Cultura Castreja

A chamada cultura castreja refere-se à cultura material arqueológica que é caracterizada por fortificados de finais da Idade do Bronze e da Idade do Ferro, dos quais há um elevado número de exemplares a norte do Rio Douro, sendo esta cultura considerada característica das zonas do Minho, noroeste de Trás-os-Montes, Galiza e parte das Astúrias, estando assim relacionada com a antiga província romana da Gallaecia. Os fortificados têm o nome de “castros” ou de “citânias”, quando são de dimensões mais extensas, e são constituídos por ruínas ou vestígios arqueológicos de um género de povoado, cujas edificações têm a particularidade de serem na sua maioria em estrutura circular, feita de pedra, cujos telhados eram em forma cónica e revestidos de colmo. Assemelham-se assim a estruturas visíveis também em fortificados na Bretanha e Irlanda e nos oppida (singular oppidum) que se encontram na antiga Gália e restante Europa Central, assim como em zonas da Grã-Bretanha.

A cultura castreja é frequentemente considerada uma evidência da presença predominante de povos celtas ou celticizados na Península Ibérica durante a era pré-romana, visto que mais exemplos de castros se encontram no resto da península e em Portugal, com maior incidência sem dúvida no norte do país. Em muitos dos castros e citânias são visíveis motivos célticos esculpidos na pedra, como o icónico triskel, ou petróglifos de espirais. Notáveis ainda são as pedras formosas, estelas de pedra com considerável dimensão que apresentam motivos célticos e cuja função poderia estar associada a uma iniciação guerreira ou espiritual. Apesar de terem sido em muitos casos reaproveitados pelos romanos, a origem dos castros e citânias nortenhas é atribuída aos Gallaeci, uma tribo celta ou celticizada que ainda hoje leva a que povos nortenhos e galegos se considerem galaicos e da qual se pensa que esteja na origem de muitas tradições, costumes e folclore que são partilhados pelos povos minhotos, transmontanos, galegos e em parte das Astúrias.

Os castros são uma das mais importantes expressões do património histórico e cultural de Portugal, tendo sido o alvo da atenção de notáveis etnógrafos e arqueólogos como Leite de Vasconcelos e Martins Sarmento, que inclusive reconstituiu a suposta forma original das edificações em alguns exemplares na Citânia de Briteiros. A atmosfera que os castros providenciam não é apenas derivada do seu valor como monumentos pré-históricos, mas também do passado céltico, guerreiro e pagão que evocam e que constitui uma das raízes da etnografia portuguesa.

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.