Costa Nova

A praia da Costa Nova, ou da Costa Nova do Prado, em Ílhavo, coladinha a Aveiro e aos seus moliceiros, deverá ser das poucas mais conhecidas por aquilo que o Homem lá fez do que por aquilo que a natureza montou. Do lado do mar, estando nós virados para oeste, mal nos apercebemos do que pode este pedaço costeiro ter de diferente em relação a outros.

Isto porque a surpresa está nas costas do casario balnear. Se para lá seguirmos, em direcção à ria e não ao Oceano, encontramos o ouro: um alinhamento de casas, que por convenção passámos a chamar de palheiros, e que obedecem a um padrão decorativo invulgar.

São casas de pescadores, ou pelo menos eram-no na altura da construção, a lembrar umas outras montadas junto ao Tejo e ao Sado, próprias da cultura avieira, embora aqui com um sentido mais apurado no uso das cores – as avieiras são bem mais monocromáticas que os palheiros da Costa Nova. Estas encontram-se tão bem pintadas e conservadas que parecem montagem para um filme. É uma marginal inteira de casas de bonecas à escala humana. Vêem-se às riscas verticais, intercalando a pureza do branco com outras cores, quentes e frias: salta uma de amarelo, outra de azul, logo depois uma de encarnado, mais uma verde, e volta-se a uma outra de azul.

Várias viveram já mais de duzentos anos. Inicialmente, contavam com uma só divisão e os tons usados eram mais limitados e menos vivos, sobressaindo cores associadas à argila. Serviam de arrecadação para os materiais da pesca, regra geral bastante económicos em termos de arrumação, e o pouco espaço que tinham chegava e sobrava. Começaram a ser construídas nos inícios do século XIX, quando os homens do mar se viram obrigados a uma deslocação para sul, depois da Barra de Aveiro ter dado poucos frutos, percebendo-se assim o porquê desta ser a costa nova, em oposição à velha, situada mais a norte. E tinham a óbvia vantagem de estarem ali, a meio caminho do Oceano e do rio. Com o tempo, e quando as gerações seguintes deixaram a tradição que ligava as suas famílias às pescas, tornaram-nas espaço para viver. Aumentaram o número de divisões. Por vezes o número de andares.

Diz uma lenda de local que a primeira surgiu de um pescador que avistou uma sereia entre a ria e o mar, e que lá montou uma casa para a voltar a ver – essa, pintou-a de uma cor intercalando-a com branco, por recomendação de uma bruxa que lhe disse que o branco afastava o mau olhado. Para tornar a ver a amada, teria de recolher o reflexo que a lua fazia no mar, numa noite em que ela estivesse cheia, e recorrendo a redes de pesca, tudo isto em total silêncio para que o desencantamento da mulher-peixe funcionasse. Não funcionou e o pescador nunca mais a viu, mas a casa lá se fixou, dando o mote às outras. Trata-se de mais uma prova de como o litoral português, sobretudo na gente que faz da orla marítima o seu escritório, se agarrou a este ser mitológico que é a sereia como fonte de inspiração e tradição oral.

Algumas destas casas servem agora o turismo balnear, a complementar aqueles que escolhem ficar a norte, na Pousada da Ria junto às Dunas de São Jacinto, mesmo que estranhamente se encontrem viradas de costas para o Atlântico.

Mapa e Coordenadas de GPS: lat=40.614461 ; lon=-8.750449

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.