Citânia de Briteiros

Classificada como monumento nacional pelo IPPAR desde 1910, a Citânia de Briteiros é um dos expoentes máximos da Cultura Castreja em Portugal e poder-se-ia até dizer que é um dos mais importantes vestígios arqueológicos em termos de culturas celtas no geral. Pensa-se que a maior parte da sua estrutura tenha origens na Idade do Ferro por volta do séc. II a. C. mas existem vestígios de presença humana na Idade do Bronze. A Citânia manteve-se habitada mesmo durante e após a invasão romana, e pensa-se que só se terá tornado desabitada no séc. III d. C., havendo indícios de pontuais repovoamentos durante a Alta Idade Média.

Localizada a 15 km de Guimarães, no concelho de Salvador de Briteiros, a Citânia eleva-se do alto do Monte de São Romão como uma acrópole extensa e imponente, sendo a sua posição elevada uma característica comum em castros e citânias. Com uma área total de 24 hectares, apenas 7 foram inicialmente o alvo de escavações intensivas, com mais a serem efectuadas progressivamente graças aos esforços da Sociedade Martins Sarmento e da Universidade do Minho. Desde a sua prospecção inicial há 130 anos por mérito do trabalho do eminente arqueólogo Francisco Martins Sarmento, que inclusive comprou a propriedade, a Citânia revela-se como um tesouro arqueológico com muitos segredos por revelar.

No interior de um conjunto de três muralhas defensivas concêntricas em volta da área da Citânia e uma muralha a Norte, encontram-se os vestígios de mais de 100 das clássicas estruturas habitacionais circulares que caracterizam os castros, e que teriam sido núcleos familiares. Notáveis são também os vários arruamentos pavimentados e estruturas destinadas a banhos, que, juntamente com os vestígios de um sistema de circulação de água, demonstram a sofisticação civilizacional que o aglomerado habitacional teria atingido. Muito relevante ainda é a presença de uma estrutura circular de maior dimensão que se pensa ter sido um local de centralização política, onde os líderes tribais da região se encontrariam em consilium gentis, sendo por isso designada de “Casa do Conselho”. De facto, as dimensões e características da Citânia levam os arqueólogos e historiadores a considerarem que teria sido um centro de poder no mundo galaico, especialmente da tribo dos Bracari, que se pensa ter habitado a região. Alguns dos núcleos habitacionais foram restaurados, possibilitando um breve regresso à Idade do Ferro.

A Citânia é também o alvo de fascínio devido à presença de duas das icónicas pedras formosas castrejas no núcleo de banhos, um dos mais bem preservados na área da antiga Galaécia, podendo-se visualizar uma das pedras na Citânia e outra no espólio que se encontra no Museu da Cultura Castreja em Briteiros. Estas pedras formosas têm gravuras em relevo que podem ser indicação de uma função religiosa ou iniciática, sendo uma das pedras adornada com o triskel céltico na sua típica versão galaica. A natureza enigmática das pedras formosas parece aliar-se à atmosfera da área onde a Citânia se encontra. Ao passear pelo antigo fortificado, o clima húmido oferece-nos uma paisagem verdejante em redor, que brota pelos arruamentos da Citânia através da presença de árvores de fruto e de musgo a cobrir os antigos pavimentos. Esta atmosfera é complementada pela vista extensa sobre o vale do rio Ave, levando a nossa imaginação para a visão romântica em relação aos celtas: um povo guerreiro e místico em comunhão com a Natureza.

Citânia de Briteiros

Coordenadas de GPS: lat=41.5275 ; lon=-8.315833

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.