Dia de Santo António

A equivalência do São João do Porto em Lisboa tem o nome de outro bem-aventurado, Santo António. Um padroeiro secundário da capital (o principal, como o brasão lisboeta indica, é São Vicente) que acaba por ser mais festejado do que qualquer outro. Ainda assim, a festa poderia ter tido qualquer outro nome. Não só toda esta farra é anterior à existência de Santo António como, na essência, é anterior ao próprio cristianismo.

Tenho a certeza que se perguntassem a um lisboeta qual o dia que escolheriam como o último da sua vida, muitos apontariam para este. A Festa de Santo António é o Carnaval e o Ano Novo liquefeitos num coração alfacinha.

Origem do Santo António e das festas Juninas

O dia de Santo António comemora-se no décimo terceiro dia de Junho e, embora as festas se espalhem um pouco por todo o país (com maior concentração no sul), é em Lisboa que se chega ao zénite da celebração. Para facilitar tudo o que vai ser falado a partir daqui, as linhas que se seguem serão mais relacionadas com o Santo António de terras alfacinhas.

A atribuição de Santo António a esta data dá-se por causa da sua morte, que aconteceu a 13 de Junho, em Pádua. Tendo sido, ao longo da sua vida, um homem que se dedicou como poucos à causa cristã, reconhecido como soberbo pregador pela igreja, a consagração do seu dia em Lisboa – terra onde nasceu – acaba por ser natural. Ou pelo menos natural num país tão formalmente católico como Portugal.

Contudo, por que razão se concentram em Junho as comemorações aos três santos mais acarinhados em território português? A verdade é que se a margem de erro é menor no que toca à data da morte de Santo António (morreu no século XIII), com São João Baptista e São Pedro é impossível saber exactamente o dia em que nasceram ou finaram. E no entanto saímos à rua evocando os seus nomes, nos dias 13 (para António), 24 (para João), e 29 (para Pedro). Sempre em Junho. E Junho, aqui, é a palavra certa a usar. Porque é isso mesmo que festejamos – Junho, ou Juno, a Deusa romana.

A etimologia de Juno indica-nos que, muito provavelmente, deriva de iuvenis – latim para juventude -, e iuuen significará tempo fértil como resultado da confluência de duas línguas indo-europeias: o latim e o grego. Tempo fértil é expressão adequada ao mês de Junho, e explica, em grande parte, o porquê de ser o mês mais comemorado, a par com Dezembro – não é a fertilidade da terra tudo o que se quer? Não virá do acaso, também, o facto de ser precisamente nestes meses que encontramos o Solstício de Verão e o Solstício de Inverno.

Santo António encaixa-se, portanto, aqui. Um dia no meio de Junho, ou seja, uma peça no meio de um painel maior. Se olharmos para o calendário, reparamos que as festas populares, tenham sido posteriormente cristianizadas ou não, vão em crescendo, desde Fevereiro – a semente da Primavera -, até Junho – a explosão da natureza, quando os frutos rebentam e o sol atinge o seu máximo esplendor, dando-nos, no hemisfério norte, o dia mais longo do ano. O Carnaval dos Caretos, as Queimas dos Judas e as Serradas da Velha, as Maias, e todas essas festividades que vão, uma a uma, fechando as portas ao Inverno, concluem-se com a longa festa do Verão, a longa festa Junina, entretanto cristianizada com António, João e Pedro, santos que o povo, por vontade ou inadvertidamente, acabou por acalentar.

Estátua do santo em frente à Igreja de Santo António

Tradições de Santo António

O matrimónio é intrínseco ao Santo António em Lisboa. Bastará observar um antigo rito feito na capital: a estátua do santo que se encontra em frente à igreja com o mesmo nome é vítima de uma velha tradição – homens ou mulheres devem atirar uma moeda para cima da escultura, e caso ela fique em cima do livro ou dentro do capuz de António de Pádua, o casamento será abençoado de sorte. É curioso notar que noutros lugares de Portugal se mandam pedrinhas a rochedos também como um gesto ligado ao casamento ou à fertilidade – a esse respeito, já aqui falámos da Rocha dos Namorados ou do Penedo dos Cornudos.

Mesmo que não tenhamos ido a nenhum casamento de Santo António – é o meu caso -, bastará deambular pela Baixa Pombalina para vermos inúmeros carros de contornos clássicos a carregar pares de noivos, prontos a dar o nó que, supostamente, não deve ser desfeito. Não é por acaso que fizeram de António de Pádua um santo casamenteiro. Estamos, mais uma vez, a assistir à fundição de elementos católicos com elementos pagãos. Aqui, o homem faz-se à imagem da natureza, e se a natureza está no apogeu da fertilidade, então que se faça corresponder tal enquadramento às relações humanas – os frutos rebentam das árvores, animais acasalam, mulheres e homens casam-se. Ontem como hoje, a condição humana marcha ao mesmo passo que os ciclos.

Mas são mais as tradições que, em Lisboa, servem de exemplo de quão naturalista é esta data (e este mês).

Os saltos das fogueiras são de largo mais comuns a norte, Galiza incluída, mas ainda assim poderão ser vistas em Lisboa e noutras regiões mais a sul (antes, todavia, era coisa muito mais frequente do que agora). Depois de montado o fogo no calcário dos passeios, gente jovem deve saltar por cima dele, como forma de purificação do corpo. A fogueira é uma prece ao sol que está no seu máximo poder no mês de Junho, um agradecimento ao astro que, em comunhão com as chuvas, dá viço às terras.

Já aqui falámos da Queima da Alcachofra, um ritual que, embora a sua prática vá escasseando, não pode ser mais conivente com a ideia de que estamos a assistir a tempos de magia. Depois de saltadas as fogueiras, agarram-se em alcachofras selvagens e queimam-se, colocando-se depois as flores num vaso, deixando-as pernoitar por lá. No dia seguinte, se florirem depois da queima, significa que o amor é correspondido. Mais uma vez, a enunciação da natureza, agora numa alusão à sua regeneração.

O manjerico, tal como a alcachofra, exibe o elo entre o lado casamenteiro de António de Pádua e a celebração da cor e da abundância. A tradição original dizia que cada homem deveria oferecer um manjerico à sua amada ou pretendente, juntamente com uma quadra de amor, quase sempre de teor popularesco. Novamente, o casamento com elo a um provento natural.

A noite de 12 para celebrar o dia 13

Como qualquer um dos outros santos comemorados em Portugal, o Santo António é provavelmente a altura em que os lisboetas mais esquecem as suas amarguras – em termos de descomedimento, está acima do Carnaval ou da passagem de ano. Trata-se de um fenómeno popular de dimensão absurda, onde toda a zona suburbana de Lisboa se desloca aos vicos históricos em busca da rambóia do ano. Para não falar da quantidade de turistas que cá vêm propositadamente para passar por cá tal noite.

Os bairros que circundam o Castelo de São Jorge – nomeadamente a Mouraria e Alfama – viram latas de conserva, sendo nós, os que lá estamos, as sardinhas enlatadas. E por falar em sardinhas, não nos devemos esquecer que são elas a refeição do dia e da noite, por vezes a preços proibitivos, coisa irónica tendo em conta que Santo António é padroeiro dos pobres. Come-se com o pão a fazer de prato, e sem talheres – garfo e faca, neste dia, são batota. Nem sequer é a melhor altura para lhes sentir o sabor (é depois do Verão que ficam gordas) e ainda assim ninguém ousa lembrar-se disso.

Em paralelo, sabem uns e vêem outros as famosas Marchas Populares. Contam com audiência plebeia e audiência de luxo. Um colorido costume que carrega anos e anos de história consigo, entretanto espevitado por altura do Estado Novo. Resumindo, padrinhos (leia-se, celebridades) dão a bênção para que o bairrismo que ainda existe nos cantões alfacinhas desfile e se confronte Avenida da Liberdade abaixo. Spoiler alert: no fim ganha Alfama.

Voltando à azáfama, a partir das doze badaladas, vão esvaziando os domínios do castelo e vai-se enchendo a Baixa – a Sé, o Campo das Cebolas, as imediações do Chafariz d’El Rei. Há bailarico ao vivo com órgão que, não fosse Junho, e a maioria da malta acharia de gosto duvidoso. Dança a velhota com o gaiato e a menina com o gato, vale tudo debaixo das fitas decoradas com bandeirinhas de plástico. Fazer durar tudo isto até às seis ou sete da manhã considera-se apenas dever cumprido. Os mais afeitos acompanham o sol do dia seguinte.

Houve um ano em que, desgraçadamente, tive um exame universitário muito próximo da Festa de Santo António. Obrigou-me a ficar por casa. Acabei por sair um pouco, lá pelas onze da matina do dia 13 de Junho, quando tudo tinha terminado. Olhar para Lisboa nesse momento é revelador do que se passou na noite anterior. Parece, sem grandes teologias envolvidas, o pós Apocalipse. É a paisagem de uma cidade que acabou de morrer de felicidade.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.