Diabos de Amarante

Os Diabos de Amarante são tratados como Deuses nesta cidade do Douro Litoral. São um casal, ou seja, um diabo e uma diaba, de fenótipo negro, e têm direito a panteão, destacando-se no primeiro andar do Museu Municipal Amadeo de Souza Cardoso, colado à bela Igreja de São Gonçalo, mesmo ali a beijar a orla norte do Tâmega. Podem ser vistos aí a qualquer dia do ano, tirando no supersticioso dia de 24 de Agosto, em que são de lá retirados e avançam em cortejo pela cidade.

Mas primeiro que tudo, há que o dizer, estes nem sequer são os Diabos originais. Esses, diz-se, vieram de paragens longínquas do então império ultra-marino. Provavelmente dos Brahmanes, embora careça de confirmação. Viveram longos anos na Sacristia do Convento Dominicano de São Gonçalo, e eram acarinhados por todos, até por quem não o poderia fazer, como era o caso dos monges, que segundo a norma deveriam guardar as suas orações para representações mais cristãs do que a que se via num par de mafarricos de raça alógena e que ainda por cima evidenciava pormenores sexuais demasiado ousados e pagãos. Viveram longos anos, dizia, mas foram por fim queimados por tropas francesas, por altura das invasões napoleónicas.

Só depois de expulsos os rebanhos de Napoleão é que, por saudade e vontade, os frades dominicanos pediram nova versão dos Diabos de Amarante. E a réplica foi feita por mão de mestre, António Ferreira de Carvalho de nome, com a ajuda de madeira de castanheiro. No topo da cabeça de cada diabo fez-se ainda um buraco – serviam eles para lá se enroscaram uma cruz e uma umbela, cristianizando assim duas estátuas que de cristão nada tinham. Têm tamanho quase humano, só não se aproximando da nossa altura porque se encontram sentados. Mas estes novos Diabos, como os primeiros, não tiveram vida fácil. Aqui só correu melhor porque sobreviveram.

No séxulo XIX, uma alta patente da Igreja portuguesa mandou queimá-los e uma outra alta patente da Igreja portuguesa não o permitiu, limitando-se a retirar-lhe as conotações sexuais, que é como quem diz, capando o Diabo e mutilando a Diaba. Mas o pior ainda estava por vir. Alberto Sandeman, homem de posses, e inglês, contra muitas forças internas, conseguiu comprá-los e levá-los daqui para a sua terra natal. E foi preciso um Ministro dos Negócios Estrangeiros meter-se ao barulho para que o casal endiabrado voltasse de Londres, até terras amarantinas. Chegados à sua cidade de sempre, foram recebidos como Deuses, porque o são. Juntas de bois, bandas, multidão, tudo saiu à rua para reverem os seus ídolos negros, que desta vez vinham para ficar.

No dia 24 de Agosto passou o povo de Amarante a fazer oferendas aos Diabos, depositando-as até nos tais orifícios feitos no topo de cada cabeça. Dádivas ao Diabo? Não exactamente, ou pelo menos não num contexto católico. Dádivas a uma Divindade actual que veio substituir uma muito antiga, quase de certeza.

Diabo acorrentado a SãoBartolomeu, que segundo a lenda se escapa a 24 de AgostoO dia 24 de Agosto não foi escolhido por acaso, atenção. Segundo crença popular, é nesta data que o diabo sai à rua, coisa ainda mais vincada nas gentes do norte português. Conta uma lenda que São Bartolomeu conseguiu salvar uma criança retirando o demónio do seu corpo, e que, por clemência, deixou o mafarrico vivo embora acorrentado. Consta-se que o santo concedeu, em troca de bom comportamento, um dia de liberdade ao demónio aprisionado, e assim no dia 24 de Agosto teria ele oportunidade para andar livre por aí. Várias representações de São Bartolomeu versam isso mesmo – um santo que passeia um animal acorrentado, normalmente com formas que a igreja associou ao diabo (os cornos, a cor avermelhada ou escurecida…).

Por isso sim, este é o dia dedicado a São Bartolomeu, mas é também aquele em que o povo acredita que o diabo se escapa às vigilâncias dos arcanjos e entra nas vivências das comunidades. Não é aí, afinal, que as gentes de Esposende afastam os seus males banhando-se nas águas do Atlântico?

Em Amarante, nesta simbólica data agostina, começou a fazer-se há poucos anos uma enorme festa como forma de comemorar o regresso dos mafarricos à terra de onde nunca deveriam ter saído. Os Diabos saem à rua, puxados por bois. E o povo sai à rua, vestido de diabo. E tocam bandas. E há monges disfarçados. E até caretos saltam, não fossem eles outro tipo de demónio.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=41.269267 ; lon=-8.078422

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.