Cromeleque dos Almendres

O Cromeleque dos Almendres é o maior cromeleque da Península Ibérica e um dos monumentos megalíticos mais importantes da Europa ocidental, assim como um dos mais antigos, com a sua construção a iniciar-se por volta de 6000 a. C. o que o torna anterior ao célebre Stonehenge em três ou quatro milénios. É um dos vários monumentos megalíticos que compõem o circuito do chamado Universo Megalítico de Évora, que inclui outros monumentos como a Anta do Zambujeiro, entre outros dólmens e outros cromeleques como o Cromeleque de Portela de Mogos e o Cromeleque de Vale de Maria do Meio. O circulo de menires que compõem o cromeleque foi descoberto em 1966 por Henrique Leonor Pina, e está situado na freguesia de Guadalupe, em Évora, na Herdade dos Almendres, a pouco mais de um quilómetro do Menir dos Almendres, um outro monumento megalítico situado na mesma herdade, que, como iremos comentar, aparenta ter uma relação com o cromeleque. A herdade é composta por locais de pasto e os típicos montados de sobreiros alentejanos, estando o circulo de menires do cromeleque situado numa clareira do montado ao qual se chega através de uma estrada de terra batida. A localização do cromeleque confere-lhe um cenário de envolvência perfeito para a aura de ancestralidade que emana dos menires, com o circulo de pedras a fundir-se de forma natural e simbiótica com a paisagem semi-árida composta de sobreiros que envolve a clareira onde este se situa. A estrada de terra batida que dá acesso ao cromeleque transmite a ideia de uma pequena peregrinação até um local de culto perdido no tempo e que invoca o passado, ao mesmo tempo que funde a sensação de sagrado com o meio natural em redor. Ao percorrer esse caminho, principalmente ao anoitecer, é possível que nos deparemos com sapos, javalis e simpáticas raposas, como se fossem os guardiões de um antigo templo a darem as boas vindas. Associações que o misticismo e peso histórico do local nos colocam na cabeça claro está, mas que não obstante a sua pertença ao mundo da imaginação contribuem para a magia do local.

O Cromeleque dos Almendres é o maior circulo de menires do megalitismo português assim como ibérico, e um dos mais importantes da Europa, ultrapassando Stonehenge na sua ancestralidade, e é uma das pérolas do chamado Universo Megalítico de Évora.

História da Construção do Cromeleque

A escavação do cromeleque após a sua descoberta levou à compreensão de que o circulo de menires tinha sido composto em três fases de construção que ocorreram em diferentes cronologias durante o período do Neolítico: uma primeira por volta de 6000 a. C. que corresponde a um circulo inicial mais pequeno que está à cabeça do cromeleque, e que é fácil de identificar, visto ser composto pelos primeiros menires que encontramos quando chegamos ao complexo; uma segunda fase de construção por volta de 5000 a. C. que levou à formação de um segundo maior circulo de pedras, em forma de uma elipse mais pronunciada do que o primeiro circulo mais arredondado; uma terceira fase em 4000 a. C. que corresponde à manutenção do segundo círculo elíptico e a alguma negligência do primeiro, levando a que este último se tivesse tornado menos pronunciado na sua forma arredondada. O segundo circulo elíptico encontra-se na continuidade do primeiro circulo, com o conjunto total lembrando assim a forma de uma esfera aglutinada a uma elipse. Adicionalmente, o investigador Mário Varela Gomes repôs alguns dos menires que estavam deslocados nos seus locais originais, os quais identificou ao escavar a terra e encontrar as fossas originais, e voltou a erguer outros que estavam caídos, num esforço nobre de reconstrução e conservação que deve ser reconhecido e que outros monumentos megalíticos pedem com urgência. O cromeleque apresenta assim ainda hoje em dia a imponente imagem de 95 menires de granito reunidos em comunhão, como se empunhassem orgulhosamente o peso do passado de pé.

Associação Astronómica

A significância e uso ritual do Cromeleque dos Almendres não é algo bem definido e completamente explicado, mas a investigação em volta do mesmo tem oferecido descobertas extremamente interessantes, especialmente através da chamada arqueoastronomia. É possível que o cromeleque funcionasse como um observatório astronómico, e as evidências que levam a esta conclusão são do domínio académico e não esotérico. Ao fazer uma divisão de ambos os círculos de pedra que compõem o cromeleque em dois eixos imaginários perpendiculares que sigam a orientação dos cromeleques, verifica-se que estes eixos estão alinhados com os eixos Norte/Sul e Este/Oeste. Mas mais surpreendente é a verificação de que o cromeleque está alinhado com o equinócio da Primavera, sendo um local de observação deste fenómeno através de um complexo sistema de cálculo, o qual demonstra um extenso conhecimento astronómico, especialmente tendo em conta que o cromeleque foi construído durante o Neolítico. Um fenómeno semelhante é verificável quando se associa o cromeleque ao Menir dos Almendres, visto que a linha imaginária que marca a direcção do cromeleque ao menir está alinhada com o solstício de Inverno. Temos assim o alinhamento do cromeleque com estes dois fenómenos, que marcam mudanças de estação. As associações astronómicas não se ficam por aqui e revelam ainda outro pormenor curioso: embora a maior parte dos fenómenos associados ao cromeleque sejam de cariz solar, a latitude na qual o cromeleque está situado é a mesma da elongação máxima da lua, ou seja, a posição na qual o ângulo entre o Sol e a lua permite que a lua se torne visível durante o pôr do sol, ou alternadamente, que ainda seja visível durante o nascer do sol. Curiosamente, ou então revelador de uma cultura partilhada, isto é um fenómeno que também sucede na latitude em que se encontra Stonehenge, na Grã-Bretanha. Parece incrível que os nossos antepassados pré-históricos detivessem tais conhecimentos, mas tudo aparenta que sim.

Significância ritual

Põe-se então a questão se o cromeleque servia apenas um propósito de observação astronómica, ou se tinha outra funcionalidade, que se poderia deduzir como sendo de carácter ritualista. Na realidade, a descoberta de associações do cromeleque a fenómenos astronómicos fortalece um possível uso ritual do local, centrado em cultos da fertilidade cuja celebração é expressa pela forma fálica dos menires, assim como pelo alinhamento com o equinócio, possivelmente uma marca da separação do ano entre a época da escuridão e frio na qual não se produzia, e a época de calor e de trabalho agrícola, na qual a fertilidade dos campos era essencial. O alinhamento com o solstício de Inverno fortalece essa ideia, sendo a marca do início da época escura. O carácter religioso/ritualista do cromeleque é ainda reforçado pela presença de gravuras e relevos gravados na rocha granítica de algumas das pedras do cromeleque, os quais se conseguem visualizar com um olho atento e mediante determinadas condições da luz ambiente. Tais relevos e gravuras, presentes em cerca de dez dos monólitos pertencentes ao cromeleque, apresentam símbolos circulares, raquetas, báculos (uma forma semelhante a um gancho, comum também na arte megalítica da Bretanha). Adicionalmente, um dos monólitos apresenta três discos solares, dos quais emanam linhas serpenteadas na vertical. Dois dos menires apresentam ainda curiosas figuras antropomórficas, numa das quais é nítida uma cara com olhos, nariz e boca, sendo estes menires considerados então como sendo “estátuas-menir”. A significância destas gravuras é obscura, mas investigadores como o referido Mário Varela Gomes atribuem-lhes um significado relacionado com o culto à Deusa-Mãe, parecendo então tudo apontar para um uso religioso e ritualista do cromeleque, em associação com as observações astronómicas.

Os Almendres no Contexto Megalítico Europeu

A comparação com Stonehenge é algo recorrente, devido à dimensão e importância dos Almendres como o maior cromeleque da Península Ibérica, e dado que ambos são círculos de pedras megalíticas. Além disso, como vimos, ambos partilham uma associação da latitude em que se encontram com a lua, e estão ligados a outros fenómenos astronómicos, o que nos parece remeter para uma mesma cultura de conhecimento astronómico e construção de monumentos megalíticos. Esta cultura em comum é suportada pela existência de exemplares do mesmo género de estruturas megalíticas em todo o arco atlântico desde a Península Ibérica, passando pelo ocidente francês até às Ilhas Britânicas e inclusive Dinamarca, sendo o exemplo paradigmático de tal cultura o dólmen de corredor. É nítida no entanto uma diferença de estética entre a arquitectura dos Almendres e a de Stonehenge, sendo a forma dos menires dos Almendres mais semelhante, por exemplo, com os alinhamentos de menires de Carnac na Bretanha (apesar destes últimos serem alinhamentos e não exactamente cromeleques), enquanto que Stonehenge parece ser um círculo de portal tombs característicos das Ilhas Britânicas. Estes são pares de menires na vertical sobre os quais é assente um esteio na horizontal, lembrando a forma de um portal. Esta diferença é talvez explicável por um desenvolvimento autóctone da arquitectura dos monumentos megalíticos e até mesmo por uma diferença de cronologia. O Cromeleque dos Almendres remonta a uma fase diferente do Neolítico, e é bem mais antigo que Stonehenge, havendo inclusive investigadores que situam o possível foco original de expansão da cultura megalítica ocidental exactamente no Alto Alentejo devido à antiguidade dos seus exemplares. Nas Ilhas Britânicas, onde os exemplos de megalitismo são mais tardios, as construções megalíticas chegaram inclusive até às vésperas da Idade do Bronze, e apresentam desenvolvimentos arquitectónicos mais sofisticados, o que poderá ter sido o caso de Stonehenge.

O Cromeleque dos Almendres encerra em si um complexo mundo de associações, as quais nos oferecem pistas sobre a visão que o Homem tinha do mundo em seu redor em tempos pré-históricos, e revelam que no passado, o Homem era já capaz de observar e compreender os segredos da Natureza e do Universo em seu redor. Sente-se no cromeleque o eco de um passado muito distante, como se as pedras nos quisessem dizer alguma coisa, e de facto dizem, dizem-nos que quando olhamos para o céu no local onde as pedras se mantém vigilantes, homens como nós também olharam há muitos milénios atrás, e o que viram mereceu-lhes veneração e respeito, um sentimento de sacralidade, a partir do qual ergueram um colossal templo que ainda hoje permanece.

Onde Ficar

Fica a nordeste do recinto megalítico aqui falado. A Imani Country House dá-nos estadia a dois minutos dos Almendres e entrega-nos uma vida de campo com Évora bem ali ao lado. Situada na Quinta de Montemuro, encontra-se cercada de jardins de cedros. Dispõe de lareira para o Inverno e piscina para o Verão.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=38.557475 ; lon=-8.061119

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.