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=37.083666 ; lon=-8.864802

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.