Chula

É interessante notar que hoje é mais comum vermos estudos sobre a chula brasileira do que sobre a chula portuguesa, sabendo de antemão que a primeira deriva da segunda, como é fácil de lá chegar conhecendo o mínimo da ordem cronológica das coisas. A chula é uma dança e é uma estrutura melódica, ambas com particularidades que a tornam única e identificável, à vista e ao ouvido. Se podemos falar de música pop portuguesa setecentista, ela é talvez a que mais se aproxima de tal classificação. Nasceu no povo e por lá se manteve até ao presente dia. Numa altura em que a corte e aristocracia portuguesas iam atrás de qualquer moda europeia, da arquitectura à música, sobretudo a francófona, a dita plebe contentava-se em criar canções suas, com as quais se identificassem. Assim se criou a chula, uma dança competitiva e de passo complicado, de disputa entre dois machos, à semelhança do que é hoje o fandango ribatejano.

Em Portugal, é originária do norte, podendo ser tocada e bailada no Minho (em Guimarães, na Festa do Pinheiro, os bombos brincam com os ritmos chuleiros noite a fio), na Beira interior mais setentrional, mas essencialmente no Douro Litoral e zonas que estejam nas ribas do rio Douro, aquilo a que chamamos o Portugal Duriense – bastará para isso lermos o nome de algumas das mais conhecidas variações neste género (chula de Amarante, chula de Braqueiros, chula da Areosa). É aí, junto ao rio do Vinho do Porto, que a chula é dançada de forma mais complexa, podendo transformar-se num baile de roda ou em linha com direito a orquestra e maior amplitude melódica, em vez de ser apenas um baile de dois homens, ao desafio, como acontece noutras zonas do país. A forma mais evidente de reconhecer uma chula é através da sua progressão de batidas na percussão, muitas vezes bem audíveis quando se recorre ao bombo minhoto, acompanhadas pelos sons da rabeca e da viola e pelo suave timbre do cavaquinho. Esteticamente falando, o bailado da chula é de nítido cunho europeu, fazendo lembrar algumas polkas.

É normal, tendo em conta o sítio de onde vem, que as suas letras falem muito das uvas, das vindimas, e claro, do vinho. Em algumas zonas poderá estar associada a outras tarefas de campo, como por exemplo a da desfolhada. Ainda hoje, muitas bandas dedicadas à reabilitação do cancioneiro tradicional tocam versões mais ou menos afastadas da chula, mas com evidentes afinidades com ela – Zeca Afonso, por exemplo, imortalizou-a com a sua “Chula da Póvoa”, não deixando de usar a sua espevitada melodia para pôr em causa a genuinidade dos novos revolucionários.

Para alguns tocadores, foi a chula que, emigrada para o Brasil e misturada com ritmos africanos, originou o forró, género de eleição no Nordeste brasileiro.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.