Círios da Estremadura

Os Círios são, afinal, romarias, mas romarias feitas na zona da Estremadura. Ganharam este nome porque, por tradição, cada romaria carrega uma vela (um círio) que representa a sua fé e que no final será acesa junto ao altar do Santo que é homenageado. São tidos como círios todas as peregrinações feitas na província estremenha, com percurso que segue no sentido Este-Oeste. Estes movimentos que vão do interior português até ao mar não nasceram do acaso. Desde tempos pré-romanos que o homem sente uma predilecção pelas peregrinações aos cabos do mundo, as chamadas finisterras, zonas de transição, de mudança de dimensão. Uma finisterra é o que o próprio nome indica: um fim de terra. Portugal, enquanto nação atlântica, está naturalmente carregado delas. E quando a terra dá lugar ao mar num jeito poético, em forma de promontório, o homem faz dela ponto de devoção – antes, aos Deuses pagãos, agora, aos Santos cristãos.

Na Estremadura, há muitos e variados círios, sendo quase impossível mencionar todos. Destacando uns poucos, temos os Círios da Nossa Senhora do Cabo, que terminam no Cabo Espichel, os Círios da Nossa Senhora da Nazaré, que terminam no promontório que separa esta vila da Praia do Norte, e os Círios da Nossa Senhora da Atalaia, que terminam nesta freguesia do concelho de Montijo. Muitos deles têm um passado relacionado com um qualquer milagre ou lenda, que quase sempre envolve a aparição da Senhora junto ao cabo. Todos eles seguem este particular movimento de homenagem ao fim do mundo, ou de homenagem ao início de um outro mundo, o dos oceanos, guardado por Poseídon, ou por Neptuno, ou, na versão cristã, por Santos ligados ao mar, como o é São Bartolomeu. Como é evidente, estas procissões não são marca exclusiva da Estremadura. Elas existem no sul e no norte. Na Galiza conhece-se porventura a mais famosa peregrinação deste tipo: o Caminho de Santiago, que, ao contrário do que muitos pensam, não termina em Santiago de Compostela mas sim num outro cabo de fim do mundo que se chama, ora bem, Finisterra. Mas foram apenas os da Estremadura que receberam o nome de Círios.

Estas procissões passam-se no mês de Agosto ou muito próximas deste, estando ligadas ao ciclo anual das colheitas. São geridas e organizadas por um Juiz, que fica também responsável pelos fundos e donativos que as fazem andar para a frente. Em muitos dos casos, um Círio demora vários dias a ser concluído, pernoitando-se em aldeias que vão surgindo no caminho. As romarias são acompanhadas por um ou mais gaiteiros que dão música aos peregrinos que as compõem. A gaita-de-fole na Estremadura – que muita gente não sabe, mas foi instrumento cerimonial usado e abusado nas cercanias de Lisboa, sobretudo em Torres Vedras – é agora uma raridade, e dificilmente encontraremos um Círio que se faça acompanhar das estridências das gaitadas.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.