Circuito Pré-Histórico de Fiais/Azenha

Situado no âmbito do município de Carregal do Sal, o circuito pré-histórico de Fiais/Azenha apresenta-se como um autêntico parque megalítico, composto por vários exemplares de antas ou dólmens, onde se inclui o monumental Dólmen da Orca, assim como um conjunto de gravuras rupestres, com todo este agrupamento de elementos pré-históricos a serem adornados por um belo e tranquilo cenário natural. Efectivamente, num percurso de cerca de quatro quilómetros, é possível aceder a diversos monumentos megalíticos, um abrigo pré-histórico e ainda a complexos de figuras rupestres, sendo o circuito um perfeito exemplo do que teria sido o megalitismo na região da Beira Alta.

O Circuito Pré-Histórico ou Megalítico de Fiais/Azenha proporciona um rico leque de exemplares do megalitismo nas beiras, incluindo monumentos num excelente estado de conservação como é o caso do Dólmen da Orca, e leva-nos a uma experiência de regresso a um passado muito remoto onde gigantescas estruturas de pedra povoavam a paisagem.

Esta fantástica viagem ao passado mais remoto, com monumentos erguidos no IV milénio a. C., é ainda enriquecida pelo excelente estado de conservação de alguns dos monumentos, como é o caso do Dólmen da Orca, embora outros, como a Orquinha da Víbora e a Orca do Santo, não tenham sobrevivido à passagem do tempo e já pouco tenham de intacto. O bom estado de conservação do mencionado Dólmen da Orca poder-se-à dever à idade relativamente mais nova dos monumentos megalíticos nas beiras em relação aos seus congéneres alentejanos, de onde a cultura megalítica terá emanado segundo a opinião de muitos investigadores, e os quais poderão ser bastante mais velhos em cerca de um milénio, mais coisa menos coisa, tratando-se no entanto sem dúvida nenhuma da mesma cultura neolítica tanto no caso alentejano como beirão, sendo que os exemplares neste circuito poderão ter sido erguidos já no calcolítico. No entanto, parece claro ao visitar o circuito que a boa conservação dos monumentos também é devido ao mérito das autoridades na região, tanto no caso dos monumentos bem intactos como o Dólmen da Orca assim como no visível esforço de recuperação mesmo dos monumentos dos quais pouco resta, salvaguardando o máximo possível. É bastante evidente este cuidado na conservação do rico património histórico contido no circuito pré-histórico, assim como a boa sinalização para cada monumento e painéis explicativos, que demonstram um cuidado em proporcionar uma visita informativa e enriquecedora para o visitante. Este esforço é de louvar, e seria bom que todos os municípios tivessem este carinho pelo seu património histórico-cultural.

Dólmen da Orca

O Dólmen da Orca, também chamado de Orca de Fiais da Telha ou Lapa da Orca, é a grande jóia da coroa do circuito e foi considerado monumento nacional em 1974. É um dos maiores dólmens em Portugal, assim como um dos mais bem conservados. Mantém todos os nove esteios da câmara intactos, com apenas uma fractura num dos mesmos, assim como a laje de cobertura, gerando assim uma imponente câmara sepulcral de forma poligonal com uma altura de três metros. Em igual bom estado de conservação encontra-se o corredor ligado à câmara, o qual atinge os sete metros e meio e mantém quinze esteios assim como todas as respectivas lajes de cobertura, permitindo assim ver o dólmen praticamente por inteiro, conservado até aos dias de hoje. Adicionalmente, o Dólmen da Orca preserva ainda parcialmente a sua mamoa, que embora já não envolva uma parte da câmara, que é visível acima da mamoa, cobre praticamente o corredor todo, e apresenta um impressionante diâmetro de 20 metros. Em termos cronológicos, o Dólmen da Orca situa-se provavelmente numa origem entre os finais do IV milénio a. C. e inícios do III milénio a. C., sendo mais recente que outros grandes dólmens no sul, possivelmente um dos factores que leva a que esteja tão bem conservado. Através da fractura num dos esteios da câmara, visível na imagem de apresentação deste artigo, é possível dar uma espreitadela ao interior do monumento e ao seu corredor, permitindo-nos assim visualizar o conceito de viagem além-morte que poderia estar na simbologia destes sepulcros monumentais, enterrados na terra, para que a última viagem fosse como um regresso ao ventre primordial. Para o visitante casual, assim como para o entusiasta do megalitismo, o Dólmen da Orca é verdadeiramente espantoso e um dos monumentos megalíticos que mais valem a pena a visita. A visão deste monumento impõe-se sobre a paisagem, de si também bela, e providencia um intenso momento de contemplação, ao qual se acrescenta a observação do seu interior, como se de uma câmara e túnel secreto se tratasse, oferecendo-nos uma sensação de ancestralidade, oriunda de um passado muitíssimo distante.

Orca de Fiais da Telha

 Orca 1 do Ameal

A Orca 1 do Ameal é um dos dólmens mais antigos do circuito pré-histórico, remontando a pleno IV milénio a. C. O seu estado de preservação não é tão evidente, mas nota-se o cuidado na sua conservação. É composto apenas por uma câmara poligonal simples, aberta, e sem corredor, no entanto está ainda parcialmente soterrada também numa mamoa, que embora menos impressionante do que a do Dólmen da Orca, mantém no entanto algum vestígio, coisa que não se pode dizer de todos os dólmens. O facto de ter ainda parte da mamoa mas não conter corredor faz dela uma anta peculiar, podendo-se reflectir se terá tido em tempos corredor.

Orca 2 do Ameal

A cerca de duzentos metros da sua irmã Orca 1, encontramos a Orca 2 do Ameal, que partilha muitas das características com a sua irmã, embora seja de tamanho mais reduzido. Tal como a Orca 1, a Orca 2 do Ameal é composta por uma câmara poligonal simples e aberta, sem corredor. Adicionalmente, preserva também vestígios de mamoa, na qual está parcialmente enterrada, e a sua cronologia insere-se na mesma da Orca 1. As diferenças estruturais nestas duas Orcas em relação por exemplo ao Dólmen da Orca poderão ser devidas a serem relativamente mais antigas, embora existam outros exemplares mais a sul que partilham da mesma antiguidade, algumas inclusivamente mais antigas, que no entanto são extremamente semelhantes ao Dólmen da Orca. Talvez isto se deva unicamente a um diferente estado de preservação, na qual nem todos os elementos sobreviveram nestas duas orcas, como é o caso dos hipotéticos corredores.

Orca da Palheira

A Orca da Palheira, também chamada de Orca 1 de Oliveira do Conde, é um dos mais peculiares monumentos no circuito pré-histórico de Fiais/Azenha. Isto porque esta anta de grandes dimensões a dada altura foi alterada posteriormente à sua origem pré-histórica (circa 3500 a. C.) e transformada por mão humana para propósitos habitacionais ou talvez para servir de curral ou armazém. Esta acção de transformação foi infelizmente levada a cabo porventura devido a ignorância, num tempo em que talvez não houvesse ainda compreensão do valor histórico/arqueológico e significância deste monumento. A anta foi incorporada numa palheira, e como tal, perdeu muita da sua estrutura original, agravado pelo facto de que alguns dos seus esteios foram reutilizados para a construção da palheira. Consegue-se no entanto compreender que seria um dólmen de nove esteios de câmara, com corredor alongado, cujo percurso foi alterado, visto que do mesmo se utilizaram também esteios. Previamente à sua transformação terá sido então um magnífico exemplar de anta com corredor, e apesar da sua destruição parcial ainda tem grande valor arqueológico.

Orca 1 de Oliveira do Conde

Orca do Outeiro do Rato

A Orca do Outeiro do Rato está infelizmente muito destruída pela passagem do tempo, não obstante ser um dólmen relativamente recente (3500 a. C.), podendo ter sido erguida no calcolítico. Pouco resta do dólmen, apesar dos claros esforços de recuperação visíveis no local, tendo restado apenas vestígios da base da câmara de nove esteios. O corredor tem nove esteios de cada lado, consideravelmente melhor preservados embora de baixa altura e sem lajes de cobertura com excepção de uma única que sobreviveu ao tempo, localizada em cima dos esteios na entrada do dito corredor. Curiosamente, parte da mamoa mantém-se visível com um diâmetro de cerca de 18 m, ou então foi restaurada, visto a mamoa ser das primeiras coisas a desaparecer em muitos dos monumentos megalíticos. É pena esta anta ter sobrevivido apenas em forma fragmentada, pois a sua estrutura parece ter sido de um imponente dólmen de corredor que sem dúvida rivalizaria com outros exemplares na área.

Orquinha da Víbora e Orca do Santo

Infelizmente estes dois exemplares estão praticamente demolidos, talvez pela acção do tempo ou porventura pelo roubo dos seus esteios e lajes para serem reaproveitados para outros usos, possivelmente em séculos anteriores nos quais ainda não havia noção do valor histórico e cultural destes monumentos. Da Orquinha da Víbora sobrou um único esteio e a marcação da extensão do que teria sido a mamoa, e a Orca do Santo encontra-se ainda em pior estado, completamente demolida, apesar de se encontrarem na sua proximidade dois esteios alinhados, que ou foram alinhados posteriormente, após serem deslocados do local original da anta, ou são pedras independentes oriundas de um antigo alinhamento de pedras do qual também só teriam restado duas.

Abrigo da Orca

O Abrigo da Orca não é um monumento megalítico propriamente dito, mas sim uma pequena estrutura em granito, que aparenta ser um abrigo, como o nome o diz, mas cuja idade e função é indeterminada, embora se assuma a sua criação e uso por comunidades pré-históricas. É constituído por uma espécie de cerca com seis pequenos esteios e uma laje que serve de cobertura, com uma abertura que fornece uma visão ampla da região, podendo-se ponderar se não serviria de posto de vigia. O abrigo tem no entanto um valor também etnográfico que lhe foi atribuído bem mais tarde do que a sua possível origem pré-histórica, pois entre o séc. XVI e XVIII foi utilizado como abrigo de pastores, em sistema de rotatividade pelos membros da comunidade (chamado de sistema de “vezeira”). O abrigo merece uma visita não apenas pela sua forma curiosa e variação relativamente ao âmbito megalítico no qual se insere, mas também pela magnífica visão da região circundante proporcionada pela localização do abrigo.

Outros indícios pré-históricos

No circuito pré-histórico existe ainda um conjunto de gravuras rupestres gravadas em dois afloramentos graníticos maciços, os quais contém conjuntos de símbolos essencialmente cruciformes, sendo que alguns dos mesmos em associação poderão formar representações antropomórficas, embora seja algo ambíguo. Mais certa será porém a significância mágico-religiosa destes símbolos, de cuja decifração poderemos apenas especular. Outro achado arqueológico no local bastante interessante é o chamado Habitat do Ameal, que consiste em vestígios de um antigo povoado do neolítico, inclusive das bases de estruturas habitacionais. O local tem um grande potencial de investigação relativamente ao período neolítico e é alvo frequente de explorações arqueológicas.

Lenda do Penedo da Víbora

No circuito pré-histórico encontra-se também um penedo, onde está localizado o marco geodésico, no qual em tempos terá também existido uma outra anta, hoje em dia desaparecida, e que é chamado de Penedo da Víbora. Talvez pela atmosfera ancestral, misteriosa e mágica que um local povoado por monumentos megalíticos emana, e pelo efeito que tal atmosfera poderá ter tido nas populações rurais que foram vivendo em redor do circuito, gerou-se na tradição popular uma lenda associada ao dito penedo. Esta lenda conta que em tempos terá havido em Oliveira do Conde (povoação próxima do circuito pré-histórico) um castelo que albergava uma princesa moura e um príncipe cristão, que ali se tinham refugiado, vindos não se sabe de onde. O casal era muito reservado e escondia-se da população, e só queriam saber de si mesmos. Um dia, no entanto, passou pelo castelo uma velhinha muito pobre, e pediu alojamento ao casal. A este pedido o príncipe e a princesa responderam com escárnio orgulhoso, dizendo à velhinha que o castelo era só para eles e que não a queriam ali. Só que a velhinha era na realidade uma fada disfarçada, que perante tal falta de solidariedade e egoísmo resolveu castigar o príncipe e a princesa, transformando o príncipe num rouxinol e a princesa numa víbora, e o castelo num penedo. Amaldiçoou ainda o príncipe a cantar de dia e de noite, fizesse chuva ou fizesse sol, em cima do arvoredo. A víbora, por sua vez, passou a atar a sua cauda ao dito penedo, e ia beber ao Mondego, para ouvir o rouxinol que era o seu amor a cantar em cima do arvoredo. Ao fazê-lo, a víbora costumava dar de caras com tecedeiras, as quais também iam para o Mondego, e estas costumavam atirar novelos à víbora e fugir de seguida com medo. A víbora costumava apanhar os novelos, e colocá-los num açafate que tinha no penedo. Só que um dia as tecedeiras atiraram-lhe tantos novelos que a víbora ficou sem espaço no açafate, e começou a devorá-los, mas encheu demasiado o ventre e acabou por explodir e morrer, ficando apenas o penedo, o qual se chama portanto Penedo da Víbora. Uma lenda curiosa que transmite uma certa magia a um local que por si só já emana um certo misticismo ancestral e o efeito de nos transportar momentaneamente ao passado.

Mapa e Coordenadas de GPS: 
Dólmen da Orca:               lat=40.443850 ; lon=-7.93819
Orca 1 do Ameal:              lat=40.442480 ; lon=-7.94347
Orca 2 do Ameal:              lat=40.441350 ; lon=-7.94413
Orca da Palheira:             lat=40.444100 ; lon=-7.9503
Orca do Outeiro do Rato:      lat=40.463180 ; lon=-7.92484
Orquinha da Víbora:           lat=40.437400 ; lon=-7.9426
Orca do Santo:                lat=40.450330 ; lon=-7.93418
Abrigo da Orca:               lat=40.444340 ; lon=-7.93545
Complexos Rupestres do Ameal: lat=40.438690 ; lon=-7.94576
Habitat do Ameal:             lat=40.442046 ; lon=-7.9453400
Penedo da Víbora:             lat=40.433733 ; lon=-7.9465830

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Investigador da Universidade Nova de Lisboa nos âmbitos de literatura medieval, culturas e mitologias europeias.