Charolas

As Charolas são a versão que a parte oriental do Algarve fez das Janeiras. Ocorrem, como qualquer Janeirada, no primeiro mês do ano, e são um fenómeno ainda hoje acarinhado pelas gentes do sudeste português, ao longo da costa que vai desde as vizinhanças de Faro até à fronteira que se estabelece na pombalina Vila Real de Santo António, com destaque para a pequena localidade da Bordeira, já no lado interior, poucos quilómetros a sul de São Brás de Alportel.

Tratam-se de cantos feitos pelos chamados grupos de charolas, muitos deles com vinte ou mais pessoas, sobre os quais se junta um acompanhamento instrumental que é feito um pouco ao gosto de cada um: embora o uso de alguns metais, bem como de acordeões, violas e violinos, pareçam ser uma constante. Essenciais são as castanholas, dando-lhes um impulso rítmico muito característico e diferenciador face às Janeiras mais nortenhas.

Muitos destes cantares são promovidos pelas Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia, que aproveitam os seus espaços culturais (os Cine-Teatros e as Casas do Povo) para dar palco aos músicos, que quase sempre esgotam. Mas a melhor forma de os ouvir é à porta de casa quando eles, seguindo os passos das Janeiras no norte do país, andam de porta em porta, por vezes procurando a sorte de serem convidados a entrar para se servirem de petiscos caseiros.

O cancioneiro, quando em formato de espectáculo de palco, pode ser dividido em várias partes, separados pelo som austero de um apito: primeiramente, e depois da Marcha de Entrada que alinha todos os instrumentistas, há o Canto Velho, no início, e o Canto Novo, que vem de seguida. No Canto Velho, as canções versam quase sempre o mesmo tema, o nascimento do Deus Menino, numa altura em que o Dia de Reis está para chegar – embora as Charolas se estendam para lá desta data -, e é herdeiro das tradições ligadas aos cantares de presépio. O Canto Novo tem uma componente mais profana e em muitos casos é feito de forma improvisada. Como é habitual, quer num, quer noutro, o sentimento cristão está presente nas letras, mesmo que, no segundo caso, não haja uma explícita alusão a Jesus.

Depois da passagem solene que atravessa o Canto Velho e o Canto Novo, entra a valsa, dita Valsa das Vivas, momento festivo e onde cada grupo pode mostrar o que realmente vale, seja com improvisos instrumentais, seja com improvisos líricos. É a altura em que mais se foge ao carácter grave da Quadra que se vive. Termina-se a actuação com a Marcha de Saída, ainda em ambiente de festa, e com os sempre bem vindos votos de bom ano.

Tal como as Janeiras, o ritual de se cantar de casa em casa tem origem ainda nos tempos em que havia Deuses, quando romanos, nas suas Saturnais, as festas solstíciais, saudavam Janus (de onde deriva o mês de Janeiro) e lhe pediam protecção para o ano vindouro. Janus, Deus das Portas Celestiais, é retratado com dupla cara, uma virada para a esquerda, outra para a direita, num dualismo que, tendo em conta a passagem de ano, tem muito de simbólico: o ano que parte face ao ano que chega. Com o cristianismo, estas invocações transformaram-se em cantigas de louvor a uma nova luz, que numa nova tradição se personificou na do Deus-Menino.

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Um tipo que não desiste de dar a conhecer aos portugueses um país que eles mal conhecem: Portugal.